
"Realizo um sonho a cada dia que trabalho com o paradesporto"
Olhando para outro projeto que tentou desenvolver através do Sport Conimbricense, o futebol para cegos, pergunto-lhe como está a modalidade, sendo que na última conversa com o Diário de Coimbra traçou um cenário negativo?
O futebol de cegos, com muita pena minha, parou em Portugal. Infelizmente, a associação não desenvolveu o projeto. Eu entendo as dificuldades financeiras e respeito, mas acho que não poderíamos deixar de ter desenvolvido esta modalidade. Existia um trabalho muito bom, existiam atletas, bons atletas, e toda uma geração foi desperdiçada. Isso é muito mau. Tínhamos hipótese de chegar no Europeu, também entrar para a parte de qualificação do alto rendimento no Comité Paralímpico, mas foi deixado de lado em prol de uma outra modalidade, o goalball. Eu estou totalmente disponível para tentar desenvolver a modalidade. As pessoas do paradesporto e em particular os cegos são pouco ou nada apoiadas e só eles é que estão a perder. Eu batalho por eles e penso que independentemente das dificuldades, temos de lutar para ajudar os paratletas. No Sport Conimbricense fazemos isso apesar de todas as dificuldades financeiras que temos e vamos tendo os nossos treinos.
E o Showdown?
Foi um bocadinho deixada de lado também, mas aqui ainda vamos procurando fazer uns torneios. Teve um na ACAPO e outro na Associação Nacional, a ANDDVIS. O Sport Conimbricense foi aos dois e temos um campeão nacional, o Fortunato Rocha. E temos a Eunice Santos que, na parte feminina, também é a melhor jogadora. A ACAPO tem vindo a fazer um bom trabalho através do protocolo que tem com o clube. Estão previstos mais torneios para este ano, sendo que o clube vai continuar a desenvolver o Showdown junto com a ACAPO e a ANDDVIS também pretende dar seguimento ao trabalho feito, segundo o presidente me comunicou.
O que é que o move no desporto adaptado?
Ver uma pessoa feliz quando ela está a fazer algum tipo de desporto, uma pessoa que às vezes não tem tantas oportunidades quanto as pessoas ditas normais têm, isso deixa-me com um sentimento de alegria tão profundo que eu não consigo descrever. Por exemplo, ver uma pessoa cega num ginásio, autónoma, numa bicicleta ou a fazer passadeira, e conseguir executar os movimentos como uma pessoa dita normal faz em qualquer outro ginásio, isso para mim é o mesmo que realizar um sonho. É a independência e a saúde dessas pessoas e realizo um sonho a cada dia que trabalho com o paradesporto. Está a ser assim com as pessoas cegas e também com as pessoas surdas. Nós vamos tentando adequar o tipo de trabalho com eles e futuramente também vamos apostar no trabalho com pessoas que têm displasia óssea. Espero conseguir desenvolver esse projeto no Sport em 2026. Estamos a trabalhar para lá chegar e vamos tentar proporcionar-lhes a prática desportiva regular no clube. Acho que vai ser um marco histórico para nós e para os clubes de Coimbra. Só quem vê a alegria no rosto de uma pessoa que tem algum tipo de deficiência a praticar desporto percebe isto. E ver o próximo feliz deixa-me muito feliz.
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