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"Desde criança gostava de coisas religiosas e brincava às missas”

Nuno Fileno é capelão da UC e diretor do IUJP. Um desafio para um padre, com 36 anos, filho de pais separados e desde miúdo encantado com “as coisas da Igreja”, que quer levar até aos jovens e à comunidade universitária uma mensagem de inclusão e de respeito pela pluralidade… tão importante nos tempos que vivemos

Nuno Fileno, padre ordenado há 10 anos, é desde setembro capelão da Universidade de Coimbra e diretor do Instituto Universitário Justiça e Paz (IUJP). Numa altura em que se fala da crise de vocações, termos um padre com 36 anos com este desafio, causa curiosidade. Fale-nos sobre si e como nasceu esta vocação.

Sou padre há 10 anos, mas antes disso tive uma vida comum. Nasci em Almalaguês em 1989. Fiz lá o meu percurso escolar inicial e o secundário em Coimbra. Foi nessa altura que comecei a questionar o que haveria de ser, qual era o meu papel na sociedade, a minha vocação. E creio que a minha história de vida, o meu percurso de infância, até do ponto de vista familiar e comunitário, acabou por me encaminhar para esta entrega ao sacerdócio. Com muitas dúvidas, muitas apreensões, inicialmente... Fiz a candidatura ao Ensino Superior, cheguei a entrar na Faculdade de Letras, mas depois anulei a matrícula e ingressei no Seminário, iniciando um percurso longo, de sete anos, mas muito feliz, porque fui consolidando a certeza de que Deus tinha algo para mim e, sobretudo, algo ao serviço dos outros no contexto da Igreja. Desde criança que gostava de coisas religiosas e brincava às missas. Faz parte do meu imaginário infantil. Depois, quando chegou o secundário, questões mais fortes que colocaram mas, na dúvida, decidi arriscar, porque tinha a certeza de que se fosse a voz de Deus, Ele não poderia enganar--me. Arriscando, fui compreendendo que Deus estava certo e que para mim tinha um projeto de vida.

A família teve influência na decisão?

Na verdade, eu não venho de uma família convencional, católica. Os meus pais foram batizados, casaram pela igreja, e até frequentaram o curso de cristandade, mas a certa altura, a opção deles foi divorciarem--se. Eu sou filho de pais divorciados. E esse aspeto da vida familiar acabou por ser um impulso. Porque tendo eu já, na infância, tendência para a vida religiosa, com este episódio da família, acabei por me aproximar ainda mais. Felizmente encontrei acolhimento na comunidade cristã. Há muitos, infelizmente, que não o encontram, mas a minha história é uma história de acolhimento na comunidade. Era muito pequeno, tinha sete anos e, logo desde essa altura, a comunidade foi-me acolhendo, no coro - sempre gostei muito de cantar -, na catequese... Fui-me apercebendo que a igreja era muito mais do que aquilo que ouvia falar. Não era apenas o grupo de pessoas que se juntava para cumprir a missa ao domingo, mas tinha muito mais grupos. Fui integrando esses grupos e percebendo que havia ali uma outra família que me acolhia e isso foi muito transformador para mim, em particular a partir da juventude.

Como é que tem vivido estes últimos 10 anos?

Com um misto. Por um lado, com muita alegria por ser padre. A maior alegria que tenho no ser padre é estar ao serviço das pessoas, acompanhá-las. Gosto muito de acompanhar espiritualmente as pessoas, de ouvir as suas histórias, de poder ser instrumento de Deus para situações muito concretas, de perda, de luto, de dificuldade familiar - aí também revejo o meu próprio percurso -, até de carência material. Estou muito feliz ao serviço dos outros e a sentir que sou instrumento de Deus. Não estou apenas a fazer aquilo que humanamente é pedido, mas também, em nome de Deus, a cumprir uma missão. E isso faz-me muito feliz. Obviamente que depois há toda uma realidade onde estamos inseridos, um contexto social e cultural onde, às vezes, é mais difícil exercer essa missão. Porém, eu acredito que a minha personalidade - sou muito espontâneo, muito aberto - tem facilitado.

"Estou muito feliz ao serviço dos outros e a sentir que sou instrumento de Deus"

Com 36 anos e padre há 10, tem um desafio importante, ser capelão da Universidade de Coimbra e diretor do IUJP. Como encarou esta missão?

Com alegria, mas também alguma apreensão, porque é uma responsabilidade muito grande. Vivemos numa cidade universitária, onde o ensino superior tem uma marca muito forte. A Universidade é uma instituição centenária e marca culturalmente a região. Sei que aos 36 anos, ser capelão da Universidade e diretor do IUJP é uma responsabilidade acrescida, que requer de mim grande consciência do contexto, grande disponibilidade para servir a comunidade académica e uma certa maturidade. Portanto, encarei o desafio com alegria, mas também com a apreensão própria de quem é jovem e se sente ainda um pouco aquém das exigências pedidas, mas confiando na ajuda institucional, e que conhecendo as pessoas e o trabalho, a missão pode ser desenvolvida com eficácia.

A universidade concentra várias culturas, religiões e proveniências. Qual o papel do capelão numa instituição tão heterogénea?

O capelão está ao serviço da UC e também da Igreja, da Diocese de Coimbra. Há a parte celebrativa, da Capela de São Miguel, que é responsabilidade direta do capelão, seja a missa dominical, sejam casamentos ou outras celebrações de âmbito académico. Depois há o acompanhamento pessoal dos estudantes e esta casa na proximidade geográfica com a UC acaba para facilitar. Eu diria que é celebrar o que diz respeito ao ambiente académico e liga à Igreja e estar disponível para o acompanhamento, não só espiritual, mas também material.

Que papel tem a Igreja num ambiente académico como aquele em que está inserido?

Tem de ser sempre uma voz ativa a favor de todos, da diversidade, da inclusão, sem dúvida, porque isso vem diretamente do espírito do Evangelho. Em tempos como os nossos, em que há tantas questões que se abrem, mesmo do ponto de vista cultural e social, a Igreja tem de ser sempre uma voz a favor da inclusão, da unidade, mas também da pluralidade. A UC é um lugar de muitas culturas, muitos rostos, muitas proveniências e estar ao serviço dessa pluralidade é um desafio muito grande, mas também é a certeza de que é na pluralidade que vamos encontrar um caminho de futuro. Não é na tentativa de tornar unívoco no que tem uma marca pluriforme. Estamos muito atentos, sobretudo aos estudantes que vêm de outros países, e apercebemo-nos da diversidade, pelos pedidos de ajuda que nos chegam e pelas dificuldades que vão sentindo, não apenas monetárias mas de integração na Universidade, que sabemos ser complexa. Queremos estar ao serviço destes estudantes, de direito, da Universidade, que devem receber da instituição todo o acolhimento necessário para poderem prosseguir os estudos com serenidade.

O IUJP é o espaço físico onde esse apoio se concretiza e o projeto mais visível é o Fundo Solidário Next com uma história de 15 anos. Que importância tem este fundo?

O Fundo Solidário Next dá identidade ao IUJP. Não a esgota, mas é rosto do que queremos para o IUJP. É um instrumento ao serviço da pastoral do Instituto, mas também dos estudantes, no que são as suas necessidades. Queremos combater o insucesso e o abandono escolar e todos os meios ao nosso alcance são colocados ao serviço dessa causa. O Fundo Solidário Next implica o apoio monetário, mas também apoio ao estudo ou até ajuda de outros parceiros, como a Cáritas ou o Centro João Paulo II, a nível da alimentação e outras necessidades básicas. Infelizmente cresce cada vez mais o número de pedidos de ajuda e, ao mesmo tempo, sentimos que é mais difícil atender a todos esses pedidos, porque os meios são escassos. Todos os anos fazemos dois jantares e procuramos ter outro tipo de iniciativas para angariação de fundos. Ainda assim, e infelizmente, os pedidos são superiores aos donativos que recebemos.

"Queremos combater o insucesso e o abandono escolar e todos os meios ao nosso alcance são colocados ao serviço dessa causa"

Estamos a falar em quantos pedidos por ano letivo?

No ano letivo passado, recebemos 200 candidaturas, das quais respondemos favoravelmente a 112, num apoio monetário de cerca de 16 mil euros. Ao todo, desde o início do Fundo Solidário apoiámos cerca de 1.000 alunos, mas as candidaturas são sempre muito superiores à nossa capacidade de resposta. Quando não temos capacidade de resposta encaminhamos e informamos os estudantes que há Serviços de Ação Social que podem responder às dificuldades. Há outros casos em que encaminhamos para a Cáritas ou para o Centro João Paulo II.

Voltando ao abandono escolar. Certamente poderá traçar um cenário das condições em que os jovens frequentam o ensino superior. É um cenário preocupante?

É preocupante. Não poderia dizer o contrário, porque seria irrealista. É preocupante. Há uma pobreza envergonhada, de que nos apercebemos pelo tipo candidatura. Há estudantes que têm até um contexto familiar que seria insuspeito de ter qualquer tipo de necessidade, mas percebemos que há situações de iliteracia financeira, o que faz com que não consigam administrar o seu dinheiro, o necessário para as despesas, para pagar propinas ou a residência universitária. Isso preocupa-nos. É outra pobreza e deveria haver instrumentos para ajudar a combatê-la. Depois, temos outras situações, ligadas a contextos de proveniência, de facto difíceis, que são alunos que vieram ao abrigo de enquadramentos da guerra, nomeadamente na Ucrânia. Há estudantes que chegam com esse enquadramento e que contavam com apoio que deixou de existir e veem-se com dificuldades.

E estudantes internacionais?

São talvez o grupo que mais pede ajuda ao Fundo Solidário Next. E nesse aspeto, considero que poderia haver um outro tipo de resposta, mais ampla, da comunidade académica e também da sociedade civil. Temos que acolher, mas também temos de dar condições àqueles que escolhem a nossa cidade ou a nossa universidade ou as nossas instituições.

Isso não está a acontecer de forma eficaz?

De todo. Não é eficaz. Muitos vêm com expectativas, que foram criadas, e que são completamente desajustadas. Chegam cá e, ao contrário de cenários favoráveis ​​​​que tinham idealizado ou lhes tinham prometido, encontram um mundo difícil, complexo, burocrático, onde é difícil sobreviver. É um acolhimento que não é acolhimento, e a esse nível, creio que todos temos muito a fazer.

Após a preocupação demonstrada, que mensagem dar a quem pode fazer mais?

Neste tempo é muito importante termos um discurso claro. Há slogans que se levantam sobre quem deve e não deve estar. Quando temos contacto direto com a realidade, percebemos que os que nos procuram, vieram porque lhes criámos expectativas, foram atraídos por promessas desajustadas. E isso também nos deve responsabilizar. É muito fácil considerarmos uns dignos e outros menos dignos de apoio, mas após estarmos todos no mesmo barco, todos somos dignos de apoio. A sociedade civil, nas diferentes instituições, pode fazer muito mais para que o acolhimento seja efetivo, para que ninguém se sinta a mais, para que também não se vejam defraudadas expectativas, entretanto, criadas. É possível fazermos mais e, até, em rede institucional. O problema é que cada instituição acaba por trabalhar de forma isolada. O Fundo Solidário Next olha mais longe, procura o trabalho em rede e existe há 15 anos nesse trabalho em rede, que é muito importante. Uma só instituição não tem uma visão suficientemente ampla para ter uma noção da realidade, nem sequer instrumentos suficientes para dar resposta às situações.

Entrevista Ao Padre Nuno Fileno

Terraço do IUJP aberto na primavera

O IUJP é mais do que o Fundo Solidário Next. É um espaço cultural, é um espaço de restauração... Que projetos destacaria e gostaria de ver desenvolvidos?

O IUJP tem diferentes valências. Desde logo, a Cafetaria e Restaurante que, desde setembro, tem um rosto: o grupo Trovador. Recomendo sempre uma visita ao serviço de cafetaria e restaurante porque é um serviço de qualidade. Depois, temos grupos que se reúnem na casa, ligados à Pastoral Diocesana, o Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil, o Serviço de Pastoral de Ensino Superior, o Serviço Diocesano da Juventude… São, sobretudo, grupos ligados à juventude e ao mundo universitário. Temos também um grupo de espiritualidade à segunda-feira, duas missas semanais à terça e à quinta-feira, às 19h30. Depois, temos uma vista privilegiada sobre a cidade, que muitos também procuram. A nossa varanda, a varanda do restaurante dá oportunidade para passar uma boa tarde, estudar, conviver... No futuro, vamos abrir um espaço que é de muitos desconhecido: o nosso terraço, que tem uma das vistas mais bonitas sobre a cidade, o rio, o Jardim Botânico e queremos que, em breve, na primavera, esteja acessível a todos. Esta casa tem uma parte marcadamente religiosa e espiritual e queremos que continue a ter essa marca forte. Também queremos melhorar a sala de estudo, para que os estudantes possam encontrar aqui um espaço de apoio ao estudo. No fundo queremos que a casa seja cada vez mais conhecida e mais aberta a todos, à cidade em geral.

Este é ainda um espaço desconhecido de muitos…

Há muita gente em Coimbra que não conhece. O próprio restaurante agora, que procura também dar a conhecer o seu serviço, vai verificando isso. Pessoas que são de Coimbra e não conheciam o Instituto. Portanto, temos que arranjar formas de tornar o IUJP mais conhecido, porque é uma pena por todo esse potencial que tem.

"É muito fácil considerarmos uns dignos e outros menos dignos de apoio, mas após estarmos todos no mesmo barco, todos somos dignos de apoio"

Trabalho com jovens e doutoramento à volta de Miguel Torga e da fé

O contacto com os jovens é o que mais o atrai...

Sim. Sempre gostei muito da juventude, do contacto com o mundo universitário. Na verdade, este é o mundo onde me sinto à vontade e gostaria muito que neste contexto se desenvolvessem outros projetos, diria, em primeira linha, projetos de evangelização.

Que são fundamentais para trazer os jovens para trazer os jovens para a Igreja, certo?

Sem dúvida. Houve aqui um desfasamento, não podemos negar isso. Décadas em que andámos, parece que a dois ritmos. A sociedade a um ritmo, a Igreja a outro ritmo. Felizmente, nos últimos anos houve uma tentativa de aprofundar, de aproximação. O Papa Francisco foi uma figura que aproximou muitos da igreja e também levou a igreja a aproximar-se de muitos. Esse é um horizonte que está em aberto. As Jornadas da Juventude também tiveram aqui um papel fundamental na aproximação da juventude à igreja. São importantes iniciativas que façam com que a juventude reencontre o sentido da vida e, eventualmente, em Cristo encontre o sentido, a luz, para poder prosseguir a vida com maior firmeza.

Estava a fazer um trabalho de doutoramento. Quer dizer qual é a abordagem?

Estou a desenvolver um trabalho de investigação na área da literatura e da teologia com um autor muito conhecido de Coimbra, porque viveu aqui a maior parte da sua vida: Miguel Torga. Miguel Torga não tem propriamente a ver com a teologia, mas sendo um homem que andou a vida toda à procura, numa proximidade muito grande com o catolicismo, seja de admiração, seja até de rejeição, a sua escrita tem tudo para ser um lugar de encontro, ainda hoje, para aqueles que colocam questões sobre a vida e possam integrar essas questões a própria existência de Deus e a própria fé.

Janeiro 5, 2026 . 13:35

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