
Ay-Ó-Linda passa para as mãos dos estudantes e futuro “é obra”
A Real República Ay-Ó-Linda tornou-se, durante a manhã e ontem, oficialmente “autónoma”. Um passo na direção certa da conservação do Património da UNESCO, protegido, e que ganha agora um novo alento para os residentes atuais, que ficam na história da Ay-Ó-Linda como os que conseguiram chegar a este marco.
Mas se os estudantes de agora estão na linha da frente, são os antigos que ajudaram (e muito) a que fosse possível garantir esta independência. «Nada seria possível sem eles. Durante todo este processo, de cerca de oito anos, juntaram mais de 150 mil euros para esta causa», conta Cândido Casimiro, presidente da Associação Real República Ay-Ó-Linda.
Apesar de se considerar que o edifício pertence agora aos estudantes, a aquisição foi efetuada pela associação, que garante a presença dos «atuais» no seu “corpo”. «Temos o Mor da República nos nossos corpos gerentes, o que facilita o contacto e ajuda a perceber as necessidades e a melhor forma de agir». Gerir o dia a dia da “casa”, porém, continuará a cargo dos residentes do momento. «Queremos que as tradições sejam passadas. Lembro-me de, em 1972 quando aqui andei, a minha felicidade maior era os mais novos tratarem-me pelo nome», conta Cândido, relembrando a forte ligação entre as diferentes gerações da Ay-Ó-Linda.
Avançar com a compra do prédio não é uma decisão fácil, mas é, talvez, a melhor forma de garantir «continuidade estável». «Muitas Repúblicas têm problemas como os nossos [de disputas entre repúblicos e donos do edifício] e é difícil os estudantes resolvê-los. Os estudantes não têm 200 mil euros para comprar um edifício, nem o banco lhes faz um empréstimo deste género» indica, destacando que cada República deve «encontrar a sua forma» de manter a sua existência, sendo a Ay-Ó-Linda e o seu processo «apenas mais um exemplo bem sucedido».
Neste momento, Miguel Cepoi é o Mor da República em questão, ficando assim o seu nome inscrito nos anais da Ay-Ó-Linda. «É um momento de grande orgulho. Nunca pensei estar no cargo onde me encontro hoje, mas sei que posso falar por todos os atuais quando digo que é um orgulho ser a geração que está aqui presente».
O próximo passo, indica, serão as obras. «A casa está muito deteriorada, temos buracos no chão, temos fios elétricos onde não deviam estar... Portanto, acho que a partir daqui as obras são prioritárias», explica, complementando, «aqui fecha-se um capítulo, mas [com o processo das obras] inicia-se outro».
O Mor da República apela, ainda, à manutenção da cultura e tradição destes “edifícios históricos”. «Não são apenas edifícios, são cultura, património, tradição, que é necessário manter e garantir porque se simplesmente pararmos agora, já não vai valer mais a pena».|
União entre todos deu nova vida e esperança a Ay-Ó-Linda
«Esta é uma casa de 1937 e as obras foram poucas por causa deste diferendo entre os residentes e os herdeiros» e, apesar das dificuldades, esta é agora uma das razões para celebrar. Com a aquisição da casa, graças a um esforço conjunto entre vários antigos, atuais, Câmara Municipal e Universidade de Coimbra, o património é agora dos estudantes e da Associação Real República Ay-Ó-Linda, fruto de um trabalho que «tem de se manter», avisa Cândido Casimiro.
«É preciso encontrar soluções para cada caso, não só nas nossas obras, mas para garantir soluções para as outras repúblicas. Cada uma terá uma forma de se resolver, é um facto, esta foi apenas a nossa, mas é necessário haver um esforço e um interesse para que se garanta a continuidade das repúblicas», alerta.|
Reitoria, município e Repúblicas unidas
De olhos postos no futuro, tanto o reitor da Universidade de Coimbra, Amílcar Falcão, como o vereador da Câmara Municipal de Coimbra, Ricardo Lino, se apresentaram satisfeitos com este momento que, apesar de não ser «único» ou «o primeiro», é histórico.
«Acredito que esta seja, talvez, a quarta República a terminar este processo, e isso é sem dúvida um momento de orgulho», indica Amílcar Falcão. Os trabalhos de aquisição de novas residências, admite, está “em marcha”. «Sei que está, pelo menos, mais uma República a terminar estes procedimentos», facto confirmado posteriormente por Ricardo Lino. «A República da Boa-Bay-Ela está a terminar os processos legais junto da Câmara para um apoio [do mesmo género] que deverá ser finalizado nas próximas semanas ou até ao próximo mês».
Em ambos os casos, reitoria e Câmara Municipal, apoio está garantido, em especial pela importância das Repúblicas. «São edifícios históricos, muitos deles com dezenas de anos, alguns até centenas, que carregam um peso cultural muito grande e, ainda, são reconhecidas como Património da UNESCO», sublinha Ricardo Lino.
«Manter viva as tradições seculares de Coimbra tem de ser um objetivo» remata o vereador, que vê com “bons olhos” o interesse de entidades privadas em apoiar este género de causas, principalmente vindo dos estudantes que continuam a mostrar um interesse reforçado em garantir a vida das diferentes repúblicas, em união e trabalho conjunto, não só entre residentes e ex-residentes, mas também entre repúblicas.











