
Memórias: Castelo templário de Pombal “despertava” com obras de restauro
Num artigo a abrir a edição do Diário de Coimbra de 14 de fevereiro de 1938, Vergílio Correia, diretor do Museu Machado de Castro e também diretor e editor deste jornal, enalteceu o trabalho que estava a ser desenvolvido para recuperar das ruínas os «notáveis castelos» do centro do país.
Dias antes, o Diário do Governo publicara as verbas concedidas pelas dotações do Ministério das Obras Públicas, através da Direção dos Monumentos Nacionais, para restauro dos castelos de Leiria, Porto de Mós, Ourém, Castelo Branco, Montemor-o-Velho e Pombal, com valores a oscilar, para cada um deles, entre 10 mil e 25 mil escudos.
«O facto merece menção e aplauso, porque confirma que se entrou, decididamente, quanto aos velhos monumentos militares, no ciclo restaurador há anos iniciado. Depois da beneficiação das muralhas do Porto, dos castelos da Feira, Guimarães e Linhares, é o grupo de notáveis castelos do centro do país que este ano é especialmente contemplado. Pouco a pouco, os mais importantes conjuntos militares, do século XII ao XVI, vão recebendo benfeitorias que procuram cicatrizar chagas abertas por séculos de incúria e sevícias, na epiderme e nas obras vivas dos velhos castelos portugueses», congratulou-se o autor, comentando que «a obra de restauração executada nos castelos transcende a finalidade normal, utilitária ou reparadora, para entrar no domínio das realizações que visam ao futuro do país como meta do excursionismo cosmopolita».
Professor de História de Arte da Faculdade de Letras de Coimbra e grande impulsionador das escavações arqueológicas nas Ruínas de Conimbriga, Vergílio Correia (1888-1944) descreveu neste artigo a visita que dias antes efetuara ao Castelo de Pombal, em cujo restauro se trabalhava desde 1937 e que surgia como «o mais favorecido na lista das dotações agora concedidas».
«Se a massa da silhueta recortada no alto do monte sobranceiro à vila é a mesma que os séculos gravaram a água forte no céu, olhado com atenção o castelo perdeu agora aquele ar de ruína abandonada, morta e esquecida dos homens e do tempo», observou, destacando dos trabalhos em curso a reconstrução das ameias, a consolidação dos muros, a remoção de entulhos, a definição da praça de armas e restituição da base da Torre de Menagem à sua forma primitiva.
Assistia-se com estas obras, no seu entender, a «um despertar» do antigo castelo dos Templários.
«Pode já percorrer-se pelos adarves a maior parte do circuito murado. Nas mesmas condições de segurança com que o fizeram gerações de guerreiros, do mestrado do Templo, primeiro e depois do de Cristo, poderão as legiões de turistas que no futuro o visitarem, contemplar do alto dos muros tanto o conjunto estrutural interno, como o formoso espetáculo da vila ativa a seus pés; e nesse exame compreender mais facilmente o que vai de Gualdim Pais à atualidade, a quota parte de esforço heroico dos antepassados na criação e consolidação do que hoje possuímos por obra e graça desses maiores», anotou, concluindo que os obras de restauro, orientadas pelos arquitetos Baltazar de Castro e Joaquim Areal, completavam «harmoniosamente o esforço da valorização que a Comissão de Turismo local tem despendido para tornar atrativo o poiso do seu velho castelo, facilitando a visita ao monumento»










