
Monsenhor Nunes Pereira: um homem e uma obra que unem a região
A ideia partiu do Seminário Maior de Coimbra, última morada terrena de monsenhor Nunes Pereira e o espaço onde ergueu a sua oficina de trabalho, estendeu-se ao Museu Nacional Machado de Castro, guardião de uma vasta obra do artista, e envolveu os sete municípios da região, onde o padre-artista deixou a sua marca, como homem da Igreja e artista exímio. Juntas, as nove entidades elaboraram um vasto programa para assinalar os 120 anos do nascimento do sacerdote e os 25 da sua morte.
Iniciativas que começaram a ser preparadas há um ano e que se vão desenrolar em cada um dos concelhos, com exposições, concertos, teatro, oficinas, colóquios e inauguração de um monumento e de um mural.
Um programa apresentado ontem, precisamente na data em que se assinalaram os 119 anos do nascimento de Monsenhor Nunes Pereira, na pequena aldeia da Mata, Fajão, concelho de Pampilhosa da Serra. O início de uma jornada, que se estende até 9 de dezembro do próximo ano. Um pequeno “deslize” no calendário que o padre Nuno Santos, reitor do Seminário e arauto das comemorações, esclareceu, tendo em conta as “revelações” da investigação de Cidália Santos, curadora do Museu-Oficina Mons. Nunes Pereira, que descobriu, no registo de batismo, uma outra data, 9 de dezembro, como dia do nascimento.
Balizadas por estas suas referências, as comemorações arrancaram ontem e terminam dia 9 de dezembro de 2026, explicou, numa sessão realizada na Biblioteca do Seminário, que juntou representantes de todos os municípios, vários sacerdotes e muitos amigos do homem da Igreja e do multifacetado e talentoso artista. Sessão que começou com um quase impercetível momento musical, a cargo do maestro Paulo Bernardino, que interpretou uma melodia da autoria de Nunes Pereira, e terminou praticamente em apoteose, com o Coro APRe! a interpretar “As Janeiras”, versão recolhida por monsenhor em Coja.
Programa vai ter concertos, exposições, oficinas e colóquios
Virgínia Gomes, do Museu Nacional Machado de Castro, foi a primeira a falar deste «coletivo unido num mesmo pressuposto» e do «compromisso» assumido, por unanimidade, para «dar a conhecer e reconhecer monsenhor Nunes Pereira e inscrevê-lo legitimamente na História da Arte em Portugal. Para isso contamos com todos», desafiou.
Coube a Cidália Santos, investigadora que nos últimos anos se tem dedicado à organização e (re)descoberta da vasta obra de Nunes Pereira, apresentar o “logo” das comemorações, um trabalho gráfico com a assinatura de Rui Veríssimo, que transformou uma das últimas fotografias do rosto de monsenhor numa espécie de xilogravura.
«O sorriso é a sua imagem», não resistiu a dizer. «Novidade» foram três pequenas peças, feitas em arame, que representam a família, levadas à sessão por um dos presentes. «Não conhecíamos nenhum elemento feito em arame», confessou, reforçando a importância de «descobrir e redescobrir o homem e a obra».
Ao reitor do Seminário coube a apresentação geral do programa, que tem o primeiro momento no dia 10 de janeiro, com a inauguração da exposição temporária “Nunes Pereira e o Traço – 1919 a 2001”, na Oficina Museu Nunes Pereira, no Seminário Maior. No mesmo espaço encerram as comemorações, a 9 de dezembro, com a exposição “Instantâneos de Nunes Pereira”, uma mostra apostada em ilustrar a personalidade muito peculiar do artista, que presenteava amigos, conhecidos e desconhecidos com pequenos desenhos e retratos, que elaborava em escassos minutos, num traço seguro, único e absolutamente seu. Obras que, na maioria, não têm assinatura e não precisam, pois basta olhar para saber que são de sua autoria.
Monumento em Coimbra
Será em fevereiro, mas a data ainda não está definida. Na Rua Monsenhor Nunes Pereira, em Coimbra, vai ser inaugurado um monumento de homenagem. Um conjunto escultórico da autoria José Maria Pimentel, com a colaboração dos arquitetos António Monteiro e João Paulo Neves, explicou o chefe de Divisão da Cultura da Câmara de Coimbra. «O legado de alguém mede-se pela capacidade de unir e é bom ver quase toda a região unida em trono desta colaboração», disse ainda Rafael Nascimento.
Ecologia inspira colóquio
Ana Paula Sançana, vice-presidente da Câmara da Lousã, destacou o colóquio “Ecologia, Arte e contemporaneidade na obra de Nunes Pereira”, a realizar em novembro, que constitui a componente «mais científica» das comemorações. A autarca enfatizou, igualmente, a «capacidade de congregação» que o legado de Nunes Pereira representa, visível pela união de entidades.
Um convite às escolas
Cidália Santos referiu a “convocatória” feita às escolas, num convite para os alunos conhecerem o artista. O contacto com o coordenador intermunicipal do Plano Nacional das Artes já foi feito e o objetivo é que «os alunos participem nestes eventos». Há, ainda, um desafio concreto, que envolve os municípios, no sentido de promover a criação artística das crianças, com materiais da natureza, à semelhança do que fez monsenhor, ao usar a madeira ou as pedras roladas.
Criações que darão corpo a uma exposição, que irá acompanhar o colóquio, na Lousã
Oficinas pedagógicas
Alexandra Tomé, vice-presidente da Câmara de Pampilhosa da Serra, destacou, entre o vasto programa, as oficinas pedagógicas “À Descoberta de Augusto”.
«Queremos mesmo dar a conhecer quem foi monsenhor Nunes Pereira, a pessoa, mas sobretudo o artista. Queremos passar essa semente às nossas crianças», sublinhou. Referência, ainda, para o concerto, a realizar em dezembro, em Fajão, que pretende criar uma aliança entre o artista e a mulher, através da música.
Obra inédita lançada em Coja
Paula Dinis, vice-presidente da Câmara de Arganil, fez uma referência particular à obra inédita que vai ser apresentada em Coja, em outubro, “Nunes Pereira. Pelourinhos: símbolos de poder”, que conta com a participação de Regina Anacleto. A autarca recordou que Nunes Pereira foi pároco de Coja e disse que o município pretende recolher o testemunho de pessoas que com ele conviveram para «memória futura».
Música e poesia
Pedro Cardoso, vice-presidente da Câmara de Cantanhede, referiu a «abordagem diferente do legado de Nunes Pereira» que o concerto de 31 de outubro, no Museu da Pedra, vai permitir. Um concerto do Grupo Musical Ançã-ble, onde vão ser apresentados originais.
Margarida Santos, da Câmara de Montemor, referiu o recital de poesia, a realizar no Dia Internacional, no Convento de Nossa Senhora dos Anjos, que inclui uma performance com o Teatro Comunitário de Montemor.
Mural na Ponte de Sótão
O município de Góis está particularmente empenhado nas comemorações e vai inaugurar um mural, com o rosto de Nunes Pereira, junto à Igreja de Ponte de Sótão. Um templo cujo projeto arquitetónico tem a assinatura do sacerdote, que também é o autor dos vitrais e da via sacra, feita em ferro forjado.
«Esta igreja é um ícone da obra de monsenhor Nunes Pereira», afirmou Paula Matos, vereadora da Câmara Municipal, responsável pelo pelouro da Cultura.
A inauguração do mural está marcada para 20 de setembro. Na calha está, num outro muro, igualmente com azulejo partido, construir um segundo painel, com o esboço da igreja.
«Estas comemorações vão permitir que toda a gente conheça Nunes Pereira e a sua obra», concluiu Paula Matos, agradecendo ao Seminário a iniciativa.











