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Aurora boreal de 1938 assustou e muita gente temeu o “fim do mundo”

Na Ereira, tal como noutras localidades, “o sino tocou a rebate, enchendo-se a igreja de imenso povo”, relatou o correspondente do jornal

Raramente avistadas em regiões mais distantes dos polos terrestres, as auroras boreais são um fenómeno luminoso, extraordinário mas natural, que a ciência explica como resultado do impacto das partículas de vento solar com a atmosfera do nosso planeta. Ainda este mês, no dia 12 de novembro, o efeito da mais forte tempestade solar do ano voltou a colorir os céus noturnos num vistoso espetáculo, que desta vez também muitos portugueses, apesar da nebulosidade, puderam observar e captar em fotografia, particularmente nas zonas de Viseu e Figueira da Foz.
Se hoje vemos com tranquilidade um fenómeno atmosférico que nos últimos anos tem vindo até a tornar-se mais comum, noutros tempos a sua invulgaridade, aliada a desconhecimento e falta de instrução, sobretudo em meios rurais, motivava receios e mesmo algum pavor.
No dia 25 de janeiro de 1938, ao anoitecer, foi perfeitamente visível em Coimbra uma das mais demoradas e intensas auroras boreais que se observaram fora das regiões nórdicas. «O belo fenómeno ótico, impressionante, que começou deviam ser 19h30, pareceu a muitas pessoas um incêndio. Não se tratava disso e depressa obtivemos a confirmação oficial de que de facto se tratara de uma aurora boreal», esclareceu o nosso jornal, que recebeu telefonemas de vários pontos, inclusive de Tomar, onde «supunham tratar-se de um monumental incêndio na cidade».
No Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra um jornalista obteve mais informações sobre «o fenómeno que produziu vivo interesse em todo o mundo». «Uma grande mancha do Sol, medindo 2574 milionésimos do hemisfério visível, com um comprimento que ultrapassa 12 vezes o diâmetro da Terra, foi registada no dia 18 deste mês, quando passava no meridiano central. O aparecimento da aurora boreal, que se observou nas nossas latitudes na noite de 25 deste mês, pode atribuir-se à influência desta enor­me mancha do Sol, a maior até hoje registada neste Observatório Astronómico», lia-se no jornal de dia 27.
Na mesma edição, o correspondente do Diário de Coimbra em Verride registou que nesta povoação de Montemor-o-Velho foi «observado pelas 20h20, a nordeste, um enorme clarão vermelho que alarmou a população, dando em resultado os mais disparatados ditos», e na Ereira «o sino tocou a rebate, enchendo-se a igreja de imen­so povo, soltando o mulherio altos gritos que se ouviam a grande distância».
Já o correspondente no Fundão descreveu, no jornal de dia 29, «uma mancha avermelhada no céu, por cima da Serra da Estrela, entre o norte e nordeste, que de instante para instante aumentava de intensidade», enquanto «perpendicularmente notavam-se raios brancos que apareciam e desapareciam, mudando de posição à maneira de focos elétricos em movimento». «Este fenómeno sideral, a que foi dado o nome, por algumas pessoas, de aurora boreal e por outras de estrelas vermelhas, atemorizou mui­ta gente, pois viam nele o “fim do o mundo”», contou.
De Idanha-a-Nova, o representante do Diário de Coimbra falou do «espanto que causou, entre o povo, a mancha solar que apareceu por volta das 21h30», e do Ladoeiro chegou também o relato de «pânico na classe popular» provocado pela «mancha vermelha, que durou alguns minutos e que se extinguiu lentamente», voltando a «observar-se às 19h30 e até às 22h00 aproximadamente, mas desta vez para o noroeste, vendo-se, agora, perpendicularmente, uns raios vermelhos e brilhantes».
Da aldeia de Escalos de Baixo, em Castelo Branco, chegou notícia da «grande admiração e susto em grande parte da população pelo aparecimento da aurora boreal, que se prolongou durante quatro horas».
Por sua vez, o correspondente do Diário de Coimbra em Muna de Besteiros deu conta de um «certo pânico» nesta localidade do concelho de Tondela. «Primeiramente, supôs-se que fosse incêndio na serra, mas quando a vermelhidão desapareceu e apareceu novamente atravessada de vez em quando por fortes clarões, o povo julgou que se tratava de uma coisa estranha e supondo ser o fim do mundo, correu em massa para a capela, pedindo a proteção divina», relatou.

 

(Pode ler hoje esta e outras histórias e curiosidades na edição impressa do Diário de Coimbra. No nosso site estão também disponíveis três centenas de páginas de memórias dos primeiros anos do jornal)

Embora raras em Portugal, há registos de auroras boreais em 1872, 1938, 1957, 2024 e este ano em janeiro e novembro

Novembro 30, 2025 . 11:00

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