
Pelas mãos das gentes da serra nasce uma aldeia Natal em Cabeça
Há quem diga que “O Natal é quando o homem quiser”, mas na aldeia de Cabeça, no concelho de Seia, o espírito natalício nasce da vontade de uma comunidade inteira que há 12 anos começou a decorar a aldeia para viver esta quadra. Não havia tradição nenhuma, mas a vontade foi maior do que o facto de serem poucos. Com pouco mais de 150 habitantes, a aldeia “plantada” em pleno Parque Natural da Serra da Estrela ganha nesta época do ano uma dimensão muito maior do que as suas fronteiras.
A inauguração está marcada para sábado, dia 6 de dezembro, e prolonga-se até dia 1 de janeiro. Porém, os preparativos já começaram no início do mês de novembro com a recolha do material na floresta.
Cabeça, Aldeia Natal tornou-se um sucesso nos últimos anos e há quem faça quilómetros para visitar as ruas e ruelas enfeitadas em tons de verde, castanho e vermelho, cores reflexo da natureza que a rodeia, já que é da floresta de onde são retirados os materiais para as decorações. Mais sustentável, mais genuíno. É assim que se pode descrever o Natal na aldeia de Cabeça. Das mãos dos habitantes, ou podemos dizer das suas habitantes, já que são elas, as moradoras mais velhas da aldeia, que moldam as giestas, a ramagem dos carvalhos e dos pinheiros para fazer coroas, grinaldas, fitas, bolas e animais em madeira que depois ornamentam todas as ruas da pequena localidade.

A ideia é ser uma aldeia Natal o mais sustentável possível e, por isso, dispensam as decorações de plástico ou já feitas. Ali tudo é feito de uma forma genuína pelas mãos das gentes locais, tornando esta época a mais especial. O material, esse vem da montanha, resultado dos desbastes da floresta ou de recursos da agricultura, como é o caso dos casulos do milho que são reaproveitados nas decorações.
«O conceito deste Natal radica na capacidade de envolver a comunidade na construção de um evento único e no seu próprio futuro», afirmou Célia Gonçalves, coordenadora da rede Aldeias de Montanha, ao Diário de Coimbra.
«O que nós vemos é uma comunidade relativamente envelhecida, estamos numa aldeia de montanha, não vale a pena estar com floreados, há um problema de envelhecimento, mas estas pessoas não se resignaram e só prova que é possível criar projetos nestes locais», defendeu.
Em 2013 quando surgiu a ideia de criar o projeto “Cabeça, Aldeia Natal” os habitantes foram envolvidos num processo de capacitação, de trabalhar o conceito, de criatividade, de formação em ecodesign até que nos dias de hoje são eles que recolhem a matéria-prima, criam e fazem a instalação das decorações com o apoio da União das Freguesias de Vide e Cabeça e do Centro de Apoio à Terceira Idade de Cabeça.

Finais de dia são de trabalho na “oficina”
Numa manhã fria de novembro, cerca de 10 populares trabalhavam na “oficina” – local assim designado pelos habitantes e que durante o mês de novembro serve de atelier para as decorações –, juntando a ramagem de carvalho, de pinheiro, aproveitando os raminhos com bagas vermelhas das gilbardeiras para depois atar tudo em arames ou para fazer coroas de Natal.
Fernanda Mendes é uma dessas populares e nem para falar com o nosso jornal pausou o seu trabalho. Emigrante no Luxemburgo, há alguns anos a esta parte, decide tirar férias para «ajudar e colaborar na aldeia Natal», contou. «É uma alegria quando vemos a aldeia enfeitada», comenta.










