
Brinquedos populares despertam memórias e cativam os mais jovens
Óculos de noz, bonecas de papoila, barquinhos de vagens de ervilha, cestas de milhã, espingarda de cana, carro de bois feito de castanhas, cadeirinhas de giesta, rabo de bacalhau feito de caruma. Estes são apenas alguns exemplos dos artefactos populares que fazem viajar no tempo os adultos e que despertam a curiosidade das crianças e jovens que visitam a antiga Escola Primária do Loureiro, em Cernache. Alguns que por lá passam fazem mesmo parte da mostra fotográfica, tendo a oportunidade de se reverem nessa época, partilhando esses momentos e memórias com os seus filhos.
São cerca de duas centenas os objetos que constituem a Escola do Brinquedo Tradicional Popular da Associação Desportiva e Recreativa do Loureiro (ADRL), cuja recolha e levantamento do “Universo dos Brinquedos Populares” começou a ser feita em 1987 pelo mentor do projeto João Amado. «Todos estes objetos têm uma história, em alguns casos milenar, do que se fazia em todo o mundo», como é o caso do arco que remonta à época greco-romano, com várias representações desde então, geralmente em metal. E para quem nunca pegou numa gancheta (também metálica com cabo de madeira) para fazer rolar o arco, são vários os benefícios identificados na antiguidade.
Para que seja fácil e intuitiva a visita, João Amado, com a ajuda de Alice Veríssimo e Narcindo Cunha (todos voluntários que cuidam do espaço) organizou este universo em treze constelações, sendo a primeira a dos transportes, onde se incluem trotinetes, triciclos e andarilhos que ajudavam as crianças nos primeiros passos, todos feitos de madeira e de “tamanho real” que podem ser experimentados e explorados pelos visitantes deste que será um dos únicos no país que reúne tão vasta panóplia de brinquedos populares que outrora foram produzidos pelas crianças com materiais colhidos na natureza ou com desperdícios caseiros. Tudo, ou quase tudo, servia para brincar. Sendo Constantino de Alves Redol o “patrono” desta vasta coleção - não tivesse ele também criado as suas próprias andas (como retrata a imagem no hall da escola), a viagem pela «herança local de um património universal» passa pelos adornos e adereços, brinquedos sonoros e musicais, representação de animais, utensílios domésticos, miniaturas de alfaias e engenhos agrícolas, quebra-cabeças, culinária infantil, entre tantos outros.
Esta não é uma mostra estanque, isto porque há sempre contributos que vão chegando não só do país mas além fronteiras, como é o caso de Marrocos, com brinquedos doados por Jean-Pierre Rossie. Também João Amado continua o trabalho prazeroso de procurar saber sempre mais. «É como respirar», reconhece.
Lançamento de livro nos 45 anos da ADRL
Na obra que é hoje apresentada “Brincar ao Arco e à Rodinha Mágica - dentro de estórias gregas e romanas”, na primeira parte, João Amado destaca os benefícios físicos e morais de brincar com o arco. O médico greco-romano Antílio (século II d.C.) defendia que «correr com o arco relaxava os músculos», enquanto o som metálico produzido «provoca distração e faz bem à alma». Já a segunda parte da obra explora a história e as designações populares da “rodinha mágica” - brinquedo também conhecido como nique-nique ou bufas-gatos - apresentado agora com um simples botão e um fio. Na Grécia antiga e em Roma era conhecido como “Rhombus” e estava sobretudo associado ao universo feminino, integrando o rol de prendas habituais oferecidas às noivas. O segredo estaria nos «poderes mágicos» desse objeto, «relacionados com o encantamento e a sedução».
A apresentação deste que é o segundo livro de João Amado editado pela ADRL está agendada para este sábado, pelas 17h00, por Cláudia Cravo (UC) e Gonçalo Amado (Nova IMS), na Escola do Brinquedo Tradicional Popular, localizado na Rua Caminho Barreira. Esta é uma das iniciativas que assinala o 45.º aniversário da Associação, sendo que está também prevista a inauguração de uma exposição temática sobre a história da ADRL (19h00) na sede (Canto da Rua, n.º1), seguindo-se um jantar volante e a Gala de Aniversário com um sarau de variedades. O livro poderá ser adquirido hoje, no momento do lançamento, ou posteriormente, quer nas instalações da Escola do Brinquedo quer por envio postal. De referir que esta edição conta com o apoio da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, da Câmara Municipal de Coimbra e da Junta de Freguesia de Cernache.












