
Sistema de saúde “tritura qualquer ministro”
O problema está na «arquitetura do sistema» e não se resolve nem com «mais dinheiro» nem a «triturar ministros». O diagnóstico foi feito por João Cotrim Figueiredo, candidato à Presidência da República, antes do início do debate promovido pelo Núcleo de Estudantes de Direito, que decorreu ontem. «Nos últimos 10 anos tem havido um aumento de dotação orçamental da saúde - de 81,43% - e não se tem visto melhoria dos serviços», o que significa que «o problema não é dinheiro, é uma questão de arquitetura do sistema» e representa o «exemplo mais premente de que as reformas estruturais que não se fazem resultam em mau serviço público e em desperdício de recursos». O mesmo se aplica à habitação, adiantou. «Quando se adiam os problemas, quando se tem medo de fazer as reformas estruturais, as situações tornam-se cada vez mais difíceis», acrescentou.
Para o candidato apoiado pela Iniciativa Liberal, a questão da saúde é «particularmente grave» e não é a “cabeça” da ministra que resolve o problema. «Temos triturados ministros da saúde atrás de ministros, porque o sistema tritura qualquer ministro(...). Podem pedir as cabeças que quiserem, mas daqui a seis meses vão voltar a pedir, porque o sistema não vai funcionar», garantiu.
O empresário lembrou que há três anos apresentou «um plano de reforma, profundo, estrutural» pelo qual «ninguém se interessou». «Vamos olhar para os problemas com clareza, com coragem», pois o SNS, com 160 mil profissionais e 17 mil milhões de euros de orçamento, «não pode ser gerido centralmente, tem de ter, nas suas unidades base, os sistemas de incentivo e controlo suficientes para poder funcionar autonomamente». Para o candidato, as Unidades Locais de Saúde representam «um passo», mas não passam de «um remendo, um penso rápido». A Saúde é uma das «questões estruturais» que, no entender de Cotrim Figueiredo, devem merecer atenção especial do Presidente da República (PR), que «tem de ser mais enérgico, mais interventivo, mais exigente, porque os problemas não podem sair da agenda e não podemos contentar-nos com pensos rápidos ou operações cosméticas». Não compete ao PR «tomar decisões», mas deve exercer uma «magistratura de influência», pois «as questões fundamentais para os portugueses têm de ser as questões fundamentais para o PR», disse.
"Não é possível ser feliz, sentir-se realizado, sem se ser livre", sublinhou, reforçando que esta afirmação concentra "tudo" o que defende "em termos políticos"
O candidato submeteu-se, depois, a um conjunto alargado de perguntas, colocadas por Margarida Marques. Informal, bem disposto e com sentido de humor, confessou que preferia ficar fechado num elevador com António José Seguro, pois «não teria problemas em adormecer». Garantiu, também que «não abdicaria» a favor de qualquer outra candidatura. «Gosto de me manter inquieto», disse, fazendo notar que o papel do PR é «criar um ambiente em que as pessoas se sintam livres». «Não é possível ser feliz, sentir-se realizado, sem se ser livre», sublinhou, reforçando que esta afirmação concentra «tudo» o que defende «em termos políticos» e que ao Estado compete «criar condições para as pessoas fazerem as suas escolhas livres e informadas». «A liberdade individual é a base da nossa felicidade e a responsabilidade inerente tem de ser assumida», lembrou.
Assumiu que «promulgaria» e «não enviaria para o Tribunal Constitucional» a nova Lei da Nacionalidade, confessou que uma das situações mais caricatas que lhe aconteceram foi ser chamado «fascista» pelo condutor do lado, num engarrafamento. Sobre a comunicação social, entende que «tem que se exigir que não haja parcialidade» e fez saber que um candidato «já esteve em 35 entrevistas», quando ele contabiliza três. Defensor da independência da magistraturas do Ministério Público e de outras entidades do poder judicial, não deixou de apontar o «corporativismo» que lhes está associado.
Instado a dar conselhos a quem queira ingressar na polícia, Cotrim Figueiredo exortou os jovens a aprenderem o mais possível, pois é necessário «uma visão muito alargada do mundo». «A atividade política é, como a atividade empresarial, de uma enorme vastidão» e contou que chegou a ler revistas de crochet e de tatuagens. «Leiam, leiam muito, leiam tudo», aconselhou, destacando a importância dos livros técnicos, da poesia, da ficção e da banda desenhada. E deixou uma sugestão: “A Mente Justa”, de Jonathan Haidt.
António José Seguro é o próximo convidado
João Cotrim Figueiredo foi o primeiro convidado de um programa de debates organizado pelo Núcleo de Estudantes de Direito. «Enviámos convites a todos», explicou Margarida Marques. Alguns «não deram resposta», mas já estão calendarizados mais dois debates, dia 13 com António José Seguro, e dia 26 com António Filipe.
A Cantina dos Grelhados foi o espaço cedido pela Associação Académica para o encontro, pois a Faculdade de Direito está em obras «e já nem para as aulas temos salas», disse Clara Cunha, reconhecendo que o espaço «não tem as melhores condições» e obrigou os elementos do Núcleo de Estudantes a empreenderem uma rápida operação de limpeza e procederem à disposição das cadeiras, escassos minutos antes da chegada do candidato.











