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“Angústias” são levadas a palco para mostrar que “reexistir” é chave d’ouro

O Teatrão e o teatromosca juntam-se numa peça inédita que vai repensar “As Troianas” e “Hécuba” com uma linha que as atravessa até à atualidade. Apesar de um foco sobre o feminino, a encenação será “bandeira do humanismo”

Sob uma “luz de outono”, quente, mas distante, duas personagens encontram-se em cena e “discutem” o que esperar do futuro. «A história ainda não acaba» indica uma das personagens, apelidada de “Tio”. O Teatrão e o teatromosca tornam, assim, uma amizade de longa data numa peça única. “Dói-me o corpo de jazer nessa esperança” recupera os clássicos “Hécuba” e “As Troianas”, de Eurípedes, e trá-las para a atualidade contemporânea, numa peça que chega aos palcos da Oficina Municipal do Teatro (OMT) no dia 6 de novembro.

São já longos os tempos de encontro, de várias formas, entre ambas as companhias. «A ideia de criar algo em conjunto já existia e este plano estava traçado há já algum tempo» conta Maria Carneiro, parte essencial da encenação da peça e dos trabalhos do grupo.

Unir duas entidades pode, por vezes, ser difícil, mas neste caso, os laços de amizade e de paixão pela arte tornam todo o processo mais fácil. Isabel Craveiro, Milene Fialho, Tomás Barroso e Margarida Sousa são quatro dos atores que dão vida às personagens e explicam como tem sido o trabalho. «Assistir, ao vivo, ao trabalho que aqui é realizado por todos é uma situação de aprendizagem enorme e deixa-me muito feliz», indica Milene Fialho. Isabel Craveiro, veterana dos palcos, elabora ainda um “pormenor” que tornou a ligação ainda mais forte entre todos os intervenientes. «Estivemos juntos em Faro, Serpa e numa aldeia na Covilhã onde vimos filmes, lemos histórias, trabalhámos e desenvolvemos o processo de criação desta peça, sempre juntos. Vivemos um quotidiano diferente, juntos, durante toda a fase de estudo, e isso foi uma situação diferenciadora».

Marco Rodrigues diz que o teatro não “manda a regra” e que serve para exprimir as “angústias” pessoais dos artistas presentes

Sobre a peça e toda a sua estrutura, Marco Rodrigues, encenador, conta que adaptar o texto de Jorge Palinhos não se trata de «marcar uma posição», mas sim tratar «as angústias pessoais». «Retratamos aqui temas de há 2500 anos que conseguimos ligar às nossas angústias atuais, coisas do dia a dia que nos movem o pensamento. “Como é que é possível que isto ainda seja verdadeiro?” é um dos pensamentos que tratamos aqui». Se estas «angústias» se ligarem ao público, será considerado «positivo», mas o objetivo não é necessariamente esse. «Queremos entreter, mostrar a nossa realidade. Não queremos propriamente divertir, queremos, talvez, “divertir” o pensamento e, sobretudo, que as pessoas gostem de vir ao teatro», admite Marco.

Sem levantar demasiado a “cortina”, os atores revelaram que uma das “bases” para estruturar a encenação foram histórias reais, de conflitos reais, como a Palestina e o Afeganistão, momentos que entoam o ritmo da peça, acompanhada com a “decoração musical” de Victor Torpedo. «É dramaturgia sonora» começa por elogiar Marco Rodrigues, dando abertura para Victor Torpedo “explicar” que «é um desafio diferente fazer o som para certos ambientes, mas tive a sorte de poder ver os atores, ver cenas. [Nesta peça] há momentos de cinema, então pude ver essas partes e pensar no som».

Victor Torpedo assume, ainda, um “segundo papel” como o “narrador” que vai “coser” as par­tes da peça, como explica Marco. «É o fantasma da humanidade, o narrador da história».

Peça afirma-se como uma “bandeira do humanismo”

Marco Rodrigues, encenador, explicou que apesar da presença de uma grande quantidade de personagens femininas, esta peça é um exemplo de «humanismo» e não apenas de feminismo. Mesmo com a centralidade na “persona” feminina, conta que se trata de uma história de aprender a «reexistir» e a «recomeçar».

«As tragédias clássicas a que nos agarrámos e que analisámos para chegar aqui têm alguns pontos em comum e o principal é que, no final, fica no ar uma ideia de que a personagem que mais sofre ou que mais perde não desiste. No final fica sempre a dúvida do que vem a seguir, e o que vem a seguir é o “reexistir”. É essa a raiz da tragédia, não é a tristeza e o sofrimento em si, é o facto de que, no fim, não se desiste. É isso que acredito, num “reexistir”, num reconstruir de outro mundo e em pensar: “O que há depois”?».

Histórias com mais de 2500 anos continuam a ser consideradas “espelho” da realidade e isso é visto com “indignação e tristeza”

Outubro 31, 2025 . 09:50

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