
Ahmed Al Ameri: “A compreensão cultural é uma das principais pontes da humanidade”
Diário de Coimbra: Como é que a ideia de “construir” um Centro de Estudos Árabes ganhou vida?
Ahmed Al Ameri:
A ideia evoluiu naturalmente a partir do compromisso duradouro de Sharjah com o diálogo cultural e da visão de Sua Alteza Sheikh Dr. Sultan bin Mohammad Al Qasimi, Membro do Conselho Supremo e Governante de Sharjah, de construir pontes entre civilizações através do conhecimento.
Ao longo de décadas de envolvimento com universidades, instituições culturais e feiras do livro em todo o mundo, uma pergunta continuou a surgir: Como podemos passar de momentos de intercâmbio para uma presença institucional duradoura da cultura árabe dentro do tecido académico europeu?
O Centro de Estudos Árabes é a resposta estratégica a essa pergunta.
Transforma uma história de colaboração numa plataforma permanente; uma casa onde a língua, a literatura e o pensamento árabes podem ser estudados, partilhados e desenvolvidos dentro de um dos contextos intelectuais mais respeitados da Europa. Esta iniciativa reflete uma mudança deliberada do diálogo para a continuidade, garantindo que a conversa entre as culturas árabe e europeia permaneça ativa, ancorada academicamente e intelectualmente sustentável para as gerações vindouras.
Como “aterrou” a decisão de o abrir em Coimbra e na Faculdade de Letras?
A decisão foi diretamente orientada pela visão da liderança de Sharjah, refletindo o compromisso nacional dos Emirados Árabes Unidos em promover a compreensão intercultural, salvaguardar o património humano e construir pontes de conhecimento para as gerações futuras.
Para um projeto tão fundacional, precisávamos de um parceiro que partilhasse este compromisso duradouro. A Universidade de Coimbra, com os seus oito séculos de produção académica, representou essa escolha ideal.
Esta colaboração baseia-se numa relação de longa data, que foi notavelmente reforçada quando a universidade concedeu um Doutoramento Honoris Causa a Sua Alteza, o Governante de Sharjah, em reconhecimento do seu papel como ponte entre culturas.
Escolher a Faculdade de Letras foi também uma extensão natural desta parceria, colocando o Centro no coração dos estudos de humanidades e linguística; e alinhando a sua missão com uma instituição que compreende que a língua e a cultura estão no centro de cada civilização.

Esta nova ligação afeta as relações entre Portugal e Sharjah e, de forma geral, com os Emirados Árabes Unidos? É este o início de novas raízes académicas e económicas?
Absolutamente. Este Centro atua como um poderoso conector, transformando laços históricos numa parceria abrangente e orientada para o futuro. Embora baseado na academia, uma colaboração cultural tão profunda cria inevitavelmente terreno fértil para relações bilaterais mais fortes.
Quando futuros líderes portugueses, diplomatas e CEOs forem graduados deste Centro, a sua compreensão do mundo árabe será inata.
Esta ligação profunda, de pessoa para pessoa, constrói uma confiança e uma boa vontade incomparáveis, o que naturalmente abre caminho para uma cooperação económica reforçada e parcerias estratégicas, plantando novas raízes que beneficiarão tanto Portugal como os Emirados Árabes Unidos durante gerações.
A digitalização de uma variedade de livros e obras de estudo de referência que relacionam Portugal e os países árabes não é fácil, tenho a certeza. Quanto tempo foi dedicado a este projeto e quantas pessoas estão envolvidas?
Tem razão, é um empreendimento monumental. Este não é um projeto de curto prazo, mas um compromisso de vários anos para preservar e partilhar o nosso património comum. Está envolvida uma equipa dedicada e interdisciplinar composta por dezenas de especialistas; desde conservadores e arquivistas digitais até engenheiros de software e curadores académicos de Sharjah e Coimbra.
A fase inicial concentra-se em estabilizar e digitalizar os manuscritos mais frágeis, um processo que exige um cuidado imenso. Prevemos que este projeto evolua ao longo dos próximos anos, criando, em última análise, um vasto corpus digital pesquisável que servirá a investigação global durante décadas.
Num mundo com vários pontos de tensão, a criação de oportunidades de comunicação e aprendizagem sobre diferentes comunidades é a solução para a tolerância e a aceitação?
Eu não diria que é a única solução, mas é provavelmente a mais sustentável e profunda. A cultura e a literatura têm uma capacidade única de falar à nossa humanidade partilhada. Quando um estudante em Coimbra aprende a escrever o seu nome em caligrafia árabe, ou quando um leitor da nossa região descobre um clássico português traduzido para árabe, constrói-se uma ponte entre os nossos povos e culturas, abrindo caminho a muitas possibilidades.
Estas experiências criam uma camada fundamental de ligação pessoal e empatia que torna impossível manter estereótipos simplistas.
É uma forma de unidade silenciosa, persistente e poderosa, e quanto mais formos capazes de aprender uns sobre os outros, mais próximos ficaremos.

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