
Falta de jovens na área agrícola preocupa e deixa dúvidas
Com uma população, por vezes, considerada envelhecida, os setores agrícola e florestal sofrem com um horizonte de “pobreza” humana para cultivar e cuidar de terrenos. Vários hectares não cuidados são propriedades privadas cujos donos não têm conhecimento que existem ou, simplesmente, foram deixados ao abandono por falta de possibilidades financeiras para cuidar de espaços herdados, por exemplo.
Apesar do futuro não se apresentar como “risonho”, ainda existem formas de se reverter a situação. A Organização Florestal Atlantis (OFA), é uma entidade, sediada em Cantanhede, que apoia indivíduos com campos florestais. Estas ajudas são variadas, desde financiamento a doações de produtos e, ainda, força humana. A OFA tem também peritos em várias áreas de ação florestal e informa sobre novas legislações, direitos, obrigações e outros assuntos de ordem logística, documental e formativa.
É através desta entidade que muitos dos seus associados se inteiram de novas indicações e, simultaneamente, beneficiam de importantes ajudas a nível prático e material. Com um funcionamento que prevê proteger o terreno e os seus responsáveis, a OFA é uma organização não governamental, sem fins lucrativos, que promove a responsabilidade e a formação de todos os envolvidos nas suas ações e, ainda, os interessados em aprender.
Jorge Sousa é coordenador da OFA e engenheiro florestal de formação. Com o seu conhecimento, apoia tanto a entidade como os seus associados. «A Organização Florestal Atlantis nasceu em 2009 e serve de elo de ligação entre proprietários florestais e os outros agentes do território», indica. Para além de se ligar ao Estado, por exemplo, conecta-se com a «componente científica», como as universidades, para que sejam levadas a cabo ações de formação e de investigação. «Há, ainda, uma outra vertente do que fazemos, que é a candidatura a fundos comunitários, que financiam projetos que beneficiam diretamente os proprietários florestais».
“É necessário existir uma capacitação dos jovens e mostrar que o setor tem potencialidades financeiras de vários níveis”
Com um dos temas mais pensados dentro da comunidade a ser o despovoamento jovem e o desinteresse dessa faixa etária nas atividades florestais e agrícolas, Jorge Sousa reflete sobre algumas formas de reverter – ou controlar – a situação. «O primeiro passo começa com a valorização do território através do reforço da ligação entre os jovens e a floresta» começa por indicar, desenvolvendo, que é necessário «mostrar às novas gerações que há oportunidades reais no setor, onde se podem aplicar conhecimentos e participar ativamente na transformação do território». Para o especialista, é preciso que os mais novos entendam que toda área está envolvida e que as oportunidades económicas são diversificadas. «A floresta pode ser rentável. Há espaço para construir carreiras nas áreas de produção e conservação». Todos estes fatores são «mais valias para a sociedade» e representam «percurso profissional sólido».
Setor em evolução e constante qualificação profissional
Outra das necessidades que o setor apresenta encontra-se na formação e qualificação, cuja solução passa pelo “repovoamento” de jovens e modernização. «O número de alunos que entra em cursos da área ainda é muito curto. É vital atuar cedo nas escolas para estimular vocações e garantir futuro à profissão», analisa, relembrando ainda que «é necessário dignificar a própria profissão». Para se (re)dignificar há a necessidade de «demonstrar a sua importância» e isso obtém-se ao «mostrar a importância da floresta», com projetos apelativos. Jorge Sousa sublinha que, apesar dos desafios encontrados, o setor apresenta grande potencial que se pode encontrar através de passos essenciais para «garantir que a floresta continue a ser um pilar da vida».

“É difícil ver um futuro promissor mas…”
Desinteresse na área florestal preocupa alguns dos produtores e donos de terrenos. Mesmo com uma possível aposta por parte do Estado, os próximos anos podem ser difíceis, principalmente para donos de áreas cujos filhos não têm conhecimentos.
«Não sei o que acontece aos meus terrenos quando eu já não conseguir trabalhar mais». Esta é uma das maiores preocupações de Arcindo Carvalho, de 81 anos, que, como reformado, passa grande parte do seu tempo nos campos de que é dono. Mesmo sem saber o futuro, continua com alguma esperança de que o panorama mude, mas, sobretudo, mantém uma grande vivacidade e regularidade nas visitas aos seus terrenos.
«Cresci no campo porque os meus avós e os meus pais tinham alguns terrenos. Sempre vivi na floresta e na agricultura» explica, com emoção. Tendo tido a oportunidade de crescer junto de terrenos agrícolas e de floresta, cedo lhe ganhou o jeito e o amor, mesmo acabando “afastado” em França. «Primeiro acabei por ir embora por causa da Guerra do Ultramar. Depois fui trabalhar para França e quando voltei, adquiri alguns terrenos» conta.
A aquisição destes espaços, «uns numa freguesia e outros noutras», mantêm Arcindo ocupado e fazem-no «sentir melhor», porém há alguns pormenores que o deixam reticente. «Os meus filhos não querem nada com isto e isso é o normal das gerações mais novas», uma tendência que pode mudar, mas que ainda não se verifica.
No início, relembra, o retorno financeiro vinha de um produto que, atualmente, perdeu relevância. «Antes tinha muitos pinheiros porque se fazia muito comércio de resina e a sua madeira, mesmo que mais demorada [a crescer] valia a pena. Hoje em dia é mais os eucaliptos», realça, explicando que, em anos anteriores, havia muito mais mão de obra. Esta mudança de produtos motivou alterações nas plantações, mesmo que não veja grande retorno. «Estamos a pagar madeira ao preço do século passado, com uma inflação de 3% em 20 anos. Sem rentabilidade, a malta jovem foge, perde o interesse» indica, rematando, «se não é possível fazer vida disto ou ter um rendimento [válido] ninguém quer isto como profissão».
"Se não é possível fazer disto vida ou ter um rendimento [válido] ninguém quer isto como profissão"
Para o agricultor, neste momento, as soluções são escassas. «Tem de existir uma reviravolta aqui e um apoio muito forte do Estado, do Governo ou então as grandes empresas [que exploram a floresta] têm de comprar estes terrenos pequenos, juntá-los e cuidar deles» defende. Segundo o próprio, os campos começam a ficar ao abandono porque muitos «já não têm força para trabalhar», já faleceram ou, simplesmente, já não se conhecem os donos, o que dificulta os trabalhos de cuidar e manter o mato tratado. «Hoje em dia à muitos sítios parcelados e privatizados. Se essa for a solução, num primeiro momento, talvez tenha de vender os meus terrenos, principalmente quando as pernas já não aguentarem» conta.
A OFA e o Sr. Arcindo
Sem ter em vista a entrega dos seus terrenos a outras pessoas, foi há cerca de cinco anos que o Sr. Arcindo Carvalho se juntou à Organização Florestal Atlantis (OFA). Juntos, conseguem manter o terreno bem «amanhado» e organizado, sempre dentro das legalidades.
«Dão-me mão de obra, adubo e algum financiamento» explica. Com a OFA tem apoio no que toca à limpeza do mato sempre que «se sente mal» ou há «mais trabalho» que o normal.
Arcindo sublinha que, para si, neste momento, os seus terrenos podem vir a ficar com a OFA, num olhar de esperança para que não sejam vendidos ou abandonados. «Se a OFA quiser, pode ocupar-se deles quando eu não conseguir mais».

“É preciso mais apoios e menos burocracias”
A floresta tem uma grande importância em todos os seus aspetos, desde o sequestro de carbono até à parte financeira. Mesmo com este relevo, André Costa identifica dificuldades que mantêm as pessoas afastadas deste setor.
Para que se consiga manter uma floresta limpa, segura e financeiramente apta é necessário tempo e cuidado. Mesmo com tempo e cuidado, porém, alguns problemas podem aparecer que necessitam de responsabilidade e de ação eficaz que, por vezes, precisa de passar por autorizações que se perdem em burocracias demoradas e com custos associados.
No início do novo milénio André Costa, professor de profissão, começou a trabalhar em algumas plantações. «Tenho alguns hectares, de pinheiros e de eucaliptos», que começou a tomar conta no fim de herdar alguns terrenos. Para além do fator económico, realça ainda outros benefícios. «Sou professor a cerca de 70 quilómetros de Cantanhede, mas todos os fins de semana venho aqui e trabalho no campo. É o meu ginásio, o meu momento de descansar e ouvir os passarinhos».
Há mais de 20 anos que toma conta das suas plantações, apesar de um interregno de «três ou quatro anos» por motivos profissionais. Apesar de ter estado longe, afirma que mal teve oportunidade de regressar para mais perto dos seus terrenos, recomeçou o trabalho. «Voltei a pegar em tudo e limpei os meus hectares».
Segundo as tendências que encontra junto das suas matas, André realça que é difícil controlar alguns pormenores visto que dependem de outros donos. «Eu limpo as minhas matas regularmente, mas muitos dos espaços à volta do meu não têm quem os limpe porque os donos não estão interessados, são imigrantes ou nem se conhecem porque foram herdados de duas ou três gerações e as pessoas não sabem bem onde ficam». Por causa destas dificuldades, o professor tem vindo a adquirir alguns destes terrenos, porém encontra alguns entraves: a burocracia e os preços.
"Este é também o meu ginásio, o meu sítio de descanso, onde eu venho para ouvir os passarinhos"
«As pessoas acham que estão a vender em Lisboa, inflacionam os preços. E depois, quando se compra ou se quer fazer alguma coisa, é preciso pagar 400 ou 500 euros e enviar papelada que fica “perdida” na burocracia» explica. «Na minha ótica é preciso mais apoios e menos burocracias». Nestes casos, apesar de entender que o registo é necessário, todos os custos associados não justificam a rentabilidade que advém da aquisição de certos terrenos, o que desmotiva os produtores. «Não faz sentido não existir apoio para estes casos, ou outros até. Se eles existissem talvez não houvesse tanto abandono».
Com as dificuldades encontradas nos terrenos circundantes, as espécies invasoras que “atacam” os campos abandonados acabam por “cair” para os de André Costa. «Já as retirei eu junho, mas agora vou ter de repetir o processo».
Futuro da floresta e apoios OFA
«Não é um futuro que eu goste de ver». Este “futuro” ainda não é real, mas pode ser, apresenta-se como vazio de novos donos e cheio de desinteresse. «Tento incutir este amor aos meus filhos, mas é difícil. Os amigos vão sair, brincar, jogar, não querem propriamente estar a vir para aqui» conta. Na sua ótica, é importante deixar às próximas gerações mais do que se tem, mas esse trabalho apenas pode recompensar se existir interesse. «Vou comprando alguns terrenos e agregando para não os deixar desaparecer, mas quando penso no futuro, não sei como vão ficar».
Relembrando que muitos donos não sabem dos seus terrenos, defende que as novas indicações dos BUPi (Balcão Único de Prédio) vão ajudar nesse aspeto. «Os proprietários vão passar a saber os seus limites e o que é deles, isso vai ser positivo».
Com vista a não deixar os seus associados “desamparados” a Organização Florestal Atlantis (OFA) garante apoios de vários formatos e é assim que se valorizam as matas. «Há aqui alguns projetos que nos são apresentados por eles [a OFA] e isso é positivo no sentido em que, sem ela, talvez não os conhecíamos». Para André Costa estes projetos que vão surgindo acabam por ajudar a «valorizar o que temos» e dão uma “força” extra para manter o território limpo, seguro e pronto para se apresentar a novas iniciativas – nacionais e internacionais.











