Areaclientedc
Última Hora
Pub Dc Unicafarma 20260601
Legua Dc
Pub

Jorge Conde: “Hoje, a região, o país, o mundo, sabem que há um Politécnico de Coimbra”

O Politécnico de Coimbra celebra amanhã o seu dia, o último da “era” Jorge Conde. Oito anos de “um novo ciclo” para o IPC, confirma o presidente, num balanço em que fala do “muito” que está feito e do que fica por concretizar.

Em julho de 2017, na tomada de posse para o primeiro mandato, prometeu “um novo ciclo” para o Politécnico de Coimbra. Oito anos depois, a promessa foi cumprida?

Sim, claramente. O Politécnico de Coimbra (IPC) entrou num novo ciclo e deixa condições para entrar num outro novo ciclo a partir de agora. Há oito anos, o IPC era aquilo que eu chamava um agrupamento, uma amálgama de escolas. Cada escola trabalhava para si e havia uns serviços distribuídos entre S. Martinho do Bispo e o Penedo da Saudade que faziam a interface entre as escolas. Houve um professor que no dia da minha tomada de posse me disse: “não vá lá para cima a atrapalhar as escolas”. Era esta a imagem que se tinha do presidente e dos serviços do IPC. Havia a ideia de que as escolas se juntarem nunca iria acontecer. Oito anos depois provámos que não é verdade, que os serviços fazem sentido e conseguimos pôr as escolas a trabalhar entre si e à volta da marca Politécnico. Claramente cumpriu-se esse ciclo. Internamente, com a reorganização interna e a forma como os serviços se articulam, mas também externamente. Hoje, a região, o país, o mundo, sabem que há um Politécnico de Coimbra. Temos parceiros pelo mundo que sabem que somos Politécnico e nacionais no mesmo sentido. Temos parceiros regionais que passaram a trabalhar connosco. Conseguimos fazer essa ligação à região. Aliás, apraz--nos registar que já extravasou o IPC - que está instalado em quatro ou cinco concelhos - e que é uma realidade na Universidade, que também já saiu de Coimbra. Tudo isto faz-me acreditar que a nossa ideia para o ciclo de oito anos está cumprida e que permite, no futuro, fazer novos caminhos no Politécnico.

No editorial do último número do jornal do IPC, distribuído com o Diário de Coimbra, diz que deixa muito por fazer, mas também muitas transformações. O que fica por fazer? E que transformações?

Para já, novos serviços. Há oito anos não falávamos, por exemplo, de um sistema integrado de qualidade. Hoje somos uma das instituições no país com a garantia máxima de acreditação por seis anos. Tínhamos um sistema residual de comunicação. Cada escola tinha o seu, assim como os serviços centrais. Hoje o sistema de comunicação é integrado, funciona à volta das escolas todas e temos o jornal com maior tiragem da região e um dos maiores do país. Ao encartarmos no Diário de Coimbra, logo aí já seremos um dos maiores jornais da região. E depois distribuímos online 12 mil PDF. Alterámos radicalmente a nossa forma de comunicar. Além disso, criámos momentos que unem o Politécnico, e serviços como o Mais Sustentável, a Saúde Ocupacional, o Gabinete de Desporto. Serviços que contribuíram para a modernização que o IPC precisava de fazer.

"O Politécnico de Coimbra (IPC) entrou num novo ciclo e deixa condições para entrar num outro novo ciclo a partir de agora"

E o que fica por fazer?

Ficam muitos projetos iniciados. Lançámos há oito dias a primeira pedra de uma residência que gostava de estar a inaugurar. Infelizmente, as burocracias fizeram com que andasse três anos nos corredores do Ministério e da Câmara. Portanto, fica para fazer. A mesma coisa com a residência de Oliveira do Hospital.

As burocracias fizeram com que demorasse muito tempo a arrancar com a obra, está praticamente pronta, mas não fica pronta. Não há garantia de uma escola nova em Oliveira do Hospital. O concurso está há meses na CCDR, mas o financiamento não está garantido. Quero acreditar que o será e que, em parceria com a autarquia, será possível fazer a nova escola. Também ficam por fazer modernizações em Coimbra. Há oito anos disse que gostava de acabar com o Polo 2 da ESEC e juntar tudo no Polo da Solum. Não foi possível. Porque não houve financiamento, não houve condições para resolver. Adiámos eternamente a melhoria das instalações do Polo 2, porque todo o dinheiro que lá gastássemos era estragar.

Não fizemos à espera da solução, mas ela não foi possível. Também fica por fazer algo que está à espera da revisão do RJIES: a alteração dos estatutos. Eles já eram maus quando foram feitos. Com o avançar do tempo estão cada vez piores. Espero que seja possível rever os estatutos em bom. Que o novo Conselho Geral possa fazer um trabalho que transforme o Politécnico numa instituição mais moderna. Não conseguimos fazer parte dessa modernização por culpa dos estatutos. Há muito trabalho pela frente, mas acredito que deixamos condições para que evolua. Costumo dizer que os ciclos têm um ponto de partida e um ponto de chegada, e o ponto chegada é determinado pelo ponto partida. A nova liderança vai partir deste ponto e deixar num ponto melhor.

Todo o nosso trabalho, a partir de determinada altura, foi quase inglório. Trabalhámos muito para crescer, mas tivemos governos a atrapalhar.

 

Atrair alunos, nacionais e internacionais, é aposta concretizada? 

Todo o nosso trabalho, a partir de determinada altura, foi quase inglório. Trabalhámos muito para crescer, mas tivemos governos a atrapalhar. Ainda que ache que, nestes oito anos, o governo ajudou mais do que atrapalhou, no caso concreto da captação de estudantes, atrapalhou. E atrapalhou porque, a determinada altura, a tutela e a Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior fizeram um despacho do número máximo de admissões e cortaram em cerca de 40 a 50% as vagas de aumento. Um curso com 100 vagas ia buscar ao concurso nacional 100 estudantes, 20 aos concursos especiais. E depois entre 20 a 30% aos internacionais. Num curso de 100 alunos conseguíamos receber 120 ou 125. Quando chegámos havia 16 estudantes internacionais matriculados e dois anos depois tínhamos 160.

Hoje, matriculamos uma média de 50 por ano. Porquê? Porque esse despacho trava o aumento. Ainda assim, conseguimos diversificar a oferta. Temos muito mais alunos de mestrados, nos CTeSP aumentou o número de alunos e conseguimos ir não diminuindo nas licenciaturas. Se formos olhar para as licenciaturas, elas cresceram até ao aparecimento do despacho, a partir daí fomos perdendo vagas. Neste momento, estarão ela por ela com aquilo que estava quando chegámos. Tudo devido a determinações do governo. De qualquer modo, criámos uma dinâmica tremenda de captação dos estudantes. Além dos eventos internacionais - vamos a dois a três por ano captar estudantes - fazemos 80 a 90 ações no país num esforço de captação que deu resultados. Apesar destas contingências, crescemos, na captação de estudantes de base, nos que voltam para fazer mestrados, pós-graduações e microcredenciações. No universo das microcredenciações e das pós-graduações o crescimento é exponencial.

 

Entrevista A Jorge Conde Fig 39

A descentralização, a criação de novos polos é outra das bandeiras. Que balanço é que faz e que importância têm?

É um balanço muito positivo. Uma instituição de ensino tem a obrigação de criar conhecimento e criá-lo com quem precisa dele. Nós criamos conhecimento com as empresas, com as pessoas que formamos ou com outras que trabalham nas empresas. As empresas estão tecnologicamente mais bem apetrechadas que os politécnicos e as universidades na maioria das vezes. Trabalhar com elas, com o território tornou-se premente. Como é que achámos que devíamos fazer isso? Aproximando-nos das empresas e fazendo-o de forma endógena. Não vamos para a Lousã falar de coisas do mar. Não faz sentido. Mas já faz sentido ir para a Lousã falar de floresta, ou para a Mealhada e Anadia falar de desporto ou de vinho. Levámos ensino para estas regiões na expectativa de nos aproximarmos das necessidades do território e das empresas.

Criámos cursos que tivessem a ver com o território, e, ao mesmo tempo, abrimos uma porta para todas as outras coisas que o Politécnico faz. Quando conjugamos os polos que criámos com os Gabinetes de Inovação Regional que abrimos - além dos quatro polos, abrimos 13 gabinetes - conseguimos perceber que as empresas estavam sedentas desta aproximação à academia, aos sistemas de inovação e ciência e que é possível fazer coisas com elas. Estamos em fase de crescimento, não estamos numa fase consolidada. Essa consolidação também fica por fazer.

Nós criamos conhecimento com as empresas, com as pessoas que formamos ou com outras que trabalham nas empresas. As empresas estão tecnologicamente mais bem apetrechadas que os politécnicos e as universidades na maioria das vezes.

O IPC ganhou o estatuto de Polytechnic University. A ideia que fica é que o objetivo que está na base não está totalmente concretizado. É uma ideia ou é realmente assim?
Não, é assim. Estamos a meio do caminho, a meio da ponte. Conseguimos ser Polytechnic University porque, enfim, eu não gosto de chamar nomes às coisas, mas houve algum provincianismo da Assembleia da República. Para o mundo, naquela que é a língua universal, nós somos universidade politécnica. Em português continuamos a ser Instituto Politécnico. A decisão de passagem a universidade politécnica, ou não, é meramente política. Não muda nada do ponto de vista estatutário, muda do ponto de vista comunicacional e de como a sociedade nos vê. Em especial no mercado externo. Fora do país, quando dizemos que somos Instituto Politécnico não percebem bem do que estamos a falar. Se falarmos numa universidade toda a gente entende.

O impacto também acontece do ponto de vista interno. Temos famílias a fazer um esforço tremendo para o filho sair da terra, onde há um Politécnico, para fazer um curso, fora, numa universidade. E isso não é sinal de qualidade, é sinal de imagem. Não há garantia que o curso no Politécnico não é melhor do que o da universidade. Mas, do ponto de vista da imagem, ainda há a ideia que existia há oito anos e agora sentimos menos... “uma universidade é uma universidade”. No Politécnico de Coimbra temos noção que somos melhores que muitas universidades. Mas não pode ser o nome a determinar a imagem de qualidade. Por isso, a ideia de que não chegámos ainda ao estatuto da Universidade Politécnica e de que só chegaremos cumprindo obrigações iguais às que têm hoje as universidades, é gratificante. Não passamos por decreto, seremos porque merecemos.

Entrevista A Jorge Conde Fig 61

A integração na Universidade está fora de questão?

A integração está fora de questão. Nunca. Integração, nunca. Combaterei sempre a integração. Fusão é outra coisa. Acho que podemos conversar sobre ela. Há uma diferença colossal entre uma coisa e outra. Uma coisa é sermos integrados e respondermos àquilo que o integrador decide. Na fusão juntamos vontades, juntamos sinergias e aproveitamos o melhor que existe de cada um dos lados. Aí podemos conversar. Ao contrário do que se fez crer e que ainda se faz crer - que fui eu que estive contra desde o início e que não quis conversar - isso não é verdade. Estive sempre contra a integração, mas disponível para conversar. Poderíamos ter conversado, ter dado passos, mas não foram dados. Nesse capítulo fica tudo por fazer. O meu desejo é que quando as lideranças das duas instituições acharem que isso se deve colocar, o princípio seja o da fusão, de uma negociação para se chegar a um ponto em que ninguém perde. Não vejo nenhum problema em que se converse. Eu estive sempre disposto a conversar.

A integração está fora de questão. Nunca. Integração, nunca.

Entretanto, uma das conquistas foi a possibilidade de os Politécnicos terem um programa de doutoramentos…

Enquanto o Parlamento foi capaz de travar a mudança de nome, não teve como travar os doutoramentos. O nível instalado nos Politécnicos era de tal forma grande, em alguns casos melhor do que em muitas universidades, que não foi possível dizer como é que a universidade A tem 20 doutoramentos, quando do ponto de vista qualitativo tem menos condições para o fazer, do que o politécnico B. E a prova é que logo na primeira leva, os Politécnicos submeteram mais de dez doutoramentos e hoje já lhes perdi a conta. Nós temos um em funcionamento e dois submetidos e estamos a preparar a submissão de pelo menos mais dois, que acredito no próximo ciclo serão submetidos. Voltamos à história da qualidade. As exigências que nos estão a colocar são rigorosamente iguais às das universidades e é inequívoco que estávamos preparados para fazer doutoramentos. No caso do IPC estamos um pouco mais atrasados, porque durante muitos anos nos acomodámos. Não criámos centros de investigação, os nossos professores investigavam noutras universidades, nomeadamente a de Coimbra. Hoje, a maioria dos professores investiga dentro do Politécnico, os centros que foram criados ou os polos de investigação vão ter o seu natural desenvolvimento e acredito que na próxima avaliação FCT, dentro de quatro ou cinco anos, estaremos em condições de todas as escolas do Politécnico terem para oferecer mais do que um doutoramento.

No caso do IPC estamos um pouco mais atrasados, porque durante muitos anos nos acomodámos. Não criámos centros de investigação, os nossos professores investigavam noutras universidades, nomeadamente a de Coimbra.

Há uma relação com as empresas que foi reforçada…
Reinventámos a Academia de Empreendedorismo, a incubadora de empresas, o INOPOL, que estava praticamente morto. Hoje é uma verdadeira incubadora, estão a nascer ali ideias e empresas. Além disso, criámos o Gabinete de Interface com a Comunidade que se relaciona com as empresas. Foram criados 13 gabinetes em 13 autarquias, em que os nossos técnicos atendem empresários, que não tendo condições para contratar uma consultora ouvem e trabalham com o Politécnico no sentido de captação de investimento, da modernização das suas empresas. À conta desse trabalho - na altura, num desafio com a CIM - achámos que podíamos dar um salto ainda maior e criar uma estrutura verdadeira de partilha. Na altura, o Politécnico de Coimbra, a CIM e o Conselho Empresarial da Região do Coimbra. Mais tarde, a CIM entendeu que o parceiro deveria ser o Instituto Superior Miguel Torga e, desse trabalho há, neste momento, um projeto que não vou dizer um embrião, mas um bebé, com muito para fazer e crescer para ser uma coisa visível e sólida. Os primeiros passos são animadores, são de grande conversação e partilha com as empresas. Acredito que a associação que criámos com as empresas venha a dar frutos. Para nós, uma maior atualização do ensino e investigação que fazemos, para as empresas a possibilidade de se modernizarem e crescerem com a inovação que ajudamos a produzir. O caminho de aproximação às empresas vem na sequência da aproximação ao território. Começou pelas câmaras, passou para as empresas. Esse é o caminho de todas as instituições de ensino superior, porque é fundamental.

Acredito que a associação que criámos com as empresas venha a dar frutos.

Qual é a situação atual em termos de empregabilidade?

Com algum risco de erro mínimo, podemos falar de pleno emprego. Há dez anos, com facilidade, encontrávamos um licenciado num trabalho não-licenciado. Isso diminuiu, há muito emprego nas áreas de qualificação e, portanto, maioria dos nossos diplomados está a trabalhar na área. Alguns não estão onde querem ou naquilo que gostariam, mas estão a trabalhar na área. Esse pleno emprego, na pior das hipóteses, acontece ao fim de um ano de acabarem o curso. Há alguns anos, ao fim de um ano, tínhamos empregabilidades que rondavam os 80% ou 90%. Hoje esses 80% a 90% atingem-se mais cedo e o pleno emprego atinge-se ao fim de um ano. A maioria dos diplomados estão satisfeitos com a empregabilidade e nós estamos satisfeitos porque o feedback é muito positivo.

Julho 8, 2025 . 07:30

Partilhe este artigo:

Junte-se à conversa
0

Espere! Antes de ir, junte-se à nossa newsletter.

Comentários

Fundador: Adriano Lucas (1883-1950)
Diretor "In Memoriam": Adriano Lucas (1925-2011)
Diretor: Adriano Callé Lucas
95 anos de história
bubblecrossmenuarrow-right