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Quinta de São Francisco é “templo” da floresta

O papel da Natureza é cada vez mais discutido e, para a proteger, é preciso medidas que tenham em vista um presente e futuro sustentável

A Quinta de São Francisco situa-se em Aveiro e para além do seu trabalho original, na proteção florestal e ambiental, também serve de “casa” ao instituto “RAIZ”, uma entidade de investigação na área da floresta e do papel.

No que toca à investigação, são vários os objetivos que se pretendem alcançar. Desde estudos de sementes melhoradas à qualidade do solo, o trabalho científico projeta um futuro de maior qualidade e sustentabilidade para todas as oportunidades que a floresta oferece, tanto na parte natural - fauna e flora - como na parte económica.

João Ezequiel é curador da Quinta de São Francisco, mas também é membro do “RAIZ”, e abriu as portas de ambos os locais ao Diário de Coimbra, que diariamente faz uso de um dos principais produtos da floresta: o papel. «Tentamos fazer produtos que promovam uma economia circular e sustentável, queremos fomentar uma bioeconomia», explica o responsável.

O ponto principal de toda a estrutura é realizar o máximo de ações possível para proteger a floresta, ao mesmo tempo que não descarta as suas oportunidades financeiras, mas sempre com cuidado para não a levar à extinção. «Pensamos sempre em tornar a economia portuguesa menos focada no carbono e mais preocupada com ser sustentável» indica.

Com um trabalho regular no que toca a encontrar soluções corretas e sustentáveis, João Ezequiel conta sobre o projeto “Floresta do Saber”, um dos grandes pontos da Quinta de São Francisco. «Queremos ensinar. Não queremos apenas fazer bem a nível interno, queremos mostrar, principalmente aos mais jovens, como fazer bem». Dentro desta iniciativa, virada para alunos do pré-escolar até ao ensino universitário, podem encontrar-se um conjunto de atividades adaptado a cada público. «Fomos abençoados com esta quinta, é um “hot-spot” de biodiversidade. Queremos ensinar às gerações mais novas, com os nossos bioprodutos, que existe uma alternativa à economia atual», refere.

“É preciso trabalhar com estas novas gerações do futuro, para que elas cuidem melhor da floresta. Muito melhor do que nós fizemos”

Realçando a «sociedade atual» relembra que a maioria das pessoas vive «nas cidades» o que pode ter contribuído para o “esquecimento” das florestas e dos seus temas fulcrais. «Há alguma mudança nos últimos tempos, o que é muito positivo. Mas com uma sociedade atual, urbana, é normal que as pessoas estejam mais afastadas do campo e da Natureza. Nós gostamos de trazer aqui os estudantes porque podemos mostrar as atividades em meio florestal e, assim, mudar essa mentalidade», revela.

Dentro do edifício “mãe” da “Floresta do Saber” é possível encontrar várias exposições, rotativas, que chamam a atenção para vários temas de cariz florestal. Neste momento, uma das mostras expõe algumas diferenças cruciais da floresta virgem, ou natural, e da floresta plantada. «As pessoas não têm propriamente noção disto, mas as florestas plantadas representam cerca de 3% de todas as florestas do mundo e chegam para colmatar 50% das necessidades madeireiras do globo», destaca o curador, continuando, «muitas vezes fazem-se críticas a estas florestas, mas na realidade ninguém quer ou precisa de tocar no ecossistema natural. Sim, é verdade que nestes ambientes plantados existe menos biodiversidade, mas a diversidade quer-se no habitat natural».

O responsável identificou que nesta quinta existem «cerca de 500 espécies», apenas de flora, com a fauna adicionada, são mais «perto de 110 espécies diferentes de vertebrados», com as aves a dominar, com cerca de 70 espécies.

Todos os seres vivos presentes no solo da Quinta de São Francisco são protegidos, da melhor forma possível, para não interferir com as rotinas e hábitos naturais de cada espécie. O curador refere que alguns mamíferos, são “catalogados” por câmaras noturnas.

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Jaime Magalhães Lima e Júlio Henriques

Quinta e Coimbra com ligação especial e única

Não é apenas a Natureza que marca o espaço em Aveiro. Também a literatura e o “amor” ligam figuras antigas aveirenses e da cidade dos estudantes

Um facto curioso sobre a Quinta de São Francisco é a sua ligação a Coimbra, mais especificamente ao Jardim Botânico.

«No século XIX [19] Jaime Magalhães Lima era o dono aqui da quinta, vivia aqui, e a sua irmã era casada com o diretor do Jardim Botânico de Coimbra, Júlio Henriques», conta João Ezequiel.

Este parentesco acabou por facilitar o acesso de Jaime Lima a certas sementes, que dominam - ou dominaram - o ecossistema da sua “casa”. «Júlio Henriques recebia sementes de todo o mundo, como se pode ver pela diversidade do Jardim Botânico e as espécies exóticas foram chegando aqui». O eucalipto foi uma das espécies que chegou e germinou no solo aveirense, e mantém-se desde 1880 até hoje.

A proteção do espaço e da natureza veio não apenas como um fator de sustentabilidade, mas sim com uma visão pragmática, holística e espiritual. «Na altura não existia eletricidade. Esta casa tem nove lareiras, para aquecer cada ponto, por isso a existência de eucaliptos ajudava a que se tivesse sempre lenha disponível para as alimentar. Para além disso, Jaime Lima era escritor e um grande pensador, e a natureza ajudava o seu processo criativo e a sua espiritualidade».

Mesmo assim, o curador revela que a bioeconomia já estava presente na mente do antigo morador do terreno que, segundo consta, plantou os eucaliptos por uma “terceira” razão. «Existia uma visão de bioeconomia do mel. As abelhas precisam de pólen, de néctar, para fazer o mel e os eucaliptos têm uma flor que tem bastante néctar e que pode germinar todo o ano, ou seja, perdia-se a dependência do pólen da primavera», explica o curador, que menciona uma visão à frente do seu tempo de Jaime Lima.

Foto Secundária Floresta Circundante
Floresta da Quinta de São Francisco é mista, mantendo elementos naturais e outros plantados

Eucalipto: Espécie é “naturalizada” apesar de não ser nativa de Portugal, mas não é invasora nem “problemática”

Contrariamente ao que se costuma pensar, os eucaliptos, apesar de não serem autóctones de Portugal, são uma espécie considerada “naturalizada” no meio ambiente português.

«Aqui temos espécies do Canadá, do Brasil, do Japão e da Austrália, ou seja, dos quatro cantos do mundo. Temos uma floresta plantada muito forte, que serve um propósito», explica João Ezequiel. Como tal, a floresta “construída” para as necessidades da comunidade é diferente da natural, que foi sendo «moldada ao longo dos anos» contendo uma biodiversidade que é importante proteger.

Com uma floresta de produção tão extensa e com uma grande variedade de espécies, o eucalipto continua a ser vilanizado e visto como o problema dos incêndios. «O eucalipto é uma das melhores espécies arbóreas aqui em Portugal. Tem um alto consumo de carbono, ou seja, consome muito carbono que é nocivo para o ambiente e para o Homem, e por isso tem uma taxa de crescimento muito elevada. Para além disto, cresce rapidamente após um incêndio e as suas sementes não são duradouras, não têm essa tendência “agressiva” das espécies invasoras» explica o curador e, também, especialista em botânica.

Na Quinta de São Francisco existem várias espécies de eucalipto, principalmente porque têm uma presença forte no mercado da pasta de papel. «Existe um mito muito grande de que há empresas que beneficiam dos fogos para materiais mais baratos, mas a verdade é que a madeira ardida não é propriamente rentável. No caso da pasta de papel, e Portugal tem uma das melhores pastas de papel do mundo, a utilização de madeira ardida contamina o material final, perde qualidade» conta.

O combate aos incêndios e a “força” do eucalipto

«A gestão florestal é essencial para prevenir os fogos». Este é o ponto principal que João Ezequiel explicita para combater os incêndios.

Segundo o próprio, não existem «fórmulas mágicas», mas sim atitudes responsáveis que se têm de manifestar. «É necessário cumprir as leis e, sobretudo, entender como gerir as matas e cuidar delas» indica.

Neste caso, não existe uma espécie especialmente melhor que outra para “não arder”, ou seja, não existe uma problemática diretamente ligada com o eucalipto, mas sim um conjunto de dificuldades, das quais apenas uma depende da população: cuidar das matas. «A temperatura alta, a baixa humidade no ar, a proximidade das árvores, ervas, arbustos, tudo isto são fatores que não se conseguem controlar, principalmente nas florestas naturais. A única coisa que podemos fazer é ter em atenção todos os cuidados para manter a natureza segura, do ponto de vista humano».

Tendo em consideração que os incêndios, por vezes, deflagram de forma natural, o perito explica a introdução dos eucaliptos nas áreas ardidas. «É uma espécie que se adapta rapidamente ao meio ardido e que consome muito carbono, é perfeita para esse tipo de cenários».

Espécies Invasoras

Em final de conversa com o Diário de Coimbra, o curador explica um pouco das diferenças entre uma espécie invasora e uma espécie “naturalizada”. «As espécies invasoras são “agressivas”, reproduzem--se muito depressa e conseguem projetar a sua semente a grandes distâncias, roubando espaço e nutrientes às plantas locais», ensina, continuando, «no caso das espécies naturalizadas, foram árvores exóticas [ou seja, oriundas de outras partes do mundo] que vieram para Portugal há muito tempo, e que se adaptaram ao clima e ao solo do local onde se encontram, conseguindo reproduzir-se de forma natural e não agressiva».

Na quinta existem algumas plantas invasoras, como as acácias, que a primeira solução para as combater é «arrancar». «Se conhecermos bem e as conseguirmos distinguir, podemos passar e arrancá-las antes de conseguirem causar mais danos ao terreno».

João Ezequiel deixa o convite para que todos passem na quinta para aprender a floresta.

“A gestão florestal é fulcral para evitar os incêndios. A má gestão das matas é o principal fator dos fogos em Portugal”

Junho 30, 2025 . 17:10

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