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As obras de «A Fábrica das Sombras»

Até 6 de julho, no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, pode visitar a exposição «A Fábrica das Sombras», apresentada no âmbito do Anozero’25 Solo Show. A mostra propõe um percurso imersivo pelo universo sensorial de Janet Cardiff & George Bures Miller, dois dos mais influentes artistas contemporâneos no campo da arte sonora e multimédia.

Reconhecidos internacionalmente pelas suas instalações site-specific e pelas experiências áudio e vídeo que criam, os artistas — que vivem e trabalham no Canadá — apresentam 13 obras que ocupam e transformam o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, desafiando a perceção do espaço e ativando novas camadas de escuta e interpretação.

A exposição pode ser visitada de quarta a domingo, das 11h00 às 19h00, com entrada livre.

Esta semana, na sexta-feira, 27 de junho, às 16h00, acontece a última sessão do ciclo «Conversas e Partilhas», com Manuel Portela a falar sobre Literatura e outras artes. Ainda na sexta-feira, às 18h00, há uma apresentação do Coro das Mulheres da Fábrica, ao ar livre. Ambas as iniciativas são de entrada livre.

No sábado, 28 de junho, entre as 14h30 e as 17h30, decorre o workshop «Fronteiras permeáveis: corpo-objeto-lugar», com Noeli Kikuchi, o custo é de 5,00 euros com inscrições aqui.

House burning, 2001

Janet Cardiff & George Bures Miller
Projeção de vídeo com áudio.

Loop de 4 min.

No longo e vazio corredor da Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, ouve-se o crepitar do fogo e o ruído de sirenes, ao mesmo tempo que uma câmara vai mostrando a imagem dos bombeiros em movimento. Ainda que neste momento, porém, não pareça haver sentido de urgência, sobrepõem-se a memória do corpo e o alarme dos sentidos para antecipar o que aí vem — uma casa a arder. Para o vídeo, os artistas organizaram o incêndio supervisionado de uma quinta abandonada, ainda que a obra sugira o trabalho efetivo de combate às chamas.

Nesta linha ténue entre realidade e ficção, House Burning é um convite a uma espécie de voyeurismo, sem sabermos ao certo o que vivenciamos. Um questionamento sobre a veracidade dos factos, cujo eco se amplia pela atual experiência coletiva global: inquietação, desinformação, descrença e a crescente suscetibilidade a desastres naturais. Sem esquecer que invocar aqui o fogo é relembrar que o próprio chão está em brasas, construídas da revolta e da injustiça que ditaram que o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova seja retirado à cultura do país. Este incêndio é emocional e cultural, e testemunhá-lo é prever uma mudança irreversível; limitamo-nos a aguardar pelo desfecho, impedidos de modificar o curso.

Real ou simulação, a sensação de urgência e desconforto instigados, temperados pelo carácter subjetivo e emocional do som e do espaço, criam uma obra multifacetada e multissensorial, a qual apenas se completa pela experiência que, mais do que individual, é memorial e coletiva.

Mafalda Ruão

Desde a sua fundação em 2015, o Anozero — Bienal de Coimbra tem afirmado um modelo único de colaboração entre o Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, a Câmara Municipal e a Universidade de Coimbra, trazendo à cidade exposições e artistas que desafiam as formas tradicionais de pensar, fazer e experienciar arte.

 

Junho 27, 2025 . 08:52

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