
“Direito à escolha é um direito humano imprescindível”
«O Direito básico de escolher é imprescindível». Esta foi uma frase da autora dos textos presentes no livro “Retratos de Vida Independente” que acabou por resumir toda a intenção desta coletânea de 13 histórias reais. A jornalista Graça Barbosa Ribeiro, apoiada pelo fotógrafo João Hasselberg e por um conjunto de voluntários, que contaram a sua história, construíram um livro que visa mostrar a importância da assistência pessoal na aquisição de uma vida independente para pessoas portadoras de deficiências de vários tipos.
Vidas em retrospetiva
A autora conta como é necessário reaprender para “quebrar” as barreiras do estigma, criadas de forma natural. «Este projeto deu-me a oportunidade única de dar voz a quem não a tem. Fui aprendendo a ouvir e a ter paciência», conta a jornalista. Esta “barreira” da paciência é uma das mais difíceis de se ultrapassar. «É necessário aprender o ritmo da pessoa com quem estamos a interagir para não nos tornarmos desinteressados» e, sobretudo, não ter «medo de pedir para repetir», uma coisa que foi, por vezes, recorrente para que a mensagem não se perdesse.
João Rodrigues, programador informático e portador da doença artrogripose (doença congénita que cria malformações e fraquezas musculares, por exemplo), relembra que o «Direito à Liberdade e Autonomia é um direito das pessoas» juntando que «não é por uma pessoa ter uma deficiência que deixa de ser uma pessoa». Após referir que participar neste projeto foi «prazeroso», realça que todos têm «sonhos, medos, vícios» e que a assistência pessoal, no caso destes cidadãos, é uma “extensão” daquilo que cada um é, dando-lhes acesso a todo um “novo mundo” de oportunidades que antes não existiam.
A assistência social tornou-se uma extensão de cada um dos cidadãos que tiveram contacto com ela
Em complemento, Graça Ribeiro comentou que, por vezes, as atividades mais simples não são «pensadas como um desafio» para o cidadão comum. «Beber água é uma ação banal. Para as pessoas com deficiência, esta não é uma ação simples», referiu, tendo João Rodrigues continuado, «para a maioria das pessoas sair de casa e ir a algum lado não é um desafio mental. Para nós, temos de pensar em cada detalhe para chegarmos a horas, por exemplo acessos e deslocação».
Questionado sobre as dificuldades encontradas em fotografar as pessoas representadas no livro, João Hasselberg refere que abraçou o projeto com «medo» e «alguma insegurança» por não ser a sua zona de conforto, mas após um “briefing” das histórias partilhadas através de Graça Ribeiro, e contactando com as pessoas, entendeu que era «um desafio como qualquer outro».
A iniciativa foi criada pelo Centro de Apoio à Vida Independente (CAVI) da Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra (APCC) e nasceu no âmbito do Programa MAVI (Modelo de Apoio à Vida Independente) que, desde 2019, tornou real um projeto-piloto que atribuiu assistentes pessoais a um grupo de cidadãs e cidadãos com deficiências causadoras de implicações sérias na sua autonomia.
No ano em que a APCC celebra 50 anos de existência, e um ano depois das festividades referentes aos 50 anos do 25 de Abril, «fez todo o sentido fazer a apresentação deste livro», refere Maria Cristina Soutinho, da direção da associação. A luta pelos Direitos Humanos ganhou uma força redobrada após a Revolução dos Cravos, com os direitos das pessoas deficientes a ganhar todos os anos mais “terreno”, porém, como se apresenta nesta coletânea de histórias, ainda existe um longo caminho a percorrer.
“O Direito básico de escolher é imprescindível. Escolher entre coisas diferentes tem de ser possível”

“O desconhecido é a chave”: João Rodrigues partilhou a sua visão sobre o “capacitismo” e o seu desconhecimento
Num momento de análise sobre o trabalho realizado até agora, e sobre o que o futuro pode reservar, João Rodrigues explica que, por vezes, o “preconceito” para com pessoas com deficiência vem de um local de desconhecimento e de “insegurança” e “medo” de questionar.
«O capacitismo vem de uma “invisibilidade social”, da ignorância. Existe uma grande necessidade de exposição dos nossos problemas para que se perceba que, na grande maioria das vezes, temos os mesmo problemas. Mesmo que em graus diferentes, mas são os mesmos. As lutas são comuns. A exposição - a quem realmente interessa - não existe porque não há esse interesse. Não temos “medo” de explicar o que sentimos e o que precisamos, só precisamos de ser vistos e compreendidos».
Esta “falta de compreensão” vem, na sua opinião, por uma cultura que “ignora” sem conhecer.











