
“Só saía de casa quando a minha mãe me podia levar, agora informo que vou sair”
Catarina Vitorino, de 30 anos, fruto de uma doença degenerativa (distrofia muscular congénita) move-se numa cadeira de rodas desde os seis anos de idade. É natural de Águeda, mas, quando chegou a altura de ingressar no ensino superior, veio para a Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra e, hoje em dia, está a terminar o doutoramento e é também ativista dos direitos humanos.
Do 5.º andar do seu apartamento, onde recebe o Diário de Coimbra, vê um mundo em mudança, mas ainda muito longe do ideal. Nesses tempos de caloira, a mãe teve que deixar a vida em suspenso para a acompanhar quase em permanência, mas desde que Catarina Vitorino passou a beneficiar do Serviço de Apoio à Vida Independente da Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra (APCC), muito mudou no seu dia-a-dia e no da família, com a ajuda de duas assistentes pessoais.
«Estava na APCC a fazer um estágio e tive conhecimento» do serviço, que decorreu de uma decisão governativa, que começou como projeto-piloto e que é, hoje, uma resposta social da Segurança Social, mas que, por dificuldades de financiamento, não abrange tantos cidadãos com deficiência quantos necessitariam desta ajuda para uma vida mais independente.
«Continuamos a ser praticamente os mesmos do início do projeto-piloto», que arrancou em 2019, refere Catarina Vitorino, em entrevista ao Diário de Coimbra, salientando que a filosofia de vida independente permite que os beneficiários «consigam definir a própria vida», com «liberdade e autonomia».
«Se não fosse a assistência pessoal, futuramente, o destino seria sempre a instituição. É o que acontece à maioria», salienta a psicóloga clínica, uma das 13 pessoas que conta com a ajuda do Serviço de Apoio à Vida Independente da APCC e que deixa o seu testemunho no livro “Retratos de Vida Independente”, que vai ser lançado hoje, às 15h00, pela associação, no Café Concerto do Convento São Francisco.
"Se não fosse a assistência pessoal, futuramente, o destino seria sempre a instituição. É o que acontece à maioria"
Com textos de Graça Barbosa Ribeiro e fotografias de João Hasselberg, a publicação, que se enquadra nas iniciativas das comemorações dos 50 anos da Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra, assente na partilha das 13 pessoas apoiadas pelo serviço. Ao olhar para trás, Catarina percebe hoje, como testemunha no livro, que «ter deficiência é muito diferente de ser deficiente».
«Graças à assistente pessoal, eu e a minha mãe passámos a ser duas pessoas – não há, hoje, uma relação simbiótica, como antes […] Hoje sentimos como é importante estarmos juntas, porque queremos estar juntas e não porque temos de estar», lê-se no livro que hoje será apresentado em Coimbra, com a presença dos protagonistas.
«Antes só saía de casa quando a minha mãe me podia levar, agora informo que vou sair», salienta.











