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Sexta-Feira, 3 de Setembro 2010
Escrito por Sofia Piçarra   

Coimbra assinala 100 anos da república a partir de domingo

“Um país sem alma
é um país sem pátria”

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A implantação da República “foi algo muito bem preparado e que mobilizou camadas mais
desprotegidas da sociedade”, sintetiza o coordenador das comemorações, Amadeu Carvalho
Homem. Hoje, observa, “temo estarmos a criar gerações de jovens apaticamente apátridas”

Diário de Coimbra (DC) A primeira iniciativa de comemoração do centenário da Republica é no próximo domingo, dia 31 de Janeiro. A data foi escolhida para assinalar o golpe de 1891?
Amadeu Carvalho Homem (ACH)
Sim, assinala a Revolta Portuense, que foi a primeira tentativa armada contra o regime monárquico, e que foi verdadeiramente emblemática. Foi um episódio romântico, pouco preparado, e essa míngua de preparação foi o que lhe custou o sucesso. Colaboraram apenas três oficiais, todos os outros tinham uma baixa patente.

DC Que verbas foram reunidas para custear as actividades?
ACH
Houve um pedido de financiamento à Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República (CNCCR) para que fossem realizadas algumas iniciativas. A nossa maior preocupação é o cumprimento atempado das promessas de financiamento da CNCCR, muito lenta na disponibilização de fundos. Não está em causa a vontade de ninguém, mas os processos burocráticos são uma dificuldade que não deve ser subestimada.

DC Que papel desempenha nas comemorações?
ACH
Sou apenas um elemento de ligação e coordenação entre pólos, não tenho meios nem técnicos nem logísticos para mais. O que vier a realizar-se em Coimbra depende exclusivamente da vontade e dos meios da UC e da CMC, através da vereação da Cultura. Sou conselheiro científico da exposição, juntamente com Alexandre Ramires, que pertence à Comissão Executiva.

DC Integra também a Comissão Cívica para as comemorações. O que já foi feito neste âmbito?
ACH
As actividades da Comissão Cívica para as Comemorações do Centenário da República – que é a estrutura mais activa e empenhada até agora – são muito centradas no INATEL, e essa entidade já realizou coisas, como acções de formação com professores. É ela que promove, exclusivamente (com o apoio indispensável do TAGV), o início das comemorações do centenário em Coimbra e todo o trabalho de pontapé de saída pertence a estas três entidades. Para além disso, elaboraram-se dois programas, entre a UC e a autarquia, propostos à CNCCR, que prometeu financiar parcialmente alguns eventos, e estamos à espera que essas tranches financeiras sejam transferidas.

DC A formação está a ser direccionada particularmente para professores. Justifica-se intervir aqui?
ACH Se
houvesse mais tempo não estaríamos parados. Há tamanha necessidade de formação e apetite de saber o que foi a implantação da República, os valores, o que foi o 5 de Outubro, quem são os grandes vultos, que gerações apanhou... Há curiosidade pública, a formação está lotada e há um espantoso fenómeno, vêm mais pessoas de fora, de sítios surpreendentemente distantes, que de Coimbra. Mas na comissão cívica temos estratégia para chegar à juventude e para tentar dar resposta efectiva a todas as escolas que nos contactem, que peçam intervenções, mesas redondas. E aqui, devo referir a autarquia de Miranda do Corvo, muito empenhada e onde já estão previstas várias iniciativas e também os contactos esboçados com a Lousã para que lá estejamos. Mas à escala individual também somos instados a ir a vários locais.

DC Como docente, nota que isso se reflecte preparação dos alunos sobre este tema?
ACH
A temática histórica tem vindo a ser subalternizada. A tutela não tem sabido valorizar a memória histórica. Temo estarmos a criar gerações de jovens apaticamente apátridas. Somos europeus, mas nunca ouvimos dizer: somos portugueses. Podemos estar a criar um país sem alma, e um país sem alma é um país sem pátria. Era preciso que valorizassem mais esta componente histórica, se queremos saber o que foi Portugal e esta imensa caminhada que começou no século XII e ainda hoje existe e se projecta no futuro. Um enfoque na História, mas também na Filosofia, porque a relação de temática da portugalidade é fundamental para nos identificarmos. Corre-se o risco de não sabermos como o país se criou, perdendo-se a nossa coluna vertebral.

DC Apesar da CNCCR, existem vários movimentos cívicos para a assinalar a implantação da República. Isso mostra, de alguma forma, que apesar de enraizada na sociedade, os portugueses sentem necessidade de se expressar republicanos?
ACH
Estou convencido que, independentemente da Comissão Nacional e da vontade das autarquias, o carinho da população portuguesa é tamanho que, mesmo sem ambas, a República seria comemorada. Trata-se de um património público e colectivo, que não pertence a nenhum partido. Por exemplo, nenhum democrata nega o sufrágio universal, que o Estado é ateu, que o ensino público deve ser laico, a ideia de cidadania, porque não havia dignidade de cidadania antes. Foi um ideal que se impôs.

DC A implantação da República associa-se apenas ao dia 5 de Outubro. Mas foi muito mais do que isso, e estendeu-se para além de Lisboa...
ACH
É necessário explicar que a expressão republicana começou no século XIX. Nas Conferências Democráticas do Casino Lisbonense já se falou em Republica. A partir desse momento, a geração entre 60 e 70, foi quem fez a pedagogia da republica - voltada para a difusão do ideal republicano através de jornais e brochuras. Nomes como José Elias Garcia, Latino Coelho, José Falcão, que foi o autor da cartilha do ensino público, que se aperceberam da ignorância pública, porque 80 a 85 por cento da população não sabia ler, escrever e contar. Foi esta geração que tentou ensinar o povo, através da leitura “comezinha”, o que eram os fundamentos da República. Em 1890, quando se dá o Ultimatum Inglês, surge uma nova geração, mais activa. António José de Almeida, de Penacova, Afonso Costa, entenderam que já não era tempo de pedagogia, mas de acção. Foi o espírito dessa gente que promoveu a primeira revolução armada, em 1891, que fracassou. Mais tarde, em 1907, o movimento organizou-se no interior da ditadura de João Franco e colaboraram três agremiações essenciais: o Partido Republicano, a Maçonaria, através da Loja do Grande Oriente Lusitano, e a Carbonária, essa absolutamente secreta, e que era o braço armado da população. A história da República recua muito antes da data do golpe que a implantou. Foi algo muito bem preparado e que mobilizou camadas mais desprotegidas da sociedade, como os trabalhadores por conta de outrem, funcionários públicos, profissionais liberais. Foi uma aliança entre as camadas populares e a pequena burguesia liberal, transversal a personalidades que podem vir de horizontes distintos, mas que partilham valores centrais.

DC O acesso ao ensino público e gratuito, à saúde, estão na génese do movimento republicano. Hoje porém, assistimos à privatização destes bens. Estes valores podem estar em risco?
ACH
Podem perder-se a partir do momento em que estiver em causa a privatização do país. A República é a defesa da causa pública. É uma casa comum de porta aberta onde possamos entrar todos. O que assusta é a imensa vertigem da privatização por partir-se do pressuposto de que o que é público é incompetente. Hoje inocula-se a ideia de que o funcionário público é menor, a nível intelectual e monetário. Mas é o nosso contributo colectivo para o que é da res publica, por isso nada mais patriótico do que aquilo que damos à causa pública, e que deve ser dignificado. A República é competente e eficaz.

“Coimbra não passou ao
lado do ideal republicano”

DC De que forma participou a cidade de Coimbra no movimento republicano?
ACH
Coimbra participou em momentos muito importantes e através de figuras de enorme prestígio e irradiação pública. Por exemplo, José Falcão, uma figura determinante para a cidade e para o ideal, que merecia uma estátua na Praça da Republica, ou António José de Almeida, professor que tinha combinado com os estudantes para aderirem em caso de triunfo no Porto. Belizário Pimenta, que em Coimbra representou o expoente da causa republicana, e António Augusto Gonçalves, ligado ao ensino da arte e que fundou a Escola Pública das Artes e do Desenho. Coimbra não passou ao lado do ideal republicano.

DC Sendo uma cidade de estudantes, a quem se associa a irreverência da juventude, isso também se verificou na Academia de Coimbra?
ACH
De facto, Coimbra distinguiu-se sempre no plano do campo discente, a Academia dos estudantes a pôr em causa prolongou-se pelo Estado Novo, foram eles que fizeram tremer o regime em 69. Ligaram intimamente à causa e quem deu a cara correu riscos, foi espancado. Claro que as coisas mudaram e hoje temos um corpo professoral diferente, os professores já não respondem a uma só voz, mas na UC, até 1974, foi um corpo docente com voz tradicional.

DC Esse questionamento e irreverência mantém-se nos estudantes de hoje?
ACH
Creio que há, da parte de muitos alunos, o sentimento vivo democrático, sentem e vivem o seu valor, mas as preocupações são extra-políticas. Também a diversidade de informação, a facilidade de sair, correr mundo, contactar com outros povos, faz com que prioridade socio-política não tenha tanta acuidade. Se os agentes de ensino não cumprirem o seu dever, de inspirar o sentido crítico, a reflexão, a problematização, poderá estar em risco, mas a juventude é um
estado de espírito generoso.
 
Hino e Busto têm a força
da tradição histórica

DC O Partido Popular Monárquico propôs a realização de um referendo nacional sobre a reimplantação da monarquia. Que comentário lhe merece?
ACH
Estou profundamente de acordo com a proposta. Seria tão imensamente demonstrativo do carinho do povo português pela República, que encerrava definitivamente o assunto. Mas era para referendar uma vez e ficar decidido, e não até conseguir mudar o sentido de voto. É claro que eu estaria na barricada da defesa do republicanismo. Mas faça-se o referendo e veja-se o que o povo quer.

DC Nos últimos dias, levantou-se também a hipótese de alterar o busto da República. Concorda?
ACH
Não vejo qualquer vantagem nisso. Apesar de argumentarem que o busto tem o barrete frígio, que não é claramente deduzido da tradição portuguesa, os patriotas franceses adoptaram-no como fidelidade aos princípios democráticos aindano século XVIII. Não concordo que seja privado desta referência republicana.

DC E quanto à possibilidade de termos um novo hino nacional?
ACH
Tudo o que é simbólico tem uma força própria, como a bandeira, até na forma de a hastear, e nas cores, que foram usadas momentos simbólicos. Pode dizer-se que é uma linguagem datada, porque surgiu como reacção ao Ultimatum Inglês. A humilhação, o incómodo e a cólera sentidas perante essa nota diplomática, fez com que A Portuguesa tivesse uma linguagem bélica. Mas isso dá-lhe também a força da tradição histórica. Também não vejo vantagem em actualizar a linguagem ou a mensagem, porque também seria desvinculá-la do que representa.

O que houver em Coimbra
depende da Câmara e da UC

O pontapé de saída das celebrações do centenário da implantação da República é já no próximo domingo, dia 31, com um almoço de confraternização. A data marca a primeira tentativa de derrubar a monarquia, em 1981, no Porto e não foi esquecida pela organização, a cargo do Movimento Cívico de Coimbra para as Comemorações do Centenário da República, a associação cultural Alternativa e a Associação 25 de Abril. Ao almoço, segue-se um espectáculo com o grupo Dixie Gringos, na Praça da República e, a partir das 17h00, decorre um sarau no Teatro Académico de Gil Vicente.

Mais tarde, em Março, a Semana Cultural da Universidade de Coimbra (UC) vai ser dedicada à República e o instituto CEIS20, da UC, deverá promover um colóquio internacional sobre o tema. Outras iniciativas, explica Amadeu Carvalho Homem, «dependem dos meios e da vontade quer da Câmara Municipal de Coimbra quer da UC».

Uma exposição a funcionar em vários pólos, simultaneamente conjunta entre ambas, é uma das possibilidades que aguarda confirmação, bem como a vontade de digitalizar vários textos do acervo da Biblioteca Geral da UC «fundamentais para compreender o movimento democrático em Portugal».

A 5 de Outubro, a Orquestra Clássica do Centro realiza um concerto gratuito, e «há ainda o compromisso do Teatrão levar à cena alguns espectáculos sobre a república», acrescenta Carvalho Homem. O responsável sugere ainda «um grande arraial republicano no Parque Verde». «Acredito que possa ser um evento de grande participação, onde possam haver sketchs teatrais, barraquinhas, tasquinhas para conviver, onde possa ser sentido o ideal fraterno da República». No entanto, apesar dos vários planos, Carvalho Homem avisa, «tudo isto são perspectivas que só se concretizam se meios forem disponibilizados a tempo e horas».


Actualizado em ( 2010-01-29 02:59:44 )
 

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