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Coimbra parou para ver cair a imponente Torre de Santa Cruz


Domingo, 10 de Dezembro de 2023

As brechas na torre sineira do antigo Mosteiro de Santa Cruz, bem visíveis, vinham dando sinais claros da degradação do monumento, cuja peculiar silhueta se destacava e valorizava a zona central da cidade. Nas páginas do Diário de Coimbra, desde que foi fundado em 1930, sucediam-se os alertas às autoridades para a urgência de acudir à torre, antes que fosse tarde para evitar a derrocada. Mas em vão. A 10 de junho de 1933, um incêndio num palhei¬ro que ali existia, com o combate às chamas a requerer grandes quantidades de água, e as chuvas torrenciais da última semana de 1934 acabaram por minar de tal forma a construção que subitamente, na manhã de 2 de janeiro de 1935, um acentuado desnível gerou o alarme e acordou Coimbra para a inevitabilidade de vir a perder uma das suas joias monumentais.
Localizada na Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes, contígua de um lado ao edifício que albergava a cadeia comarcã e a 2.ª esquadra da PSP, e do outro à Escola Brotero (então instalada no centro da cidade), a torre dos sinos ameaçava «vir abaixo de um momento para o outro», apressando-se a polícia a vedar a zona aos muitos curiosos que ali acorreram e a fechar ao trânsito a movimentada e principal artéria de ligação entre a Alta e a Baixa.
«O monumento, que apresentava já profundas e rasgadas fendas, separou-se dos edifícios anexos, como se verifica nas brechas que se abriram entre a torre e a Escola Industrial e Comercial de Brotero e a Cadeia de Santa Cruz», constatou o jornal na edição de 3 de janeiro.
A meio da tarde o problema agravou-se. Feita uma vistoria, a PSP «ordenou a evacuação da parte da torre que há muitos anos era habitada pelo sineiro José Gomes e sua família» e comunicou ao delegado do Procurador da República a «gravidade do perigo que corria a Cadeia de Santa Cruz». Os presos foram de imediato transferidos das divisões mais próximas da torre para o lado oposto do edifício e «à noite os do sexo masculino passaram, sob escolta, para a Penitenciária, e as mulheres para o calabouço da Polícia de Investigação Criminal, no Palácio de Justiça», regressando à cadeia comarcã logo que a situação normalizou.
 Nos edifícios do outro lado da rua, onde funcionavam Direção de Estradas e outros serviços do Estado, tomavam-se também precauções. Ao final da tarde deu-se ordem para o pessoal da secção de telefones dos Correios e Telégrafos, ali instalada, abandonar o serviço, deixando quase to¬da a cidade privada de comunicações telefónicas e telegráficas até à noite do dia seguinte.
A «gravidade da situação e o perigo que corriam os edifícios próximos, ocupados por particulares e por serviços públicos», motivaram à noite uma reunião de emergência no Governo Civil, de técnicos e políticos, decidindo-se proceder à demolição da torre no dia seguinte, com evacuação dos edifícios próximos de modo a «evitar, o mais possível, desastres pessoais e prejuízos materiais».
«Ontem, às 17h20, ante milhares de pessoas que a observaram de todos os pontos da ci¬dade, a Torre de Santa Cruz ruiu, completamente, cedendo aos efeitos da água, que a perdera e acabou por a deitar abai¬xo. A lenta derrocada produziu um estrépito cavo, obstruindo totalmente a Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes uma barreira com 15 metros de altura», sintetizou o Diário de Coimbra na primeira página do dia 4.
A torre, observou o jornal, «voltou ontem a prender a atenção da cidade inteira» e «milhares de pessoas afluíram às artérias e locais das imediações, não arredando pé, até ao momento da derrocada». Outras assistiam de pontos mais afastados, algumas «munidas de binóculos nas janelas e varandas dos prédios», «atraídas, a maior parte, pela curiosidade de um espetáculo que se lhes oferecia com tanto de inédito como de brutal, e outras como que para dizer o último adeus a um dos mais belos e raros monumentos da cidade».
«Às 14h00, um piquete de bombeiros procedia do edifício da Escola Brotero ao lançamento contínuo de água, por meio de mangueiras, para o interior da torre, no sentido de provocar a escavação dos alicerces. A breve trecho a água começava a produzir os seus efeitos, visto que as fendas iam abrindo mais, e a torre começava a separar-
-se sensivelmente do corpo que deita para a Rua de Montarroio. Às 16h55 produziu-se no interior da torre a primeira derrocada estrepitosa. Em redor, o silencio é profundo, apesar de milhares de pessoas que ficam para além dos cordões da polícia. Começam a contar-se e viver-se os minutos. Às 17h05 desmorona-se parte da parede do velho edifício da cadeia, junto à torre. A caliça cai agora continuamente. A anunciar a derrocada precipitou-se no solo toda a larga frontaria da Escola Brotero, desde a torre ao corpo central das varandas, numa extensão de quinze metros. Nuvens de pó erguem-se ao desabar das primeiras pedras, e sobem lentamente, envolvendo a torre. A multidão que se comprime na Praça 8 de Maio e se estende pela Rua Ferreira Borges, agita-se aos primeiros ruídos das pedras que caem... e nas outras artérias a agitação é também latente. Às 17h20, a torre vem abaixo», relatou o repórter do Diário de Coimbra.

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