
José Martins ganha prémio de melhor ator em Xangai com filme de António Ferreira rodado em Coimbra
Produzido integralmente em Coimbra e realizado pelo conimbricense António Ferreira, o filme “A Memória do Cheiro das Coisas” levou o ator português José Martins a conquistar o Prémio de Melhor Ator na 27.ª edição do Festival de Cinema de Xangai (SIFF), uma distinção inédita para o cinema nacional num Festival de Classe A.
No centro deste feito está “A Memória do Cheiro das Coisas”, o filme em que José Martins dá corpo e voz a Arménio, um ex-combatente da guerra colonial "empurrado" para um lar de idosos. É ali, entre silêncios e memórias, que nasce uma ligação improvável com Hermínia, a cuidadora que o acompanha. Sem pressas nem artifícios, o filme vai desafiando um laço frágil e terno entre duas solidões, e é nessa entrega contida, crua e profundamente humana que a atuação de Martins se torna inesquecível.
«Um retrato poético e intimista de um idoso numa instituição”, descreve a equipa do filme num comunicado de imprensa enviado ao Diário de Coimbra. Mas é mais do que isso. É um mergulho fundo nas dores que ficam, nos fantasmas que não se enterram, na velhice que não se escolhe. A interpretação de José Martins comoveu o júri presidido por Giuseppe Tornatore - o mestre italiano de Cinema Paraíso, que destacou a «subtileza emocional» com que o ator mergulhou na sua personagem.
Vitória histórica para Portugal
A vitória é também histórica: é a primeira vez que um ator português vence um festival desta categoria e renome. Um marco simbólico, que fala não só do talento individual de José Martins, nascido em Lisboa em 1852, fundador do Teatro do Noroeste e nome incontornável da cena teatral, mas também do alcance crescente do cinema português lá fora.
Selecionado entre mais de 3.900 filmes oriundos de 105 países, “A Memória do Cheiro das Coisas” foi um dos 12 títulos em competição oficial na 27.ª edição deste festival. As filmagens aconteceram em Coimbra, com o apoio da RTP, e o filme tem estreia marcada para outubro deste ano, em Portugal e no Brasil.
«A presença portuguesa nesta edição reforça o alcance internacional do cinema contemporâneo feito em Portugal», refere ainda o comunicado. «Este prémio representa uma janela aberta para novas audiências e circuitos de exibição».
A equipa marcou presença em Xangai, o realizador António Ferreira, as produtoras Tathiani Sacilotto e Eliane Ferreira, a atriz Mina Andala, e claro, o homem da noite: José Martins, que foi preciso viajar até à China para receber a sua distinção com a mesma serenidade com que nos entregou o seu Arménio - silêncio nos olhos, história no sangue e coração de vencedor.
Mais de que um prémio, esta conquista trespassa o ator. É um marco histórico para o cinema português, que se fez ver e soube ser ouvido, através da voz de José Martins.











