Areaclientedc
Última Hora
Pub Dc Ia Cyber 20260619
Pub Dc Facit26 20260609
Légua Esgotada
Pub

Portugueses com pior sono na pandemia e início da guerra na Ucrânia

Trabalho foi desenvolvido por Henrique Testa Vicente, investigador do Instituto Superior Miguel Torga

Os portugueses tiveram pior sono na pandemia e no início da guerra na Ucrânia, com aumento de pesadelos, emoções negativas e distúrbios do sono, concluiu uma investigação do Instituto Superior Miguel Torga (ISMT) em Coimbra.

«Em contextos de crise prolongada, como a pandemia ou a guerra na Ucrânia, o sono torna-se um campo sensível de expressão do sofrimento psicológico coletivo, revelando disfunções que, muitas vezes, precedem outros sinais clínicos», destacou Henrique Testa Vicente, investigador do ISMT e autor do estudo.

Os dados da investigação “Sleep Patterns and Crisis-Related Dreams During the COVID-19 Pandemic and the Russo-Ukrainian War”, concluída em 2024 e publicada em março, apontam para um aumento expressivo de distúrbios do sono, uma maior memória deles e também uma intensificação dos pesadelos durante a pandemia.

Em declarações à Lusa, a docente do ISMT e coautora do estudo, Joana Proença Becker, revelou que o medo, a ansiedade e a culpa são as emoções mais identificadas numa amostra de 1.700 participantes.

«A ansiedade foi maior na pandemia, porque se tratou de uma crise que afetou diretamente os portugueses, enquanto a guerra foi uma experiência vicariante, que as pessoas acompanharam pela comunicação social e afetou mais a parte financeira, causando algumas inseguranças e stresse».

De acordo com Joana Proen­ça Becker, os sonhos não são apenas um reflexo do medo, ansiedade e culpa. «Revelam as estratégias inconscientes de processamento emocional face ao sofrimento coletivo», acrescentou.

Já para Henrique Testa Vicente, os resultados sublinham a importância de compreender o sono, não apenas como uma função fisiológica essencial, mas como um espelho das tensões sociais e emocionais que atravessam a sociedade.

No contexto da guerra, o estudo demonstra que os portugueses revelaram níveis mais elevados de tristeza, raiva e sensações físicas de desconforto, como dor, frio ou paralisia.

«Estes indicadores devem ser lidos como sinais de impacto emocional profundo, mesmo entre populações não diretamente envolvidas nos conflitos. É ao identificar estas manifestações que conseguimos compreender melhor como as pessoas estão a ser afetadas e onde é urgente intervir do ponto de vista da saúde mental», sustentou Joana Proença Becker.

O estudo investigou a duração do sono, o tempo que cada pessoa demora a adormecer (a latência do sono), os despertares noturnos, a sonolência diurna e também a qualidade geral do sono, bem como a frequência de recordação de sonhos e pesadelos.

Segundo a docente, esta análise concluiu que as dimensões emocionais e sensoriais dos sonhos oferecem uma perspetiva alternativa sobre o processamento, subconsciente ou inconsciente, destes eventos mundiais.

«O impacto psicológico e psicossocial das crises coletivas é muito maior do que imaginamos. Os portugueses sofreram, e ainda sofrem, mesmo que inconscientemente, e isso reflete-se nos padrões de sono e nas experiências oníricas que descrevem», alegou, alertando para a «necessidade de políticas públicas mais integradas», que considerem o sono e a saúde mental como «dimensões interdependentes na resposta a futuras crises sociais, sanitárias ou geopolíticas».

Ações como promover uma boa higiene do sono, criar espaços para a escuta emocional e reforçar os apoios psicológicos são exemplos dados pelos investigadores e que «devem ser prioridades estratégicas em períodos de instabilidade».

Maio 10, 2025 . 15:41

Partilhe este artigo:

Junte-se à conversa
0

Espere! Antes de ir, junte-se à nossa newsletter.

Comentários

Fundador: Adriano Lucas (1883-1950)
Diretor "In Memoriam": Adriano Lucas (1925-2011)
Diretor: Adriano Callé Lucas
95 anos de história
bubblecrossmenuarrow-right