
Investigação da UC alerta para necessidade de reforço na gestão do risco de incêndios em Portugal
Investigadores da Universidade de Coimbra alertam que o ritmo das alterações climáticas poderá ultrapassar os esforços para adaptar a paisagem florestal e preparar a população contra os fogos, pedindo mais investimento na gestão do risco de incêndios.
Estas conclusões constam do relatório "Incêndios florestais em Portugal: Mais de 80 anos mostram que o país tem de mudar", divulgado pela organização ambientalista Greenpeace e elaborado por uma equipa de especialistas, entre os quais Domingos Xavier Viegas.
Ao analisar os incêndios desde 1943, com enfoque nos acontecimentos deste século, os investigadores destacam que o sistema de combate foi reforçado desde 2017, com mais recursos humanos, melhor coordenação, formação e equipamentos, e que o investimento em prevenção já representa mais de metade do financiamento da gestão do risco.
Apesar das melhorias e da redução do número de incêndios, o relatório alerta que "os grandes incêndios são cada vez mais frequentes", apontando os anos de 2003, 2005, 2017 e 2025 como excecionais em termos de área ardida e número de vítimas.
O estudo identifica três grandes causas para Portugal ter sido, nas últimas décadas, um dos países europeus com maior área ardida: as condições climáticas, a organização da paisagem e a insuficiente gestão florestal.
Os investigadores salientam a dificuldade de uma gestão eficaz quando cerca de 90% da floresta portuguesa é propriedade privada, especialmente no Norte e Centro, onde a maioria dos proprietários tem pequenas parcelas.
Muitas propriedades foram abandonadas devido a partilhas de heranças ou migração populacional para zonas urbanas. A gestão florestal é assim "não eficiente nem uniforme", com "processos sucessórios" que tornam imprecisos os limites e a titularidade de algumas propriedades.
O despovoamento das zonas rurais reduziu a capacidade de intervenção inicial, embora programas como "Aldeia Segura, Pessoas Seguras" e "Condomínio de Aldeia" tenham melhorado a preparação das comunidades e diminuído ignições.
Os especialistas alertam que "o ritmo das alterações climáticas poderá superar os esforços coletivos para modificar a paisagem florestal e preparar melhor os cidadãos para os desafios futuros, a menos que seja atribuída uma maior prioridade nacional à gestão do risco de incêndio".
As alterações climáticas têm aumentado os períodos de calor e seca, bem como a frequência de trovoadas, que potenciam incêndios provocados por raios.
Entre 2000 e 2025, as causas naturais representaram 8,15% da área ardida, destacando-se que em 2025 pelo menos três dos dez maiores incêndios foram originados por descargas elétricas, incluindo o maior incêndio de sempre em Portugal, iniciado em Piódão.
Quanto às causas humanas, o fogo posto foi responsável por 41,9% da área ardida neste século, seguido das queimadas para gestão de pastagens (11,7%), reacendimentos (10,4%) e acidentes, incluindo ignições associadas a linhas elétricas (7,6%).
Apesar de Portugal apresentar uma taxa de sucesso superior a 90% na primeira intervenção, os autores concluem que os incêndios em condições meteorológicas extremas continuam a escapar ao controlo.
Considerando impossível alterar a topografia ou travar a intensificação dos fenómenos extremos, os especialistas defendem que a gestão do combustível deve ser central na política nacional de prevenção.
"Erradicar completamente o risco de incêndios florestais é uma tarefa quase impossível", mas é possível dar "uma maior prioridade nacional à gestão do risco de incêndio", defendem no estudo encomendado pela Greenpeace.
A Greenpeace apresenta um conjunto de exigências para um "futuro mais seguro", defendendo uma ação climática mais ambiciosa, com eliminação dos combustíveis fósseis e neutralidade carbónica até 2040, assim como uma gestão anual de pelo menos 1% da área florestal.
A organização propõe limitar a expansão do eucalipto, promover espécies autóctones e reforçar os mosaicos agroflorestais para reduzir o risco de incêndio.
É também defendida uma reforma da gestão florestal, incluindo a conclusão do cadastro, gestão conjunta dos minifúndios e maior transparência na prevenção.
O reforço do fogo controlado, a participação das comunidades locais e a criação de uma plataforma pública para monitorizar as ações de gestão de combustível são outras propostas da Greenpeace.
Para travar o abandono rural, a organização sugere incentivos aos proprietários para a gestão das terras e prevenção dos incêndios, além de um pacto entre Portugal e Espanha para coordenar a gestão da paisagem, partilhar recursos e dados e garantir financiamento europeu para aumentar a resiliência aos incêndios.










