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Espetáculo projeta vivências do 25 de Abril em Penela

Companhia da Chanca e quinteto de sopros Art’ Ventus transportam para o palco o testemunho real dos habitantes do concelho. Concerto-teatro é apresentado segunda-feira

Há música e teatro, mas sobretudo histórias. Memórias com meio século, que recordam como foi o 25 de Abril de 1974, longe do Largo Carmo e de Lisboa. Em Penela também se viveram as emoções da revolução, se sentiu esperança, as dores e o desassossego da mudança. Memórias na primeira pessoa, testemunhos reais de habitantes que, 50 anos depois, são transportadas para o palco, no concerto-espetáculo “25 de Abril: Chovia Muito e Chegou o Trator Novo”. Uma produção que junta a Companhia da Chanca, o quinteto Art’Ventus e a jovem compositora, Camila Menino. A estreia está marcada para segunda-feira, às 18h00, no Auditório Municipal de Penela, com entrada livre.
Um projeto que nasceu de “coincidências” e vivências partilhadas no território, onde “coabitam” os responsáveis. A Companhia da Chanca, como estrutura residente, o Art’ Ventus Quintet enquanto “visitante” assíduo, responsável pelo Ciclo Concertos na Casa, que decorrem no Espinhal. O programa da Direção-Geral das Artes (DGA), no âmbito das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, criou a “ponte”. «Pareceu-nos o momento perfeito para as duas entidades, com muita atividade na região, cada uma na sua área, fazerem um trabalho conjunto», conta Tiago Coimbra, dos Art’Ventus. A resposta da Companhia da Chanca foi pronta e «começaram os nossos delírios artísticos».
Fiéis à sua visão de mundo, à reflexão sobre a vivência rural que Catarina Santana e André Louro imprimiram ao trabalho que desenvolvem nos últimos 10 anos na Companhia da Chanca, os dois artistas depressa encontraram o caminho. Naturais de Lisboa, sem memórias de Abril de 1974, partiram à descoberta de testemunhos reais, na primeira pessoa, para perceber «como se viveu este momento histórico», longe de Lisboa, «a partir de uma outra janela».

Trabalho de pesquisa da Companhia da Chanca, no terreno, prolongou-se durante sete meses

Foram duas dezenas de interlocutores, pessoas hoje com 80, 90, 100 anos. Muitos, na altura, não estavam em Penela, onde regressarem depois da reforma. Viviam em Coimbra ou Lisboa, outros “deram o salto” para o mundo e outros, ainda, estavam nas ex-colónias. Todos foram convidados a recuar no tempo e refletir sobre este momento. Genericamente, «a consciência política era, na altura, muito diminuta». Uma realidade transversal a todo o território interior, focado na terra e no trabalho agrícola.
«Toda a gente se lembra que choveu muito», diz Catarina Santana. O novo trator, recebido por uma família, era o assunto do dia, a «revolução»... com sabor a terra e com experiências enternecedoras.
Catarina conta o relato de uma adolescente, cuja família tinha decidido, nesse 25 de Abril de 1974, apresentar a Serra da Estrela a uma prima, vinda do Brasil, de visita a Penela. Pela rádio, a família foi-se inteirando das novidades, com umas trocas de impressões aqui e ali. Mas as notícias da revolução não os desviaram do objetivo: subir à Torre.
Testemunhos que entusiasmaram Catarina e André e conquistaram Tiago Coimbra. «Fiquei absolutamente fascinado», confessa o músico. A Paulo Mendes coube a tarefa de transcrever e adaptar esses relatos, com os atores e responsáveis da Companhia da Chanca a assumirem a encenação e dramaturgia. Catarina Santana e André Louro são também os atores que dão vida a estes testemunhos, consolidados com as referências de um lote de 44 cartas, trocadas entre uma madrinha de guerra e um soldado destacado para Angola.
«O guião e a composição musical foram feitos ao mesmo tempo», sublinha o músico. Um trabalho que o grupo Art’Ventus encomendou a Camila Menino, uma jovem e premiada compositora, que acompanha a narrativa. Uma partitura com cinco andamentos – Os Últimos 10 minutos do Fascismo, Revolução, Libertação, Democracia e Epílogo – considerada «caso único» como composição para um quinteto de sopros. A componente musical integra, ainda, sonoridades criadas pelos alunos do 2.º ciclo do Agrupamento de Escolas de Penela nas oficinas de teatro dinamizadas pela Companhia da Chanca. O concerto-teatral insere-se no projeto “Abril em Penela e conta com o apoio da Direção Geral das Artes e do Município de Penela.

Experiência “fora da caixa” para os músicos

Satisfeito com o resultado final, Tiago Coimbra, do quinteto Art’Ventus, assume que o espetáculo é«um desafio» para o grupo. Isto porque em palco estão «dois atores e cinco músicos». «Não estamos escondidos num fosso de orquestra ou a tocar na parte de trás do palco». Pelo contrário, «somos pessoas em palco, temos os nossos movimentos e posicionamentos, que ilustram e acompanham a narrativa. É uma situação completamente “fora da caixa”», onde os músicos – Ana Maria Ribeiro (flauta transversal), Horácio Ferreira (clarinete), Nuno Vaz (trompa), Raquel Saraiva (fagote) e Tiago Coimbra (oboé) assumem simultaneamente o «papel de músicos e de figurantes», numa «nova e empreendedora experiência»
Tiago Coimbra diz ainda que além da versão “espetáculo” da partitura musical, a apresentar em Penela, Camila Menino desenvolveu a «versão concerto» que o grupo Art'Ventus vai gravar em dezembro.

Concerto Teatro

“Vai tocar as pessoas”

Catarina Santana e André Louro vão levar ao palco esta mundividência renovada, que abre uma nova janela sobre a visão do 25 de Abril. «É um espetáculo multigeracional, onde temos pessoas praticamente com o dobro da nossa idade, uma compositora que tem metade da nossa idade e as crianças que têm um terço da nossa idade», diz André. Catarina enaltece o contacto com os protagonistas das vivências, o envolvimento das crianças e o «privilégio» de trabalhar com músicos da craveira dos Art’Ventus. Os dois acreditam que o espetáculo vai «tocar as pessoas», particularmente de Penela, mas seguramente terá o mesmo efeito noutros territórios, pela «partilha de vivências, pelas histórias simples em que todos se podem rever». A Companhia da Chanca está pronta para levar o concerto-teatral a qualquer local, assim haja propostas.

Novembro 27, 2025 . 10:50

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