
Ansiedade marca consulta das pautas dos exames
Desalento e incerteza, entre lágrimas e poucos sorrisos, eram emoções demonstradas hoje de manhã por alguns alunos em três escolas secundárias do Porto onde se deslocaram para verificar as pautas com as notas dos exames, publicadas na sexta-feira à noite.
O ambiente era muito calmo durante a manhã junto às escolas secundárias Fontes Pereira de Melo, Garcia de Orta e Clara de Resende. Esta última não chegou a abrir os portões durante toda a manhã.
Na Escola Fontes Pereira de Melo, a Lusa encontrou uma professora a aconselhar duas alunas, umas das quais, com lágrimas nos olhos, tinha dúvidas se deveria pedir ou não a revisão da prova.
As alunas não quiseram prestar declarações, mas a professora da disciplina de Inglês Paula Cunha não escondeu a indignação pela forma como o processo de avaliações decorreu.
“É um stresse para toda a gente, professores, funcionários e, sobretudo, para os alunos. Não vejo qual o interesse de colocar as notas semi-avaliadas [avaliação suspensa], o que deixa os alunos ainda mais ansiosos. Era preferível que tivessem assumido que não havia condições para publicar as pautas e na segunda-feira começaríamos a semana com outra dinâmica, com outra calma. Isto já está mal desde o princípio”, considerou.
Outra crítica que fez refere-se a classificações negativas de “- 3” que aparecem nas pautas.
“Sou professora há mais de 30 anos, sempre existiram notas de zero a 20. Agora também temos ‘-3’, ainda não percebi o que é que isso significa, mas pronto, haverá alguma explicação. Eu sou de Inglês-Alemão, portanto perceberei menos de números”, ironizou.
Por esse e muitos outros motivos, disse, “é preciso que se tirem conclusões, não se percebe porque não analisaram melhor as conclusões do que aconteceu no ano passado com a prova de Filosofia.
“Claro que se o processo não correu bem com Filosofia, dificilmente correria melhor com um número megalómano de provas”, acrescentou.
A docente salientou “o esforço” de professores em todo este processo, trabalhando sempre “na defesa dos interesses dos seus alunos”.
“Obviamente, já sabemos que a área digital está aí e não vai voltar atrás, mas com conta, peso e medida, não é tratar os professores como empregados, porque os professores são a sorte de todos os ministros da Educação, põem acima de tudo os alunos”, considerou.
E acrescentou: “Os professores não estão preocupados se o senhor ministro da Educação ou o senhor primeiro-ministro têm outros interesses, não me interessa rigorosamente nada. Sou professora de Inglês-Alemão e, para mim, os meus alunos são o que me move.”
As notas foram publicadas ou comunicadas via e-mail na sexta-feira à noite, através da Plataforma Inovar, onde os alunos têm todo o seu processo escolar.
Não foi o caso de uma aluna colombiana que se propôs aos exames, para poder seguir Medicina, curso que frequentava no seu país de origem.
Ao lado do seu namorado, Melissa Zapata não escondia as lágrimas e a ansiedade.
“[Os resultados] não estão muito longe do que eu tinha visto na análise que fiz do exame. Só temos de esperar receber o e-mail com a informação de como é que cada item foi classificado”, contou, referindo-se à possível decisão de pedir ou não revisão de prova.
“Foi um processo, sem dúvida, muito difícil. As notas deveriam ter sido publicadas no dia 14 e foram só ontem, às 22:30. Sei que havia escolas que nem luz tinham, os alunos tiveram de usar a lanterna do telemóvel para ver as pautas”, contou.
Lamentou ter “menos tempo para fazer a correção e para fazer a candidatura” à faculdade.
À Lusa, admitiu estar a viver um período de “imensa ansiedade”.
“Foi a minha primeira vez a fazer um exame fora do meu país e acontecem este tipo de coisas. E depois publicam as notas às dez e meia da noite. É uma grande confusão”, disse.
As escolas estão a receber hoje novos ficheiros com a nota dos exames de alunos que na sexta-feira tinham a sua classificação em suspenso, segundo a Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas.
Segundo a organização, foram “milhares” os alunos que viram a sua classificação dos exames nacionais com a referência “suspenso” e as escolas abriram hoje por todo o país, permitindo que os alunos consultassem as pautas com as notas, o que também já tinha acontecido na sexta-feira até cerca da meia-noite.
Pela primeira vez este ano, os exames nacionais do ensino secundário, realizados por 166 mil alunos, foram corrigidos em formato digital, mas o processo registou falhas técnicas desde o início, obrigando o Ministério da Educação a adiar os prazos inicialmente previstos.









