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Livro infantil convida a refletir sobre identidade e multiculturalidade

“Os Meus Dois Dragões” representa a estreia de Filipa Pestana no mundo da escrita. Uma obra que reflete a sua experiência pessoal, hoje transversal a muitas famílias, em todo o planeta

Filipa Pestana é natural de Coim­­bra, vive na Suécia e a experiência como mãe de duas crianças, educadas entre duas línguas e culturas diferentes, foi a inspiração para uma obra publicada com a chancela da Flamingo – Atlantic Books. Mais do que um conto infantil, “Os Meus Dois dragões” é um convite à reflexão sobre a multiculturalidade e o bilinguismo, realidades cada vez mais presentes nesta aldeia global, que os movimentos migratórios avolumam.

A autora sublinha isso mes­mo ao lembrar que as escolas portuguesas são cada vez mais espaços multiculturais, com «estabelecimentos de ensino que reúnem até 50 nacionalidades diferentes». «Atual­men­te, mais de 150 mil estudantes estrangeiros frequentam o sistema educativo em Portugal» e a grande maioria «chega sem domínio da língua e sem contacto prévio com a cultura», diz.

Uma realidade diversa daquela que Filipa Pestana vive, mas não deixa de ter pontos de contacto. Agora a sua própria aprendizagem do sueco, tem dois filhos, de 5 e 3 anos, que crescem num mundo “duplo”, entre Portugal e a Suécia. «A ideia deste livro surge da minha experiência a educar crianças entre duas línguas e culturas diferentes» e também por sentir que «não há, para esta faixa etária, livros que abordem este tema de forma acessível».

A obra reflete o crescimento entre duas línguas, que motiva, nomeadamente, uma alternância, que a autora ilustra com as vozes de dois dragões que coabitam dentro da cabeça do personagem, Leo, que, confrontado com sede, ouve o Lufsa pedir “water”, enquanto o Linguiça “grita por água”. Um exemplo de uma “luta interna” que pode motivar alguns embaraços, mas transporta uma riqueza única, que a autora apresenta como «um superpoder», a «diferença» que transforma e torna Leo «especial».

"A minha esperança é que qualquer criança que viva entre diferentes referências culturais se possa reconhecer nesta história, seja uma criança filha de emigrantes portugueses na Suécia, no Reino Unido ou no Canadá, como um filho de imigrantes cabo-verdianos, bangladeshis ou de qualquer outra comunidade a viver em Portugal"

Como mãe e como cientista social, Filipa Pestana entende que é importante «desconstruir mitos» e «encarar o bilinguismo com rigor científico, muito amor e uma boa dose de realismo», pois «nem sempre o percurso é linear». «Há momentos em que a criança prefere uma língua ou em que o progresso parece estagnar, isso não deve gerar ansiedade, mas sim reflexão e eventuais ajustes», diz. «Ninguém aprende uma língua por obrigação, as línguas precisam de nos ser úteis e emocionalmente significativas, precisam de servir para comunicar, brincar, criar relações», assegura.

Mais do que o bilinguismo - que no livro contempla o inglês e o português, mas o conceito é válido para qualquer situação envolvendo a língua materna e outra, e as vantagens que apresenta – Filipa Pestana pretende deixar outra mensagem, quiçá mais profunda, que se prende com os valores da identidade e respeito pela diferença. «É importante olharmos para nós próprios e para os outros com curiosidade, respeito e gentiliza», considera. «Quase todos nós, em algum momento da vida, entraremos numa sala onde nos sentiremos diferentes dos restantes: pela língua que falamos, pela nossa aparência ou até mesmo por um traço qualquer de personalidade. Nes­­ses momentos teremos de ir buscar ferramentas para conseguirmos viver bem na nossa própria pele. Gosto de pensar que este livro é uma dessas ferramentas», diz.

A história acontece num contexto escolar, precisamente porque «a escola e os professores desempenham um papel crucial na construção de sociedades plurais, inclusivas e justas». «Hoje em Portugal, como em muitos outros países, os professores têm o mundo inteiro dentro da sala de aula. E com isso vem a enorme responsabilidade de mediar conflitos, de perceber certos desequilíbrios e tentar corrigi-los, de educar para a cidadania democrática e para os direitos humanos», afirma.

«A minha esperança é que qualquer criança que viva entre diferentes referências culturais se possa reconhecer nesta história, seja uma criança filha de emigrantes portugueses na Suécia, no Reino Unido ou no Canadá, como um filho de imigrantes cabo-verdianos, bangladeshis ou de qualquer outra comunidade a viver em Portugal», remata.

Vontade assumida de continuar a escrever

Filipa Pestana tem 35 anos, nasceu em Coimbra, onde se licenciou em Relações Internacionais. Um mestrado em Ciências Políticas e Sociais levou-a a Lund, na Suécia, em 2013. Gostou tanto que quis voltar. Fixou-se em Estocolmo e trabalha em marketing digital, como freelancer, para grandes empresas de software. Atualmente reside numa pequena vila, a 40 minutos da capital e regressou à escola, onde frequenta um curso de e-commerce e automação de marketing. Vem com regularidade a Portugal e faz questão de garantir o mais possível uma «exposição suficiente» dos filhos à língua portuguesa. “Os Meus Dois Dragões” é a sua primeira obra e confessa que «adorava escrever mais livros infantis» e, um dia, aventurar-se em ficção para adultos. Ideias já existem e «têm a Suécia como pano de fundo». Uma palavra especial para Inês Duarte, autora das ilustrações do livro. «Fez um trabalho incrível», elogia, com «uma linguagem gráfica simples, cómica, com bastante cor». «Uma boa ilustração eleva o texto e permite que quem ainda não sabe ler o possa compreender, questionar e interpretar», considera e Inês Duarte fez isso na perfeição.

Julho 13, 2026 . 08:20

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