O desporto nação
O cristianismo é avesso a nacionalismos, localismos e particularismos. No cristianismo não há povos eleitos. Onde há povos eleitos há supremacia de raça. E onde há supremacia de raça há a expulsão, tantas vezes física, do outro, do grego, do samaritano.
A pulsão nacionalista é historicamente recente. Remonta ao final da primeira guerra mundial e ao colapso dos Impérios europeus e otomano. Até 1918 o mundo foi imperial. Dos despojos do conflito surgiu a fragmentação política própria do novíssimo Estado-Nação, fundada ideologicamente numa ideia de autodeterminação e autogoverno de comunidades vinculadas por laços culturais identitários, em regra a língua, a religião ou a etnia.
A Rússia soviética constituiu, no longo século XX, uma singular exceção. O marxismo inicial, na verdade, foi universalista, sob a veste internacionalista da fraternidade mundial de operários. O nacionalismo, por essa razão, dever-lhe-ia ser alheio. E foi, durante décadas. Até que a lógica da guerra fria, em especial em África e na América Latina, dissolveu o internacionalismo em nacionalismos artificiais, que rapidamente declinaram em neotribalismos, fonte sem fim de limpezas étnicas sem fim.
O amor ao outro do cristianismo, fundado numa irmandade universal de filhos de Deus, é, no fundo, um amor ao estrangeiro, um amor que ultrapassa e transcende o local amor ao próximo, quando o próximo é o parente, o amigo ou o vizinho.
O amor cristão não se confina a uma autarcia de eleitos. O eleito é o que vem de fora, o que está fora de portas, o forasteiro que bate à porta numa noite escura, e pede a comunhão do pão e a partilha do fogo.
A guerra e o desporto são as instâncias mais visíveis da vinculação nacionalista, quando não tribal.
É verdade que o desporto não é a guerra. Mas, quando amarrado a pulsões e paixões de pertença grupal, pode ser terreno fértil para a violência etnocêntrica.
Na verdade, as multidões garridas e multicolores de um campeonato mundial de futebol apenas aparentemente se confundem com as multidões igualmente garridas e multicolores de umas jornadas mundiais da juventude.
No desporto nação não se encontra, nunca, uma comunhão universal de fratres.|







