CARLOS AMARO: O FIEL DEPOSITÁRIO DOS POEMAS DE PESSANHA
Carlos Amaro de Miranda e Silva nasceu na Chamusca em 1879 e faleceu em Lisboa em 1946. Foi poeta, dramaturgo, jornalista e ativista político republicano, tendo alcançado o seu maior êxito com a peça São João Subiu ao Trono, destinada a um público popular e infantojuvenil. Nos seus tempos de estudante de Direito em Coimbra, cidade em que fundou o Clube dos Estudantes Republicanos José Falcão e o jornal A Pátria, foi colega de Manuel Luís de Almeida Pessanha, irmão de Camilo Pessanha, o que propiciou o futuro encontro e a amizade entre os dois escritores. Para além da proximidade com Manuel, Camilo Pessanha admirava o anticlericalismo e o radicalismo republicano do seu novo amigo. Após a implantação da República foi deputado à Assembleia Nacional Constituinte, mas a sua vida profissional circunscreveu-se fundamentalmente à função de Conservador do Registo Civil, que exerceu em Lisboa. O facto de a geração de Pessoa o referir simplesmente como “o Carlos Amaro”, sem o Dr. adequado ao cargo, indicia que era visto pela geração que se seguiu à sua muito mais como um camarada de Letras do que como um alto funcionário do Estado.
A correspondência conhecida de Camilo Pessanha com Carlos Amaro começa em agosto de 1908, durante o período mais longo que o autor de Clepsidra passou no Portugal metropolitano, após a sua ida para Macau em 1894. O colapso mental do irmão de Camilo, Manuel Luís, é um dos tópicos habituais dessa correspondência, embora rapidamente se firme entre os dois uma genuína amizade que continuará até à morte de Camilo Pessanha, apesar da distância entre Lisboa e Macau. No regresso de Lisboa a Macau, em 1909, Carlos Amaro foi um dos amigos de Pessanha que dele se despediram no Tejo acompanhando a saída do vapor numa lancha de onde lhe acenavam num sentido adeus.
Nos anos seguintes, e até à publicação de dezasseis poemas de Pessanha na revista Centauro, em 1916, e da Clepsidra em 1920, Carlos Amaro tornou-se no fiel depositário da poesia de Camilo Pessanha, fazendo circular entre os jovens escritores lisboetas os manuscritos em que registara a estranha poesia de Camilo Pessanha, portadora de sons e significados inesperados e rutilantes. Graças a ele, Pessanha tornou-se num poeta venerado ainda antes de a maior parte dos seus versos conhecerem a letra de forma.
Camilo Pessanha só voltaria uma vez mais a Portugal, onde residiu de outubro de 1915 a abril de 1916, nessa altura já viciado no ópio, que não conseguia adquirir na Europa, enterrando as suas amarguras no álcool, como contou o seu antigo condiscípulo de Coimbra, Alberto Osório de Castro.
Quando o seu amigo faleceu, no início do março de 1926, o testemunho deixado por Calos Amaro no número da Ilustração de 16 de março de 1926, foi, sem dúvida, uma das mais sentidas e sinceras reações do mundo intelectual português: "Descuidado da glória a que tinha direito, incapaz de cultivar por natural pobreza os vários processos de reclame que estão em uso, mantido pela própria dor numa sempre elevada atitude moral, não descendo jamais à planície literária onde ramalham os vastos tremoçais da pretensão e da mediocridade, o Poeta Camilo Pessanha levou a pompa dos seus desdéns até ao crime imperdoável de não querer bem-amar a sua própria Obra. Sirvam-lhe de perdão a fatalidade do seu desgraçado temperamento, a amargura constante da sua alma agitada."








