
Cheias: segurança no Mondego passa por nova grande barragem
Investigadores e professores da Universidade de Coimbra (UC) analisaram as cheias do rio Mondego e apresentaram ontem resultados preliminares. As conclusões, que darão origem à publicação de uma monografia em setembro ou outubro, colocam em evidência o que não deveria ter acontecido e deixam informações para futuras decisões.
Desafiado pelo reitor Amílcar Falcão após as inundações deste ano, Fernando Seabra Santos, professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC, criou um grupo de trabalho dedicado à problemática, reunindo especialistas com experiência na área. «Após a comoção mediática que acompanhou o fenómeno, com opiniões em todas as direções e para todos os gostos, interessava à UC recentrar o foco da discussão numa base científica, contribuir para um esclarecimento sereno da opinião pública e facultar aos decisores, em tempo útil, informação cientificamente fundamentada para que eles pudessem promover as mudanças necessárias e evitar futuros desastres», assinala Fernando Seabra Santos em nota de imprensa da UC, ideia que ontem reforçou no colóquio de divulgação de resultados preliminares do estudo.
Nas conclusões, nota-se que a cheia deste ano não teve um caráter centenário, nem a precipitação na bacia do Mondego atingiu o valor maior desde que há registo. A infraestrutura existente tem sido útil para reduzir as cheias «em Coimbra e no Baixo Mondego, principalmente desde que as barragens entraram em funcionamento, «mas tem sido menos eficiente do que o previsto». Para essa menor eficiência são apontadas duas razões: «subavaliação em projeto da contribuição da bacia intermédia, que levou à definição de um protocolo pouco exigente da gestão hidráulica das barragens» e «modificação do comportamento hidrológico da bacia, provavelmente em resultado da desflorestação e dos incêndios».
Fernando Seabra Santos criou grupo de trabalho dedicado às cheias
No estudo, que aprofunda estas duas razões, ao mesmo tempo que descarta, também de forma fundamentada, a variável “alterações climáticas”, lê--se que as obras do Açude de Coimbra e dos diques do Baixo Mondego foram projetadas para «um tempo de retorno de mil anos», mas estão a funcionar com tempo de retorno de 30 anos, o que é inaceitável…».
Para reposição da segurança, os investigadores entendem que «a resposta estrutural correta, possível e desejável mas com efeitos de longo prazo, seria diminuir a contribuição da bacia intermédia para valores mais próximos dos de projeto, através da implementação de uma política de intensa reflorestação das encostas, em particular das serras do Açor e da Lousã».
No entanto, observam, «mesmo que seja possível iniciar a curto prazo a reflorestação da bacia e reduzir drasticamente a intensidade e a frequência dos grandes incêndios, a segurança do sistema não será reposta nas próximas dezenas de anos sem a introdução de um reforço estrutural adicional». E, neste ponto em particular, não veem outro reforço estrutural «que não seja a construção de uma nova grande barragem».
Os incêndios de grande dimensão parecem ser os responsáveis pela modificação do comportamento hidrológico da bacia. Se as condições atuais «se mantiverem no futuro, é de prever que de 10 em 10 anos a cheia máxima no Açude possa ultrapassar 1.600 m3/s e que de 20 em 20 anos possa ultrapassar os 2.000 m3/s», analisam, ao salvaguardarem que «estes valores devem ser considerados limites otimistas». Porque assentam no pressuposto de «que se mantém um protocolo “apertado” de gestão hidráulica das comportas das barragens, o que nem sempre aconteceu no passado, e que o comportamento hidrológico da bacia não se agrava».
Investigadores avançam que os incêndios de grande dimensão parecem ter ser responsáveis pela modificação do comportamento hidrológico da bacia.
No trabalho é defendida a modificação do protocolo de exploração hidráulica das comportas da Aguieira e de Fronhas, única forma de atuar sobre a formação da onda de cheia a jusante e nomeadamente sobre o valor do caudal máximo de cheia no Açude. O protocolo «proposto em projeto é, neste momento, ineficaz», assinala-se nas conclusões.
O estudo, sob coordenação de Seabra Santos, teve contribuições de Isabel Pedroso de Lima, Rita Fernandes de Carvalho, J. Ferreira, Cidália Fonte, Paulo da Venda Oliveira, Ricardo Martins, Nuno Simões e Alfeu Sá Marques.
Na sessão de abertura do colóquio, que decorreu na FCTUC, participaram os vice-reitores da Delfim Leão e Alfredo Dias, e o diretor da FCTUC, Edmundo Monteiro.
Responsáveis passam ao lado de uma resposta estrutural
Às conclusões científicas, os investigadores juntaram uma apreciação política: à semelhança de 2001, 2016 e 2018, entidades e organismos responsáveis «nomearam comissões cujos relatórios vão arrumar numa prateleira, atiraram alguns milhões para reparar os estragos imediatos mais visíveis, passaram com leviandade ao lado de uma resposta estrutural que a gravidade do problema exige e preparam-se agora para festejar o sucesso da sua intervenção».
Três razões para a rutura do dique nos Casais
Os investigadores da UC entendem que o excesso de caudal não foi o motivo que levou a ruturas nos diques em 2001, 2019 e 2026. Para o sucedido este ano, nos Casais, apontam três razões. A mais importante reporta «ao não funcionamento, ou funcionamento incompleto, dos órgãos de proteção».
Porque dos três diques-sifão instalados, apenas um funcionou em pleno. «Se o dique-sifão 3, instalado imediatamente a montante da secção da ponte da A1 tivesse funcionado, o caudal no viaduto teria sido de 1.785 m3/s, com uma cota máxima de 40 centímetros abaixo do coroamento, em vez dos 1.985 m3/s que lá passavam no início do galgamento», concluem.
A segunda razão prende-se com a «colmatação parcial da secção, por efeito dos troncos de árvores acumulados nos vinte pilares da ponte da A1».
Floresta fragilizou taludes interiores
Embora «seja difícil avaliar este efeito, parece razoável estimar que, se a secção estivesse livre, o nível do escoamento teria sido, no pico da cheia, cerca de 30 cm inferior ao verificado, o que teria evitado o galgamento», ponderam os cientistas que, na terceira razão, apontam «a floresta que se deixou crescer nos taludes interiores dos diques e nas galenas», que os fragilizou estruturalmente e diminuiu a capacidade de escoamento das secções.
«Bastaria que um destes três aspetos tivesse sido acautelado para que a rutura tivesse sido evitada», concluem no estudo que, entre outras análises, aprofunda possíveis causas para o não funcionamento dos sifões.










