A (in)atualidade de Miguel Torga
É sem dúvida um erro comum, e tão grave quanto comum, pretender medir o interesse de um escritor pela sua atualidade. A menos que nos entendamos previamente sobre o sentido da palavra “atualidade”. É preciso ver, antes de mais, que não falamos da atualidade de Ticiano, de Delacroix ou de Turner, nem de Bach, Vivaldi ou Van Gogh, pois nem os pintores nem os músicos são classificados em função da sua adequação ao nosso tempo. Não se passa o mesmo com os autores, a quem pedimos que respondam às nossas angústias presentes, que formulem antecipadamente questões que são, ou se tornaram, as nossas. É assim que um romance tão clássico como A Peste d’Albert Camus (1947) se tornou atual no momento da recente pandemia, tendo os leitores, enclausurados em suas casas sob a ameaça do contágio, encontrado nele uma espécie de descrição antecipada dos seus próprios sofrimentos.
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