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Silêncio

Julho 2, 2026 . 09:49
"Vivemos numa sociedade que reage ao instante e que esquece depressa. Comovemo-nos intensamente durante quarenta e oito horas para, logo a seguir, a nossa atenção saltitar para outro acontecimento" | Texto de Opinião de Gil Baptista Ferreira

Há pouco mais de dois meses, um dos maiores atletas portugueses sofreu um acidente gravíssimo. O país soube que estava em coma induzido, acompanhou a angústia dos primeiros boletins médicos e ouviu as declarações do treinador. Depois, fez-se silêncio.

O atleta chama-se Etson Barros. Tem 25 anos, é recordista e campeão nacional dos 3000 metros obstáculos nos últimos cinco anos e medalha de prata nos Europeus sub-23 em 2021 e 2023, e uma referência grande para quem acompanha a modalidade - é o caso do autor destas linhas. Uma pesquisa no Google Notícias devolve uma torrente de resultados nos dias 16 e 17 de abril. A seguir, nem mais uma palavra.

Não sabemos se a recuperação evolui favoravelmente. Se já iniciou reabilitação. Se poderá voltar a competir. Sabemos apenas que deixou de haver notícias, pelo menos nos canais habituais. A informação circula, mas de outra forma: num aparte numa rede social, num rumor de amigo de amigo, no comentário episódico, sem contexto e sem confirmação.
O jornalismo contemporâneo tornou-se extraordinário a cobrir acontecimentos. Um acidente grave traduz o que os manuais chamam valor-notícia: inesperado, dramático, emocionalmente intenso, capaz de mobilizar a atenção coletiva. O problema é que uma recuperação neurológica não cabe numa lógica de breaking news. É lenta, incerta. E o tempo da recuperação não coincide com o tempo do jornalismo.

Mas o problema não é só do jornalismo. Vivemos numa sociedade que reage ao instante e que esquece depressa. Comovemo-nos intensamente durante quarenta e oito horas para, logo a seguir, a nossa atenção saltitar para outro acontecimento. Nas redes, o algoritmo procura o próximo tema antes de termos compreendido o anterior.

Observamos este fenómeno todos os dias. Uma guerra desaparece das primeiras páginas sem ter terminado. Uma catástrofe sai de cena enquanto as populações continuam a reconstruir as suas vidas. Ainda ontem Gaza ocupava a nossa atenção; hoje é a Venezuela, com mais de 1500 mortos nos sismos da passada semana.

A privacidade merece ser respeitada. Se a família e o clube optaram por não divulgar informação clínica, tal decisão deve prevalecer. O jornalismo não tem o dever de transformar a dor em espetáculo. Mas entre o espetáculo permanente e o silêncio absoluto existe um espaço que vemos cada vez mais achatado: o acompanhamento. Acompanhar é reconhecer que algumas histórias não acabam quando deixam de ser uma trend.

Este fim de semana, em Coimbra, disputaram-se os Nacionais de Clubes em atletismo. Antes do início de algumas provas, atletas de diversos clubes vestiram t-shirts com mensagens de apoio ao Etson, num gesto que quiseram que fosse público. O assunto não é tabu na modalidade. Tornou-se invisível nos media.

Talvez a marca definidora do jornalismo contemporâneo já não seja a velocidade com que produz notícias. Talvez seja a velocidade com que as esquece. E isso diz tanto sobre ele como sobre nós próprios. Os jornais publicam o que acreditam que os leitores querem ler. Este caso não é futebol, e isso também faz a sua diferença. Quando uma história desaparece, talvez não seja apenas porque deixou de haver notícias. Talvez seja porque todos aprendemos, conscientemente ou não, a viver numa cultura onde a atenção é um bem cada vez mais fugidio.
O silêncio em torno de Etson Barros é também um sinal dos tempos: comovemo-nos depressa, esquecemos depressa, e chamamos a isto atualidade.

Julho 2, 2026 . 09:49

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