
Círculo Sereia no Anozero’26
Nesta galeria de carácter contemplativo, os vídeos de investigação da Forensic Architecture, as imagens construídas de Thomas Demand, as fotografias de oliveiras palestinianas de Adam Broomberg e Rafael Gonzalez e as imagens de chaves deslocadas de Taysir Batniji confrontam, em conjunto, a catástrofe em curso em Gaza, traçando gestos frágeis de segurar, testemunhar e sustentar a memória perante o apagamento sistemático.
Taysir Batniji
Composta a partir de centenas de relatos de pessoas deslocadas, forçadas a abandonar casas destruídas pelos bombardeamentos israelitas em Gaza, Just in Case #2 explora experiências de perda, exílio e despossessão por meio do motivo recorrente da chave — forma que atravessa toda a obra do artista.

Adam Broomberg e Rafael Gonzalez
A oliveira é um símbolo central da identidade, cultura e resistência palestinianas. Sustenta a subsistência de mais de 100 000 famílias e ancora tradições, memória e pertença, tendo sido há décadas alvo de destruição e espoliação. Estima-se que, desde 1967, cerca de 800 000 oliveiras palestinianas tenham sido arrancadas ou destruídas. Entre 2021 e 2022, Adam Broomberg e Rafael Gonzalez desenvolveram um projeto fotográfico nos Territórios Palestinianos Ocupados centrado nestas árvores, muitas com milhares de anos. Anchor in the Landscape apresenta a oliveira não como elemento natural neutro, mas como testemunha viva de colonialismo, guerra e apagamento cultural e ambiental. As imagens, desprovidas de presença humana explícita, registam ausência, dano e resistência: árvores entre lápides, ruínas e solos marcados, guardando silenciosamente histórias inscritas na casca e na terra. Ao recusar a espetacularização da violência, a série interroga o papel ético da fotografia perante o apagamento, afirmando a imagem como forma de testemunho e de continuidade da memória.

Thomas Demand
Thomas Demand parte de imagens de imprensa para construir modelos em papel à escala real, que fotografa e destrói, deixando alusões indiretas a acontecimentos históricos. Melonen evoca melancias falsas usadas no contrabando, hoje também símbolo de solidariedade palestiniana. Demonstration mostra um protesto em Telavive antes de 7/10/23. Memorial sugere a ubiquidade dos memoriais de violência. Fels envolve o espaço com imagens do arquivo Bettmann, pertencente à Getty Images, sob a Iron Mountain.

Forensic Architecture
Duas obras da Forensic Architecture, agência de investigação sediada em Londres, confrontam-se no âmbito das suas investigações sobre o genocídio em Gaza.
Death by a Thousand Cuts reúne uma compilação de ordens de evacuação lançadas por via aérea por Israel sobre Gaza desde outubro de 2023. A deslocação forçada de civis é conduzida através de “avisos”, “corredores seguros” e “zonas humanitárias”, que funcionam menos como proteção do que como dispositivos performativos de conformidade com o direito humanitário, produzindo medo e escolhas impossíveis, mesmo após o cessar-fogo de outubro de 2025.
Three Days at Al-Azhar University: 28–30 January 2024 acompanha Nadia e Ahmad (pseudónimos), um jovem casal de Beit Hanoun, forçados a múltiplas deslocações devido à repetida obediência a ordens militares difundidas por vários meios. Empurrados entre locais supostamente seguros, acabam expostos a zonas de ataque ativo ou privados de condições básicas de sobrevivência.
Círculo Sereia
Parque de Santa Cruz
Casa Municipal da Cultura, piso -1
Qua–Dom 10h00–13h00 e 14h00–18h00
Aberto nos feriados
ANOZERO’26 Últimos dias
Aproxima-se o encerramento do Anozero’26. Até 5 de julho, o público poderá ainda visitar a Bienal, que se encontra distribuída por oito espaços da cidade e reúne mais de meia centena de artistas, arquitetos e coletivos provenientes de diferentes geografias e gerações.
Organizada pelo Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC), pela Câmara Municipal de Coimbra e pela Universidade de Coimbra, a Bienal tem curadoria de Hans Ibelings e John Zeppetelli, com curadoria assistente de Daniel Madeira. Sob o tema Segurar, dar, receber, propõe uma reflexão sobre as relações entre exposição e habitação, cuidado e partilha, explorando a forma como os espaços podem ser simultaneamente lugares de encontro, acolhimento e transformação.
Nas últimas semanas da Bienal continuam a decorrer visitas guiadas, performances, lançamentos de livros, workshops e atividades do Programa Convergente, culminando num programa especial de encerramento nos dias 4 e 5 de julho. Toda a informação está disponível em https://www.anozero26bienaldecoimbra.pt












