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“Folclore tem capacidade de aproximar pessoas e criar pontes entre culturas"

Paulo Marques, presidente do Folk Cantanhede, festival que vai decorrer de 4 a 12 de julho, revela que o investimento de 83 mil euros “reflete a dimensão internacional do evento e o esforço necessário para acolher participantes provenientes de onze países, garantindo condições de qualidade ao nível da programação, logística, alojamento, alimentação e transportes”

A edição deste ano, de 4 a 12 de julho, reúne 11 países (Colômbia, Bélgica, Timor-Leste, Equador, Espanha, Índia, México, Quirguistão, Quénia, Indonésia e Portugal). Quais foram os maiores desafios logísticos para trazer estes grupos até Cantanhede?

Trazer a Cantanhede grupos provenientes de onze países, distribuídos por quatro continentes, representa sempre um enorme desafio logístico e organizativo. Este ano, a complexidade foi particularmente elevada, não apenas pelas grandes distâncias envolvidas, mas também pela necessidade de coordenar voos internacionais, vistos, transportes internos, alojamento, alimentação e toda a operacionalização necessária para acolher cerca de duas centenas de participantes em condições de conforto e segurança. Os grupos provenientes de países mais distantes, como Timor-Leste, Indonésia, Índia, Quénia, Quirguistão, Colômbia, Equador ou México, exigiram um acompanhamento muito próximo durante vários meses, nomeadamente ao nível dos processos administrativos e da articulação das viagens internacionais. Apesar destas dificuldades, mantemos a convicção de que é precisamente nestes momentos que iniciativas como o FOLK Cantanhede assumem uma importância ainda maior. Quando o mundo parece dividir-se, a cultura tem a capacidade de aproximar pessoas, criar pontes de entendimento e promover o respeito mútuo.

 

Como é feito o processo de escolha dos grupos que participam no evento?
Recebemos cerca de 130 candidaturas de grupos de vários países, o que demonstra o reconhecimento internacional que o FOLK Cantanhede conquistou ao longo dos anos. A seleção foi particularmente rigorosa e baseou-se na análise dos currículos e dos vídeos enviados pelos candidatos, permitindo avaliar a qualidade artística, a autenticidade das tradições representadas e a adequação ao projeto cultural do festival. Procurámos construir um programa diversificado, representativo de diferentes culturas e continentes, sempre alinhado com os valores que orientam o FOLK Cantanhede: a promoção da paz, do diálogo intercultural e da valorização da arte tradicional como fator de aproximação entre os povos.

Descentralização da programação constitui uma das características mais distintivas do festival e uma das maiores responsabilidades sociais

Sendo um festival certificado pelo CIOFF, de que forma essa chancela eleva a responsabilidade da organização?
A certificação do CIOFF representa um reconhecimento internacional da qualidade e da credibilidade do FOLK Cantanhede, mas também uma enorme responsabilidade. Esta chancela obriga-nos a cumprir elevados padrões de qualidade artística, de rigor organizativo e de respeito pela autenticidade das culturas representadas. Significa, igualmente, o compromisso de promover os valores defendidos pelo CIOFF, nomeadamente o diálogo intercultural, a salvaguarda do património cultural imaterial e a aproximação entre os povos.

 

O mote da edição destaca a “paz e tolerância entre os povos”. Como pode o folclore funcionar como uma ferramenta diplomática num contexto mundial tão complexo?
O folclore tem uma capacidade extraordinária de aproximar pessoas e criar pontes de entendimento entre culturas. Quando um grupo sobe ao palco, não está apenas a apresentar danças, músicas ou trajes tradicionais; está a partilhar a história, os valores, as vivências e a identidade do seu povo. Essa partilha gera conhecimento, respeito e empatia, elementos fundamentais para uma convivência mais harmoniosa entre as sociedades. Num contexto mundial complexo, marcado por guerras, tensões geopolíticas e crescentes divisões sociais, a cultura assume um papel cada vez mais relevante.

Folk Cantanhede 20

O festival é conhecido por levar espetáculos a todas as freguesias do concelho e municípios vizinhos. Qual é a importância de aproximar a cultura internacional das populações locais mais isoladas?
A descentralização da programação constitui uma das características mais distintivas do festival e uma das suas maiores responsabilidades sociais. Ao levarmos espetáculos às freguesias do concelho e a municípios vizinhos, estamos a proporcionar às populações o contacto direto com culturas de diferentes partes do mundo, muitas vezes em locais onde o acesso regular a eventos culturais desta dimensão é mais limitado.

 

O evento mantém uma forte vertente solidária, com animações em instituições sociais. Que balanço faz do impacto humano destas visitas?
As animações realizadas em instituições sociais constituem um dos momentos mais marcantes e emotivos do FOLK Cantanhede. Além da dimensão artística e cultural do festival, existe uma forte preocupação com a sua dimensão humana e social. Ao levarmos os grupos participantes a lares, centros de dia, instituições de apoio à deficiência e outras estruturas sociais, procuramos proporcionar momentos de alegria, partilha e proximidade a pessoas que, muitas vezes, não têm oportunidade de assistir aos espetáculos públicos do festival. A reação que encontramos é sempre muito gratificante, tanto por parte dos utentes como dos profissionais e familiares. Mas o impacto destas visitas faz-se sentir nos dois sentidos. Os próprios artistas regressam aos seus países profundamente sensibilizados pelas experiências vividas e pelos laços humanos que conseguem criar, mesmo quando existem barreiras linguísticas. A música, a dança e o sorriso acabam por se tornar uma linguagem universal.

 

O festival depende do trabalho de dezenas de voluntários. Como se consegue motivar as camadas mais jovens para a preservação e valorização das tradições populares?
O envolvimento dos jovens é um dos maiores desafios, mas também uma das maiores prioridades. Acreditamos que a melhor forma de motivar as novas gerações para a preservação das tradições populares é fazê-las sentir que fazem parte deste património vivo e que têm um papel ativo na sua continuidade. O voluntariado desempenha aqui uma função fundamental. Todos os anos, dezenas de jovens colaboram na organização do festival (a edição 2026 conta com 72 voluntários) e têm a oportunidade de contactar diretamente com participantes de diferentes países e culturas.

Recebemos cerca de 130 candidaturas de vários países, o que demonstra o reconhecimento internacional que o FOLK Cantanhede conquistou

Sendo um evento desta envergadura, de que apoios (públicos e privados) o festival necessita para garantir a sua sustentabilidade financeira?
Um festival internacional com a dimensão do FOLK Cantanhede implica um investimento muito significativo ao nível dos transportes, alojamento, alimentação, infraestruturas, logística e programação cultural. Para garantir a sua sustentabilidade financeira é indispensável contar com uma forte rede de parceiros institucionais e empresariais, contando com a colaboração do Município de Cantanhede, 15 freguesias do concelho, às quais se associam a Freguesia de Arazede, Fonte de Angeão e Covão do Lobo, Turismo Centro de Portugal, Fundação INATEL, CCDRC – Unidade de Cultura, Agrupamento de Escolas Marquês de Marialva, Caixa de Crédito Agrícola, Orima, Intermarché, Freixial Shopping, Febauto, Garagem Estrela, Diário de Coimbra, Rádio Regional do Centro, Clínica São Mateus e Ourivesaria Carolina, entre outros. Importa também destacar o papel dos voluntários, das associações locais e de todos que colaboram com a organização.

 

Com a 19.ª edição na rua, as atenções começam a virar-se para o 20.º aniversário. O que podemos esperar para o futuro do Folk Cantanhede?
Olhamos para a 20.ª edição com enorme entusiasmo, mas também com um profundo sentido de responsabilidade. Ao longo de quase duas décadas, o FOLK Cantanhede afirmou-se como uma referência nacional e internacional no panorama dos festivais de folclore CIOFF, e o nosso objetivo é continuar a crescer sem nunca perder a sua identidade e os valores que lhe deram origem. O 20.º aniversário será certamente um momento de celebração do percurso realizado, de homenagem a todos aqueles que contribuíram para a construção deste projeto e de afirmação da sua relevância cultural e social. Queremos que seja uma edição memorável, capaz de envolver ainda mais a comunidade, os parceiros e os milhares de espectadores.

 

Qual é o orçamento global desta edição e qual é o retorno financeiro estimado para a economia local?
O orçamento global da edição de 2026 ronda os 83 mil euros, um valor que reflete a dimensão internacional do evento e o esforço necessário para acolher participantes provenientes de onze países, garantindo condições de qualidade ao nível da programação, logística, alojamento, alimentação e transportes. Mais do que um valor financeiro, este orçamento representa a concretização de um projeto cultural que afirma Cantanhede como um espaço de encontro entre povos e culturas, promovendo a paz, o diálogo intercultural e a valorização da arte tradicional.

Junho 26, 2026 . 11:30

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