
Confraria do Medronho: um fruto de elevado potencial
Está tradicionalmente associado à produção de aguardente, mas também permite um licor de excelência, compotas e geleias e, naturalmente, pode ser consumido fresco. Falamos do medronho, fruto do medronheiro, um arbusto de geração espontânea que cresce e floresce em toda a região da Beira Serra e Pinhal Interior. Acresce ainda a sua enorme resiliência e mesmo uma grande capacidade de regeneração.
«O medronho e o medronheiro têm muito potencial, que não estava devidamente aproveitado», afirma José Vasco Campos. E foi essa constatação que ditou a criação da Confraria do Medronho, com o objetivo de «trazer o medronho e o medronheiro para a ribalta».
Um percurso que começou em 2008, na Beira Serra, com alguns “altos e baixos”. Estes aconteceram particularmente com os incêndios de 2017, que deixaram um rasto de destruição impensável em toda a região. «Ficámos muito abatidos, de todas as formas». «Todo o nosso território ardeu e a Confraria esteve três/quatro anos com uma atividade muito reduzida, mas pouco a pouco tem regressando à atividade», afirma o mordomo-mor.
Uma atividade que tem, necessariamente, que ter uma «forte ligação ao produto», afirma José Vasco Campos, figura de proa na gestão florestal na região da Beira Serra. E essa proximidade tem dado frutos, particularmente medronho e medronheiros de qualidade ímpar, com projetos inovadores efetuados com o necessário acompanhamento técnico e científico, mas bem assentes no saber ancestral das gentes da região.

Tratou-se de um processo de seleção de árvores de excelência, reconhecidas pela sua qualidade e resistência, e pela produção de frutos em quantidade, qualidade e com durabilidade. A escolha foi feita por residentes locais, dos concelhos de Oliveira do Hospital e de Arganil, que conheciam como ninguém o território, entre os quais José Vasco Campos destaca António Fontinhas, que faleceu com mais de 100 anos.
A seleção de varas, assim se chama o processo visou “clonar” as plantas originais, através do seu enraizamento, em ambientes propícios e controlados, de molde a garantir novos arbustos igualmente excelentes e que repliquem a capacidade produtiva de topo das “plantas-mãe”. Um processo feito no quadro de uma parceria que, além da Confraria do Medronho, envolveu a Escola Superior Agrária de Coimbra e também a CAULE – Associação Florestal da Beira Serra, visando o «melhoramento genético» do medronheiro, que decorreu de forma muito positiva. «Pelo menos uma empresa aproveitou esse material vegetal», adianta o mordomo-mor.
A melhoria genética é, naturalmente, importante, mas a «propagação das plantas» constitui um fator decisivo, sobretudo tendo em conta a devastação imposta pelo fogo. «Já temos plantado algum medronho», mas há uma grande plantação em perspetiva, a realizar ainda este ano. Um projeto com a assinatura da CAULE, à qual José Vasco de Campos também preside, que envolve um total de 100 hectares e 100 mil plantas, que deverão ser plantadas a partir de novembro próximo. A maior plantação está prevista para a zona do Vale do Alva e de Alvôco, mas há uma segunda programada para o Vale do Mondego, na zona norte do concelho de Oliveira do Hospital.
Produção e procura aumentam
Esta atenção ao produto e ao território é «fundamental» no entender o mordomo-mor da Confraria, para quem, não estando nós a assistir a «uma corrida ao medronho», a verdade é que se tem registado «um aumento extraordinário da produção». Ao mesmo tempo, «o foco deixou de estar só na aguardente», começando a ser dada atenção a «outros produtos que não estavam muito valorizados», refere José Vasco, que realça a «valorização do próprio medronho, que já se encontra à venda embalado». Uma “janela” que, em seu entender, merece atenção, pois «há um mercado da saudade relacionado com o medronho. As pessoas cresceram com o medronho e gostam do sabor», sublinha, não tendo dúvidas de que «há um trabalho muito grande para fazer» no que à fileira do medronho diz respeito na região.
Assume, de resto, que uma das razões – naturalmente não a mais importante – que levou à criação da Confraria do Medronho foi mesmo o desejo de «fazer algum contraponto à ideia de que o medronho era só do Algarve». «Toda a região da Beira Serra e do Pinhal Interior, até ao Tejo, sempre teve medronho, mas todo o protagonismo está no Algarve», afirma. Aliás, recorda a “convicção” partilhada por muitos de que os confrades do medronho eram do Algarve, situação que hoje em dia estará mais esclarecida, pois entretanto foi criada a Confraria do Medronho – Monchiqueiros, de Monchique.

Projetos de sucesso crescem na região
«Há projetos muito interessantes na região», sublinha José Vasco Campos, que destaca quatro , a começar por João Pedro Mendes e as iniciativas empresariais que desenvolve há mais de duas décadas na zona de Seia, com a marca “Caratão”. «Foi das primeiras pessoas a falar no medronho na região, tem uma produção excecional e produtos com muita qualidade», adianta.
Mais recente é o projeto liderado pelo biólogo Carlos Fonseca, professor da Universidade de Aveiro, que regressou às origens e decidiu apostar na plantação de medronho e num projeto de natureza turística. Foi o primeiro medronhal certificado do mundo, que em 2017 ficou reduzido a cinzas, mas renasceu, e revigiorou-se. «Já fez aguardente», refere o mordomo-mor.
A Lenda da Beira, na Pampilhosa da Serra, é outro projeto emblemático da região, que representa a concretização de um sonho de José Martins. Um pioneiro que acreditou no potencial do medronho e foi o primeiro a arrotear terras para proceder à plantação organizada. Hoje, os seus produtos são, efetivamente, uma “Lenda”.
Mais distante, no concelho de Oleiros, destaca a Silvapa, uma empresa familiar de Paulo e Idalina Silva que trabalham o medronho desde a década de 90 do século passado, com os filhos a darem continuidade ao projeto. «Têm o melhor licor de medronho», assegura.
«São projetos de sucesso», elogia, não tendo dúvidas de que o consumo é que dita “as leis”. «Se houver consumo, pode-se investir na plantação e até na apanha do medronho espontâneo, facto que implica que as áreas estejam tratadas», diz e faz notar o ciclo que «toda esta dinâmica representa» para o desenvolvimento local e para o surgimento de «produtos de grande qualidade».
Dinâmica que, num dos vértices, coloca a Confraria do Medronho, com o seu papel de divulgar o medronho e os produtos que lhe estão associados. Lembra ainda que têm surgido eventos relacionados com o medronho, promovidos por várias entidades, nomeadamente municípios e juntas de freguesia, que «não existiam há 20 anos» e que classifica como importantes «para promover e valorizar este fruto excecional».
Especialista em gestão florestal e com uma vasta experiência neste domínio, o também presidente da CAULE chama a atenção para o que a cultura do medronheiro pode representar como «atitude nova relativamente à floresta». «É uma forma de combater o abandono das terras» e recuperar terras abandonadas, situações que, juntamente com a resistência natural destes arbustos ao fogo representam argumentos de peso ao nível da prevenção de incêndios e também no ordenamento e valorização da floresta.
«Não se trata de encher as nossas serras de medronho, mas há muito caminho para fazer», considera. Potencial existe e a prova está no facto de o Algarve vir «consecutivamente comprar medronho à região», pois a produção local não chega “para as encomendas”. «Só Monchique tem mais de 20 destilarias oficiais e legalizadas», ilustra. Em contrapartida, na região contam-se pelos dedos de uma mão… e sobram, com uma em Seia, outra em Tábua e uma terceira na Pampilhosa da Serra.












