
Real Confraria da Matança do Porco mantém viva tradição
As novas tempos e as exigências legais, em termos higio-sanitários, puseram em risco um momento singular da vida familiar, alargada a toda a aldeia. Uma experiência marcante, de origens ancestrais, que fazia parte dos hábitos das comunidades rurais. Todas as famílias criavam o seu porco e, com o aproximar do tempo frio, já com o animal “composto de carnes”, procedia-se à matança. Um dia de festa, que juntava familiares e amigos. Também um dia de grande azáfama, pois era necessário preparar toda a carne, uma destinada à salgadeira, outra para os enchidos. No sal ou no fumeiro, preservava-se a carne para os longos meses que se aproximavam. Era o sustento da família que se procurava assegurar, num tempo em que não havia frigoríficos, nem tão pouco arcas congeladoras para garantir a conservação da carne fresca para a alimentação.
Os tempos mudaram e trouxeram outras respostas, mas também novas normas, novas prerrogativas que puseram em causa esta tradição. A Fundação ADFP, de Miranda do Corvo, entendeu que devia agir e criou a Real Confraria da Matança do Porco. Estávamos em 2007. «A Confraria surgiu como objeção às imposições legais que limitavam a matança do porco em contexto familiar», recorda Nancy Rodrigues, secretária da Direção da Confraria (lavrador, do Conselho de Lavradores), que esteve envolvida nesse “movimento de reação”, liderado pela Fundação.
Um grupo de pessoas ligadas ao movimento em causa deslocou-se a Lisboa para reunir com a ASAE – Autoridade de Segurança Alimentar e Económica com o objetivo de «sensibilizar os técnicos» desta entidade para o facto de «esta imposição legal pôr em causa uma prática ancestral, que tem associados um conjunto de valores, além de uma grande riqueza gastronómica e com grande importância na nossa sociedade», lembra.
Proibição das tradicionais matanças, que outrora faziam parte da vida das comunidades rurais em geral, levou a Fundação ADFP a empenhar-se na criação da Confraria
Na altura, e isso foi expresso pelos “mandatários” do “movimento”, perspetivava-se a constituição de uma Confraria dedicada à matança do porco e desde logo ficaram balizadas as necessárias exigências por parte da ASAE, decorrentes das novas regulamentações legais sobre o abate de animais. «A ASAE impôs algumas condições», que foram aceites e que, grosso modo, incluíram a «notificação da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária» aquando da realização de um evento, o facto de a rês não poder ser morta da forma tradicional, ou seja, com o recurso à faca da matança, mas sim em conformidade com os procedimentos feitos em ambiente de matadouro.
Exigências a que se somou a obrigatoriedade da presença de um veterinário no local para atestar as boas condições sanitárias do animal e também o consumo da carne ser feito em contexto restrito e num ambiente familiar.
Regras que a Real Confraria da Matança do Porco assumiu e cumpre, lembrando que os confrades, cerca de 130, são efetivamente pessoas ligados por laços familiares ou de amizade, num circuito de relações pessoais, emocionais e profissionais, com idades entre os 8 e os 80 anos, sempre com alguma ligação, direta ou indireta à estrutura mãe, a Fundação ADFP. «Conhecemo-nos todos», afiança Nancy Rodrigues, que sublinha o «espírito familiar» que se vive na Confraria, que funciona como secção autónoma dentro da Fundação.

Recriação recheada de sabores
O capítulo da Confraria realiza-se no icónico Parque Biológico da Serra da Lousã, igualmente uma valência da Fundação ADFP, com veterinário próprio, nessa data “requisitado” para o evento, com a notificação à tutela a ser feita atempadamente e também a ser cumprido o requisito de consumo em contexto familiar, neste caso alargado aos representantes das muitas confrarias que habitualmente demandam Miranda do Corvo para participarem neste cerimonial.
Quanto ao animal, o porco é previamente abatido, seguindo as regras definidas. Por isso, na ocasião, é feita uma encenação, que tanto pode ser assumida pela equipa de profissionais do Parque Biológico, como por um rancho folclórico. Nancy Rodrigues reconhece mesmo que a encenação acaba por ser um fator positivo positivo, inclusivamente «mais agregador», uma vez que retira de cena a violência da morte e a agonia do animal, que não deixa de ser traumática, sobretudo para pessoas mais sensíveis.
Um programa que habitualmente acontece em outubro/novembro e começa logo às 8h30, com o “desjejum”. Em causa está um pequeno-almoço reforçado, já com os sabores da matança caldeados com a orelheira, enchidos variados, o tradicional bucho (estômago do porco recheado com carne e arroz), bom presunto – de produção caseira, colocado na salgadeira na matança do ano anterior – e os queijos da região, entre outros petiscos tradicionais. Segue-se a missa, o desfile das confrarias, a foto de família e a cerimónia de entronização.
Por volta do meio-dia, assiste-se à recriação da matança do porco, com o animal a ser “chamuscado” para a retirada do pelo, o sangue cozido e consumido na altura, ao mesmo tempo que o pão acabado de cozer sai do forno. É uma espécie de «segundo lanche», explica Nancy Rodrigues.
Depois, o animal é pendurado, aberto ao meio e começa a ser cortada a carne, «sempre num ambiente rodeado de petiscos», que abrem o apetite para o almoço ou melhor o denominado “jantar da matança”, que decorre no Hotel Parque Serra da Lousã, também pertencente à Fundação ADFP.
Naturalmente, o almoço cumpre a tradição, com um lauto sarrabulho a presentear os comensais. Um prato feito com as vísceras do animal, nomeadamente o coração e o fígado, cortados em pequenos pedaços, a que se juntam «algumas carne mais macias» como é o caso dos “lombinhos”, explica a lavrador. Todas as carnes são fritas e, no final junta-se o sangue do porco. A acompanhar o sarrabulho é servida batata cozida e grelos. «Era este prato que era servido tradicionalmente na matança do porco», explica.
A Real Confraria acautela sempre um prato de peixe, alternativo para os convidados que não apreciam esta iguaria. O bom vinho das Terras de Sicó, também ele uma produção da Fundação, é o denominador comum desta refeição típica.
Um momento de partilha união e amizade
«A matança do porco era um momento de convívio, de partilha, que reunia toda a família, os amigos e vizinhos», sublinha Nancy Rodrigues, que recorda a sua vivência pessoal desta realidade em casa dos avós. Homens e mulheres dividiam-se, recorda, com os primeiros a juntarem-se à volta do porco, que era necessário, primeiro segurar bem, para a matança, seguindo-se todo o cerimonial de preparação, que culminava com o corte da carne.
Já as mulheres «juntavam-se na cozinha», o outro centro de operações, pois «a cozinha acompanhava os diferentes passos da matança», desde cozer o sangue do animal aos preparativos do almoço, passando pela confeção dos primeiros enchidos, feitos a partir do momento em que havia sangue disponível e alguma carne.
Todo o cerimonial que rodeia a matança do porco «encerra um conjunto de valores, de amizade, de partilha», sublinha a lavrador, lembrando que, no final da festa cada família levava para casa «um prato recheado», dando continuidade a essa partilha solidária.
«São valores que hoje em dia são muito difíceis de manter», não apenas devido às exigências legais, mas pelas «nossas próprias rotinas, o modo mais individualista de viver», reconhece Nancy Rodrigues. Razões que conferem uma importância acrescida à Confraria pelo facto de manter viva essa memória e «esses valores humanos que não podemos deixar de ter presentes na nossa vida», considera. Uma mensagem plenamente experienciada nos capítulos, com os confrades e confrarias presentes a beberem este espírito e a partilharem estas memórias, enquanto outros têm oportunidade de descobrir o significado mais autêntico do que a matança do porco representava no passado para as famílias e para a comunidade.
Nancy Rodrigues reforça a importância da matança do porco numa comunidade rural, marcada por uma economia de subsistência, que ditava o aproveitamento integral de todo o animal. Um indicador de alguma pobreza, que contrastava com a «grande riqueza dos valores» que comporta e representa e que levaram a Confraria a integrar o epíteto “Real” na sua designação e a incorporar esse sinal de «grandiosidade de causas» no traje que usa, através de um galão dourado, que se junta ao vermelho, que simboliza o sangue.
A responsável enaltece, ainda, a riqueza cultural, a relevância do património e da história do concelho de Miranda do Corvo e o orgulho que as suas gentes têm nesta herança e o desejo da sua valorização, expressa na existência de cinco confrarias no concelho.
B.I
Fundação: 2007
Sede: Fundação ADFP, Miranda do Corvo
Traje: Capa preta ornamentada com dois galões, um dourado - de elogio à riqueza (realeza) dos valores da matança - e outro vermelho - em referência ao sangue do animal. Inclui chapéu, também preto, igualmente com os galões dourado e vermelho
Símbolos: Vermelho e amarelo/dourado, com o porco, de um lado e do outro imagem de Miranda do Corvo
Capítulo: Outubro /Novembro
Confrades: Cerca de 130












