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Confraria dos Carolos: Milagres feitos de milho, doces e salgados

Tradição da confeção de carolos fez história em Vila Nova de Oliveirinha. Era a Festa do Bodo, vivida em maio, que matava a fome a muita gente pobre das redondezas. A Confraria dos Carolos quer preservar essa herança solidária e promover uma iguaria de eleição

É uma cultura de dádiva, destinada a matar a fome que grassava entre as gentes pobres. Cresceu e transformou-se num manjar, servido como prato principal ou como sobremesa. Falamos dos carolos, uma iguaria com tradição na Beira Serra, mas com um “toque” especial em Vila Nova de Oliveirinha. Uma história de solidariedade e filantropismo que se mantém viva e que ditou a criação da Confraria dos Carolos. Fundada em Agosto de 2010, andou “meia escondida” durante 16 anos. A partir de agora tudo vai ser diferente. O primeiro capítulo está marcado para outubro.

O prato é típico da região, mas «com este sentido de dádiva só existe em Vila Nova de Oliveirinha», no concelho de Tábua. Quem o diz é Sílvia Ferreira, presidente da Direção da Confraria e a principal mentora da nova dinâmica que se avizinha. Mas é o pai, Alfredo Ferreira, um dos três fundadores da Confraria, que nos conta esta história de dádiva e humanismo associada à Festa do Bodo, que se realizava no dia 8 de maio ou no domingo mais próximo, protagonizada por uma família abastada, proprietária de uma casa senhorial na localidade.

Os carolos são feitos na fogueira, pelos bombeiros, em enormes panelas de ferro

Uma vivência com mais de um século, com a D. Maria Augusta a preparar carolos, que «mandava os empregados distribuir, junto à porta da Igreja». «Carolos e pão de broa, que também cozia», ilustra Alfredo Ferreira, hoje com 72 anos, que se lembra desta distribuição de alimentos, que matava a fome aos muitos pobres que então residiam nas redondezas de Vila Nova de Oliveirinha e que se manteve durante largos anos.

Quando a proprietária morreu, algumas pessoas, igualmente com posses, mantiveram durante algum tempo este “bodo aos pobres”, mas acabou por cair no esquecimento e deixou de se realizar. Todavia, nos anos 60 do século passado, Alfredo Ferreira lembra-se do empresário José Leal, natural de Vila Nova de Oliveirinha – que estava radicado em Angola, onde era um dos sócios da icónica Cerveja Cuca - se ter deslocado à terra natal e feito um donativo de 300 escudos para que os carolos fossem confecionados e distribuídos de novo. Assim se fez, mas o exemplo não foi seguido e os carolos para os pobres voltaram, mais uma vez, a ficar esquecidos. Até que Antenor Melo, comandante dos Bombeiros Voluntários de Vila Nova de Oliveirinha, na década de 70/80, voltou a pegar na ideia, com os Bombeiros a assumirem, a partir de então, a continuidade desta tradição.

É a Festa dos Carolos, habitualmente realizada a 8 de maio ou no domingo imediatamente a seguir, este ano adiada devido à mobilização geral para a passagem do Rali de Portugal em terras de Tábua. Os carolos são feitos na fogueira, pelos bombeiros, em enormes panelas de ferro e oferecidos à população ou visitantes. Mantém-se a tradição da dádiva e a memória altruísta da D. Maria Augusta. A extrema pobreza e a miséria, essas, felizmente, estão ultrapassadas.

«Tudo feito no segredo dos deuses»

Esta vivência peculiar associada aos carolos, um prato tradicional da região, levou Mário Fonseca a desafiar o amigo, Alfredo Ferreira, presidente da Comissão de Melhoramentos de Vila Nova de Oliveirinha - cargo que assumiu durante 20 anos, e deixou em meados deste mês - para a criação de uma confraria. Inclusive, conta, apresentou-lhe o esboço de uns estatutos. Estava dado o mote para avançar. Alfredo chamou o irmão mais velho, Salvador, e outra moradora, Leonor Santos, e os três consultaram os estatutos de várias confrarias, tiraram uma ideia daqui e outra dali e em Agosto de 2010 dirigiram-se ao Notário, onde registaram a Confraria. «Tudo feito no segredo dos deuses», pois a população só foi informada da «novidade» posteriormente, numa assembleia geral da Comissão de Melhoramentos, onde foi apresentada a Confraria.

«É importante, porque no concelho de Tábua não existe qualquer confraria», afirma Alfredo Ferreira, satisfeito pelo facto de ter “convencido” a filha, Sílvia, a assumir o leme e a empenhar-se na sua revitalização.

Confrades Confraria Dos Carolos

Primeiro capítulo acontece 16 anos após constituição

Sílvia Ferreira está empenhada em recuperar o tempo perdido. «Fomos a alguns capítulos de outras confrarias», mas como a Confraria dos Carolos nunca promoveu um evento, essa “troca” de visitas acabou por se perder, com a coletividade de Vila Nova de Oliveirinha a ficar esquecida, quase à semelhança do que aconteceu no século passado com a tradição do bodo aos pobres. A confreira, presidente da Direção, quer fazer agora tudo “direitinho” e já encetou contacto com a Federação, no sentido de formalizar a adesão da Confraria de Vila Nova de Oliveirinha. O primeiro capítulo, o verdadeiro batismo da Confraria dos Carolos, vai acontecer no próximo mês de outubro.

«Queremos confecionar os carolos ao vivo», refere, entusiasmada com o programa que já está praticamente gizado. O evento terá início por volta das 15h30, com os confrades visitantes convidados a assistir, na Avenida de Pádua, em frente a Igreja Matriz, à preparação dos carolos, na fogueira, em panelas de ferro, e a terem a possibilidade de os apreciar ainda quentes e assistir a um momento musical com um grupo de cantares tradicionais. Segue-se a cerimónia religiosa, na Igreja e a entronização dos 30 confrades-fundadores.
Um momento de festa, o primeiro, organizado pela Confraria dos Carolos, que culmina com o jantar, a realizar no Museu do Azeite, na vizinha localidade da Bobadela, já no concelho de Oliveira Hospital.

Uma refeição em que os carolos vão ser servidos na versão salgada, como prato principal, a acompanhar chouriça ou carne, e também como sobremesa, doces quanto baste, cozidos em leite, aromatizados com casca de limão e pau de canela e, para rematar, tal como o arroz doce, enfeitado com canela. «Aqui toda a gente faz carolos», diz Sílvia Ferreira, usando milho amarelo, seja na versão doce, seja salgada. A justificação estará na «grande pobreza» que outrora existia na região e que permitia, com recurso ao milho -o mesmo cereal com que se confecionava a broa – preparar uma refeição substancial.

«Estive duas horas a mexer um tacho de 50 litros»

Ao longo destes quase 16 anos, a Confraria dos Carolos marcou presença em capítulos de outras confrarias e foi assídua nas feiras do queijo de Tábua e de Oliveira do Hospital, com Alfredo e a esposa a assumirem a confeção dos carolos, mais uma vez oferecidos a quem queria. Carolos doces, neste caso. Na última Tábua de Queijos, o ladrilhador aposentado, que trocou os mosaicos pela madeira e agora se dedica ao artesanato, preparou três quilos de carolos, que permitiram oferecer 100 tacinhas desta iguaria aos visitantes.

«Estive duas horas a mexer um tacho de 50 litros», conta. Foram 22 litros de leite e 2 a 2,5 kg de açúcar. Muita casca de limão e pau de canela completam a receita, que começa com os carolos a irem ao lume com um bocadinho de água. Antes, porém, é preciso assegurar a sua preparação, uma tarefa que não é fácil, tanto mais que o que se vende no supermercado «não são carolos», garante o confrade fundador.

Alfredo Ferreira tem a solução: encomenda os carolos ao moleiro, que procede à moagem do grão num moinho de água, no rio de Cavalos, nas proximidades de Vila Nova de Oliveirinha. «O milho é britado», explica. Significa que não fica desfeito, em farinha, mas transformado em pequenos grãos, «quase do tamanho do arroz». Depois, é preciso lavá-
-los muito bem, para retirar os “olhinhos” e as cascas do milho e só então os carolos estão prontos a seguir para a panela. O resultado é de comer e chorar por mais.

«Se estiver a comer arroz doce e carolos, deixa o arroz doce!», garante Alfredo. A filha corrobora sem qualquer hesitação. «É como comparar carne de vaca com carne de javali!. Os carolos têm um sabor mais intenso, mais selvagem», garante Sílvia Ferreira. A versão doce, como sobremesa, é uma variante da receita clássica dos carolos, confecionada no século passado pela benemérita D. Maria Augusta, com os grãos de milho “britados” cozidos com água, sal, azeite e cebola. «É um sabor agreste», elogia Sílvia Ferreira. As duas versões vão ser saboreadas no capítulo, em outubro.

Bandeira Carolos

B.I.

Fundação: Agosto de 2010
Traje: Capa simples, de cor beje, evocando a cor dos carolos, debruada a castanho, com chapéu castanho
Escapulário: Entrelaçado em dourado, sob castanho
Símbolos: panela de ferro com três pernas, espiga de milho e colher de pau
Sede: não tem, sendo “acolhida” pela Comissão de Melhoramentos de Vila Nova de Oliveirinha
Capítulo: outubro

Junho 10, 2026 . 20:15

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