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Torres do Mondego pode ser centro de turismo mineiro

Ideia foi avançada durante a apresentação da monografia da freguesia, da autoria do historiador João Pinho. À obra literária juntaram-se dois murais de homenagem às tradições locais

«Estamos a falar de um produto turístico muito valorizado». As palavras são de Ana Abrunhosa, presidente da Câmara Municipal de Coimbra e foram a “cereja no topo do bolo”, ontem na sessão de lançamento da monografia sobre Torres do Mondego. Uma obra da autoria do historiador João Pinho, que retrata as origens da mais recente freguesia do concelho de Coimbra, que ganhou autonomia ao desvincular-se dos Olivais. Uma freguesia recente, mas com características muito singulares. O Mondego é o seu eterno companheiro e, altaneira, a Mata de Vale de Canas assume-se como um espaço de eleição, onde cresce o eucalipto karri, a árvore mais alta da Europa. Mas há muito mais histórias para descobrir em redor da freguesia e uma delas, relacionada com a tradição mineira, deixou “água na boca” aos muitos presentes, a começar pela autarca de Coimbra, que chegou quase no final da sessão, onde nem sequer era esperada.

Ana Abrunhosa apanhou o rescaldo da viagem de João Pinho, que embarcou numa barca serrana e empreendeu uma viagem pela história passada e mais recente. Uma paragem obrigatória pela «área colossal de minas» existente na freguesia. A mais monumental será a mina de Barbadalhos, junto à aldeia de Zorro, que foi explorada por portugueses e alemães. Aliás, o primeiro registo desta mina, em 1882, é feito por um cidadão de nacionalidade germânica que terá casado com uma jovem de Torres do Mondego. A exploração mineira de volfrâmio, cobre, ferro, carvão, grafite e chumbo, entre outros metais, teve os seus anos de ouro durante a II Grande Guerra. Depois decaiu e perdeu-se no esquecimento, muito embora nos anos 60 do século passado tenham sido feitas algumas diligências, de acordo com moradores locais, no sentido de averiguar a viabilidade da exploração, que ficou por ali.

Uma memória, com testemunhos, que levou o historiador a defender a ideia da criação de um Centro de Interpretação das Minas. «É a única freguesia do concelho de Coimbra com tradição de exploração mineira», salientou, apontando os «mais de 100 registos de minas» que encontrou. Uma exposição que motivou uma intervenção entusiasmada de um morador do Zorro, que lembrou as brincadeiras dos seus tempos de criança a descobrir as «colossais galerias, muito bonitas», com «mais de 500 metros» que entretanto foram encerradas.

O antigo presidente da Junta, Paulo Cardoso, confirmou que grande parte das minas se encontram atualmente em terrenos privados e disse mesmo que a autarquia local encetou negociações com vista à sua aquisição, mas os valores revelaram-se incomportáveis para o orçamento. A ideia seria, explicou, com os terrenos em poder da Junta e depois de garantida a necessária limpeza e averiguadas as condições de segurança, criar um circuito de «turismo mineiro» e «mais um ponto de atratividade para a freguesia».

Ana Abrunhosa apanhou a conversa quase no final, mas depressa se entusiasmou com a ideia, assumindo a possibilidade de recorrer a especialistas, do município ou outros, para uma análise rigorosa da situação, certa de que seria uma estrutura importante para Torres do Mondego e para a cidade de Coimbra. «É uma área muito valorizada», sublinhou, lembrando que a exploração de minas faz parte do imaginário de «qualquer criança traquina». A autarca deixou expresso o compromisso de avançar com os necessários «estudos», de molde a averiguar as «condições de segurança e de acesso» e, desta forma, «ir amadurecendo o processo».

Memórias expressas em dois murais

Perfeitamente consolidada está a tradição das lavadeiras de Torres do Mondego, com as suas trouxas à cabeça, primeiro de roupa suja, que iam buscas às “senhoras”, a Coimbra e, depois da barrela, já impecavelmente limpa, pronta a entregar. Uma memória que o artista plástico Bruno Neto interiorizou, procurou perceber e sentir, falando com as últimas herdeiras dessa tradição, as mulheres que eram as “máquinas de lavar” dos tempos passados. Um diálogo vivo que resultou num enorme mural, de cores vivas, atrativas, onde ganham vida mulheres que já partiram e cuja memória se eterniza e outras que atualmente, através do Rancho Rosas do Mondego, dão vida à barrela de antigamente. Aliás, foram várias as lavadeiras que, vestidas a rigor, esperavam a comitiva de autarcas, na Rua da Mata, no Casal da Misarela. Um segundo mural, do mesmo autor, foi inaugurado nas Carvalhosas, este sem visita, que representa um tributo à broa das Carvalhosas e à tradição da apanha da cereja, que fez furor noutros tempos, com Coimbra a exportar cereja das Torres do Mondego. Hoje, resta a memória, que o mural perpetua. Quanto à broa, ainda se vai fazendo. 

Uma obra em aberto

Nuno Carvalho, presidente da Junta de Freguesia, afirmou que a obra “As Torres do Mondego na Barca da História” representa um projeto iniciado pelo anterior executivo, presidido por Paulo Cardoso, visando preservar a identidade cultural, as tradições e a memória coletiva. O antigo autarca local reforçou a ideia, lembrando que «faltava qualquer coisa, o elo de ligação que nos mostrasse as nossas origens». Um trabalho inacabado, em aberto, sublinhou, pois «a ideia é provocar nas pessoas o retorno, com mais histórias», já a pensar numa segunda edição, pois há muitos registos que vão acionar a memória das gentes da freguesia e trazer para o presente esse passado. Exemplificou, a propósito, com as referências a uma antiga fábrica de azulejos e tijolos, relativamente à qual «não foi encontrada qualquer evidência» até ao momento, mas que poderá acontecer. «É uma obra dinâmica, aberta a novos contributos», visando uma segunda edição «mais completa e mais rica». «Uma obra fundamental para que as pessoas percebam que esta povoação existe desde antes da fundação da nacionalidade e é importante que seja valorizada», rematou.

«A salvaguarda da memória coletiva» constitui o objetivo do historiador, que há 25 anos se dedica à investigação da história local e regional, com especial enfoque nos municípios e nas freguesias. João Pinho aproveitou a presença do vereador Ricardo Lino, responsável pelos pelouros das Freguesias e da Cultura, para alertar para a necessidade de um olhar atento aos arquivos das freguesias – e também aos arquivos paroquiais - onde se encontra um espólio fantástico, mas guardado da forma possível, sem os necessários cuidados. Um alerta para a Câmara de Coimbra que, confessou, já fez também à diretora do Arquivo da Universidade.

João Pinho deixou, ainda, alguns dados curiosos desta publicação sobre a freguesia de Torres do Mondego, que exigiram «mais de 500 horas» de trabalho em arquivo e bibliotecas, «50 emails, 100 telefonemas e 150 sms». Uma referência, ainda, para o apoio sempre presente de Mónica, administrativa da Junta de Freguesia. 

Junho 9, 2026 . 08:00

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