
96 anos Diário de Coimbra - Confraria Arroz Doce de Maiorca: Um clássico que conquista corações
Não há festa sem a sua presença. Doce e cremoso, simples e genuíno, o arroz-doce de Maiorca «é único». Uma tradição com história e uma herança que continua viva no seio das famílias, no trabalho das coletividades e a funcionar como elemento estruturante da comunidade.
«É na simplicidade que está a diferença», sublinha Matilde Azevedo, chanceler da Confraria do Arroz Doce de Maiorca, que lembra que, contrariamente ao que acontece na grande maioria das receitas de arroz-doce, este se distingue pelo que não leva. «Não leva manteiga, não leva leite condensado, não leva ovos», sublinha. Trata-se simplesmente de conjugar arroz carolino, leite de vaca, açúcar e limão e, para enfeitar, canela.«Não leva mais nada», destaca. A grande diferença reside no «arroz produzido nos campos de Maiorca» e também no leite, vindo diretamente da ordenha das vacas, também elas residentes na freguesia. Um leite “inteiro”, que «confere toda aquela cremosidade completamente diferente do leite pasteurizado», faz notar.
Claro que o arroz tem um papel central. Um produto genuíno, de origem local, o arroz carolino produzido no Vale do Mondego, nos campos de Maiorca. «Sempre que posso, faço com Ariete», diz a chanceler da Confraria, que enaltece as qualidades desta variedade de arroz carolino. «Sem dúvida é o melhor, porque bebe muito leite», fator essencial na preparação, ao qual se juntam outras características, como o apresentar um «bago grande» e «muito branquinho». Todavia, se este é grande eleito, qualquer outra variedade é bem-vinda, desde que seja carolino e produzido no território.
Em Maiorca, a receita é simples: 1 quilo de arroz carolino requer 8 litros de leite e entre um quilo a 1,200 de açúcar. O açúcar «é a gosto», diz a chanceler, que não gosta do arroz muito doce, «a picar na garganta». Mas a quantidade a usar, mais 200 ou menos 3200 gramas, «depende do leite», explica, pois «o leite no Inverno não é tão intenso como no Verão». Um facto que se prende com a alimentação dos animais, que no tempo frio ficam mais recolhidos no estábulo e comem mais ração, feno e palha, produzindo um leite mais “tranquilo”. Já na Primavera/ Verão, os animais pastam nos campos , comem diferentes espécies de ervas, algumas das quais conferem ao leite uma nota mais “aigra”, com maior acidez, que requer mais açúcar na confeção do arroz-doce.
Se é simples nos ingredientes, exige amor e paciência na confeção. «Não quer pressa», sublinha Matilde Azevedo. São «entre duas a duas horas e meia, menos do que isso não», enfatiza a chanceler. Depois de pronto, é colocado em travessas ou pratos e «deixa-se arrefecer um bocadinho», o que permite que o doce ganhe um certo vidrado, que impede que a canela, usada para decorar, se infiltre.
Um doce de festa associado a causas solidárias
Amor e paciência não faltam às gentes de Maiorca, onde praticamente toda a gente faz arroz doce. «É um prato tradicional, presente em todas as festas, desde casamentos a batizados», diz, e lembra o dito popular local, ”vou a todo o lado, como o arroz-doce” para ilustrar esta presença dominante. Inclusive teve e tem funções como angariador de receitas. No passado, recorda a chanceler, «ajudava a custear a boda do casamento», com os noivos a oferecerem aos convidados uma travessa de arroz-doce. Hoje em dia «praticamente já ninguém, faz isso». Todavia, o arroz-doce de Maiorca continua a alimentar causas, ajudando as mais diversas coletividades e instituições a reunir fundos para dar guarida a projetos e para construir obra.
Aliás, foi depois de muitos tachos de arroz-doce feitos para a angariação de fundos destinados a ajudar a Igreja que Matilde Azevedo, Manuela Alves, Eduarda Borges e Delfim Dias decidiram avançar com a criação da Confraria do Arroz Doce de Maiorca, com o propósito de divulgar, dar a conhecer o caráter único deste arroz-doce e preservar esta tradição de antanho. A constituição oficial aconteceu no dia 20 de maio de 2020.
Confraria e coletividades continuam a fazer arroz-doce a bom ritmo e, independentemente de situações pontuais mais específicas, há um regime de rotatividade instituído no funcionamento de um posto de venda, instalado à beira da antiga estrada nacional Coimbra - Figueira da Foz. Trata-se de um projeto dinamizado pelo anterior executivo da freguesia, que o atual continuou. «É uma boa ideia», considera Matilde Azevedo, que refere as 11 coletividades da freguesia que, em regime de rotatividade, asseguram o funcionamento deste posto de venda, ao sábado, o que lhe permite reunir receitas, importantes para o desenvolvimento dos seus programas e atividades.
Já relativamente aos clientes, numa terra em que todos fazem ou sabem fazer arroz-doce, a chanceler garante que não faltam, sendo sobretudo pessoas “de fora”, da Figueira da Foz, de Quiaios, de Brenha. «Felizmente há sempre muitos clientes. Há pessoas que sabem e até já encomendam e outras passam e param para comprar», explica e garante, ainda, que cada associação tem a sua forma de fazer o arroz-doce. «Ao provar percebe-se a diferença».

“Dia do arroz” e Entronização de confradinha
O arroz-doce é a referência primeira da Confraria, todavia também acarinha este produto endógeno como prato principal. É o Dia do Arroz, que se celebra a 20 de maio. «Servimos um almoço onde não há massa nem batata, só arroz», explica a chanceler. Arroz de feijão e arroz de tomate são os eleitos para acompanhar as pataniscas de bacalhau e os carapauzinhos fritos. A ementa inclui ainda arroz de cabidela. Trata-se de pratos tradicionais, que hoje em dia já não figuram muito à mesa das famílias, mas que continuam a ser particularmente apreciados. Para sobremesa, naturalmente, há arroz-doce.
Os elementos da confraria assumem a preparação dos diferentes pratos, obedecendo aos "comandos” de uma confrade, cozinheira de profissão, e a população adere, seja presencialmente ou em regime de take away. «Temos sempre na casa das 200 pessoas», diz Matilde Azevedo.
A Confraria do Arroz Doce de Maiorca não celebra o capítulo na data do aniversário, em maio, mas a 26 de setembro. Uma decisão que se prende com o facto de em maio não existirem espigas de arroz nos campos de Maiorca, que constituem o adereço fundamental para enfeitar a Igreja, a sede e o espaço onde os confrades se encontram. Este ano, pela primeira vez, vai assistir-se à entronização de uma confradinha, uma criança de 10 anos, filha de um confrade, que o acompanha com bastante frequência e gosta destas experiências. Um novo ciclo que se pretende represente, igualmente, uma porta aberta para uma nova geração de confrades.
Sede continua a ser uma preocupação
O Palácio Conselheiro Lopes Branco, um edifício histórico de Maiorca, acolhe temporariamente a sede da Confraria, no quadro de um protocolo assinado com a Câmara Municipal da Figueira da Foz. Apenas o rés-do-chão oferece condições, pois o primeiro e segundo piso estão bastante degradados e é ali que a Confraria confeciona o arroz-doce e realiza os mais diversos eventos e recebe os convidados. Matilde Azevedo refere, com particular satisfação, a recente visita de uma escola de Penafiel, com 150 alunos, que os confrades receberam o orientaram numa visita aos campos de arroz e a uma fábrica de descasque e embalagem de arroz, a Pinto da Costa, sediada na freguesia.
O facto de se tratar de uma solução provisória preocupa a Direção da confraria. «Sabemos que o dr. Pedro Santana Lopes [presidente da Câmara da Figueira da Foz] quer reabilitar o Palácio Conselheiro Lopes Branco» e, inclusivamente, «já foi publicada a abertura de concurso em Diário da República», adianta. Uma empreitada com preço base de 2,4 milhões de euros que é «importante e necessária», porque se trata de «recuperar o património de Maiorca», defende a chanceler, mas que vai implicar que a Confraria fique “desalojada”. Uma situação que coloca a questão de uma sede própria de novo na agenda da Confraria.
BI:
Traje: A capa verde do traje simboliza os campos do arroz, e a barra preta de veludo evoca o traje domingueiro das mulheres de Maiorca. Refira-se, ainda o bordado, que apresenta a espiga do arroz e o pau de canela. A indumentária inclui um chapéu preto e castanho, inspirado na tradição gandareza, e o escapulário apresenta uma medalha com a réplica das pontes de Maiorca, com uma plantação e arroz debaixo.
Fundação: 20 de maio de 2020
Capítulo: 26 de setembro (anos pares)
Sede: Palácio Conselheiro Lopes Branco
Confrades efetivos: 31
Confrades de honra: 4










