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96 anos Diário de Coimbra - CANFA: A grandiosidade das miudezas

Confraria de Almalaguês está ancorada num dos produtos mais simples e genuínos da gastronomia local e empenhada na valorização do vasto património histórico e tradições da freguesia

No princípio eram 13. O número cresceu, multiplicou-se e provou que nem sempre é sinal de azar. Almalaguês é disso testemunha. Uma quase desconhecida freguesia rural, apesar de situada às portas de Coimbra, tornou-se conhecida e reconhecida pelos melhores “argumentos”. Mas voltemos aos 13. Um grupo de amigos, nascidos em Almalaguês, dispersos pelos mais diversos pontos do país, sempre saudosos da terra natal. Por isso faziam-se à estrada, vindos de Lisboa, Leiria, Porto, Torres Vedras ou Viana do Castelo, e juntavam-se amiúde. Uma tertúlia ou “copustula”, na expressão de António Fachada, com “dois dedos” de conversa, alimentada por uns bons copos e uma grande amizade.«Andámos uns anos nisto», diz.

O ambiente de “explosão” de confrarias a que se assistiu no final da primeira década do século, acabou por tocar o grupo dos 13. «E se fizéssemos uma confraria?» Depressa a decisão foi tomada e os negalhos eleitos como referência. Todavia, não ficaram sozinhos, pois os amigos também foram convidados. Surge, assim, em abril de 2011, a Confraria dos Amigos do Negalho e da Freguesia de Almalaguês (CANFA). Um projeto com o foco centrado na gastronomia e na valorização da cultura, da história e do património da freguesia.

Comecemos pelos negalhos. «É o que nos distingue», diz o cabreiro-mor da Confraria. «Há negalhos em muitos sítios, mas não com esta simplicidade». Em Almalaguês os negalhos são pura e simplesmente de bucho de cabra ou de ovelha e representam o aproveitamento completo das partes menos nobres do animal, uma vez que a carne é usada para a chanfana.
Numa terra de gente humilde, onde tudo se aproveita, o bucho limpa-se bem, com água quente e aguardente e “amacia”, cortado aos bocados, numa marinada, feita à base de limão. Os pedaços são “embrulhados”, fazendo uma espécie de trouxa e devidamente atados para manterem a “compostura”. «Antigamente eram atados com o intestino delgado», tripa, na linguagem do povo, recorda António Fachada. Depois passaram a ser usados “cadilhos” (linha dos teares). «Não pomos nada dos negalhos», sublinha, o que atesta a pobreza da zona. Em Enxofães, na Mealhada «fazem os negalhos com recheio, que leva chouriço, salsa e cebola, mas aqui é tudo mais simples».

“É fácil fazer, dá o seu trabalho! É preciso ter vinho, louro e alho”! Assim reza a melodia. O vinho «é tinto», de Almalaguês, claro está! e os negalhos são colocados em caçoilos de barro, que tanto pode ser vermelho como preto, e levados ao forno. «Seis horas, no mínimo, pois quanto mais tempo estiverem, melhor», afirma António Fachada, que diz que há quem os deixe toda a noite a cozinhar. Todavia, «tecnicamente, com o forno bem quente, ficam prontos em três horas».

Para muitos, os negalhos representam um manjar dos deuses. Outros nem os podem ver. «Ou se ama ou se detesta», reconhece António Fachada. Podem ser consumidos como petisco, entrada ou prato principal, neste caso acompanhados com batata cozida e grelos.

Hoje, com a crescente escassez de caprinos e ovinos, que outrora abundavam na zona de Almalaguês e nos vizinhos territórios de Semide, Miranda do Corvo e Lousã, é necessário «encomendar os buchos», no talho, mas o preço já não tem nada a ver com o acontecia no passado, quando era «um produto muito desvalorizado», comprado a uma média de dois euros. Hoje está a 8 ou 9 euros.

 

Promover a cultura e as tradições locais

Os negalhos identificam a confraria, mas não são mais do que um pretexto para promover as tradições, a cultura, a história e a identidade da freguesia. «Não podíamos ficar limitados à gastronomia», afirma o cabreiro-mor. Os teares e as tecedeiras de Almalaguês estão na primeira linha e esta tradição ancestral, provavelmente uma herança dos povos árabes, está bem expressa na capa que os confrades usam. Trata-se de replicar o traje do camponês, com botas de trabalho, calça de sarja castanha, camisa branca de linho – antigamente, lembra António Fachada, a freguesia era um grande centro produtor de linho, hoje já não é assim, mas é ainda uma costureira local, Maria Preciosa Fachada, mãe do cabreiro-mor, que procede à confeção das camisas – e a original capa.

Trata-se do chamado saco de picotilho, um saco multiusos, feito em lã, que permite transportar os produtos da terra, designadamente hortaliças, e também protege o utilizador da chuva, do vento, do frio e até do calor. São quatro metros de tecido, feito nos teares de Almalaguês.

As tecedeiras alinham no desafio e já produzem artigos com referência à Confraria e aos eventos que promove e também aderiram, já este ano, ao concurso para a elaboração do estandarte, um elemento identificativo que só a partir de agora vai acompanhar os confrades nas suas deslocações e eventos.

O vinho, a geropiga e a aguardente de produção local também são integrados no plano de atividades da CANFA, com concursos, provas, ou a rota das adegas, que faz questão de dinamizar as suas iniciativas em todo o território, que tem mais de duas dezenas de localidades. «Temos confrades de quase todos os lugares da freguesia», afirma o responsável.

Original sob diversos pontos de vista, a CANFA tem ainda particularidade de não convidar ninguém para integrar a “família”. «Quem quiser ser confrade, vem ter connosco», diz o cabreiro-mor. Um desejo que tem de ter uma expressão objetiva, além da vontade. «Tem que oferecer à Confraria alguma coisa», diz António Fachada. Pode ser algo relacionado com a sua infância, uma canção ou um poema, como já aconteceu. Depois, é necessário que aprendam a fazer negalhos. «Até podem não gostar, mas têm que saber fazer», sublinha. Outra prova, no dia da entronização, “obriga” os aspirantes a confrades a puxarem uma carroça de bois, onde é transportada a dorna, elemento de referência na tradição vitivinícola local.

«Os padrinhos ajudam», esclarece. Já no juramento bebem água da Fonte do Calvo, um espaço icónico da sede de freguesia. Usam uma taça de barro, que simbolicamente é lançada para dentro da dorna e partida.

 

Encontro de gaiteiros

A assumida vocação cultural e a vontade de projetar o nome de Almalaguês está bem expresso no encontro de gaiteiros, evento hoje com uma dinâmica nacional e internacional. Um projeto que arrancou em 2014, fazendo jus à tradição da freguesia. «Sempre houve gaiteiros em Almalaguês», lembra António Fachada, que refere, a propósito, a estátua erguida na freguesia.

Grupos de gaiteiros com caraterísticas muito próprias, com gaita de foles, caixa e bombo. Sempre com o propósito de enaltecer a distinguir as pessoas das terra, a CANFA empenhou-se em homenagear os primeiros gaiteiros e os seus herdeiros, já com idade avançada - Álvaro Fachada, Carlos Carreira e Eduardo Simões. Um evento que juntou outros gaiteiros, inclusive com alguns elementos da CANFA , como Artur Santos, um dos 13 pioneiros, professor de Geografia, a aprender a tocar gaita de foles. As festas dedicadas ao Mártir S. Sebastião foram a oportunidade certa para esta homenagem, pois os gaiteiros sempre foram presença obrigatória nas festividades. Nascia, assim, o primeiro encontro de gaiteiros de Almalaguês (EGA), evento que hoje em dia reúne muitas dezenas de gaiteiros, provenientes de todos os cantos do país, da vizinha Espanha e também da Escócia e atrai milhares de pessoas.

O EGA «ganhou uma dimensão muito bonita», diz António Fachada, lembrando os «quase 300 gaiteiros» que marcaram presença no último encontro, em janeiro. Os músicos aderem ao desafio e espalham a sua música e a sua alegria pela ruas da localidade. E «os moradores adoram». «Abrem as suas casas, as adegas» aos visitantes, oferecendo-lhes de comer e de beber.

O encontro, que nas últimas edições tem envolvido um “abraço” à cidade de Coimbra, inclui, além do desfile, um vasto programa de atividades, com mais de duas dezenas de propostas, que incluem workshops, concertos, provas de gastronomia, arruadas, exposições, mostra de tecelagem, entre outros eventos, sendo já um «grande evento a nível nacional».

 

P3 Gaiteiras

Projetos em carteira e procura de casa

A paixão pela terra natal e o desejo de elevar o nome de Almalaguês, leva a CANFA a dinamizar outros projetos, alguns ainda em fase de maturação. Exemplo disso é uma peregrinação a Santiago de Compostela. «Estamos a pensar», diz António Fachada, que lembra que Santiago é o padroeiro de Almalaguês. A viagem poderá incluir etapas a pé, entremeadas com percursos feitos de autocarro. «Vamos ver», adianta. As semelhanças com a cultura galega, a própria origem da designação do território e a herança árabe que lhe está inerente, representam mais um desafio e «mais temas para trabalharmos». Mais concreto, embora sem horizonte temporal, está uma possível criação de caprinos e ovinos. Mais uma vez trata-se de recuperar a tradição de outros tempos, agora com objetivos renovados, nomeadamente no que se refere à questão da limpeza dos terrenos, cada vez mais necessária e difícil de acautelar. Isto já para não falar na carne e no bucho que representam.

Ainda sem sede própria, a CANFA usa um espaço emprestado pela Junta de Freguesia, mas acredita que a situação possa ter uma solução a breve trecho. António Fachada refere a existência da Capela de Santiago, abandonada há muito, onde «seria interessante criar um espaço cultural», à semelhança do que já aconteceu com outros templos antigos, em vários pontos do país. Aguarda-se, pois, resposta por parte da Diocese, uma vez que a capela lhe pertence.
Este templo antigo poderá ser uma solução, mas independentemente disso, CANFA e Junta de Freguesia estão a tentar encontrar um espaço para instalar a Confraria e, particularmente, para acolher o espólio, já com algum significado, resultado das doações feitas pelos aspirantes a confrades. «É um espólio oferecido com muito amor e que queremos preservar», mas que atualmente está simplesmente recolhido num armazém.

BI: 

Traje: Baseia-se no traje do camponês e destaca-se pela capa, o saco de picotilho”, feito em lã, no teartes de Almaguês, com 4 metros
Sede: Almalaguês
Capítulo: Abril – primeiro fim de semana após a Páscoa
Fundação: 2011
Totem: Cabeça de cabra esculpida, criada pelo artista Vítor Costa
Confrades efetivos: 39
Confrades de honra: 11
Mérito: 7
Medalha: cabeça de cabra, dobadoira (referência à tecelagem), vieira (símbolo de Santiago), cacho de uvas e caçoilo com negalhos

Junho 4, 2026 . 20:15

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