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Marcha do Vapor

Junho 3, 2026 . 13:45
O tempo foi passando, mas a beleza singela da Marcha do Vapor inebriou, resistiu e intensificou-se aqui e além

O trecho é antigo, foi marcha-hino de um rancho e pela sua beleza melódica e mérito atingiu o estatuto de hino da Figueira! A Marcha do Vapor, composta no início do século XX, é de autoria musical de Manuel Dias Soares (1867-1938), regente da “Dez d’ Agosto” e profissional de joalharia na área da gravação, e contém palavras inspiradas do poeta figueirense António Pereira Correia (1860-1929). Esta obra musical insere-se num contexto estilístico fortemente influenciado pela música de cariz filarmónico, embora tenha sido composta para hino do então “Rancho do Vapor” – agrupamento de folclore estilizado singular, citadino, com coreografias específicas para salão, onde o azul e branco exaltavam, à guisa de homenagem, as fardas dos marinheiros.
A Marcha do Vapor acaba por ser uma prova viva de uma época de expansão para a marcação binária e chega aos dias de hoje como hino da cidade da Figueira da Foz, para além de vincar, de forma indelével, um sentir universal e raro de amor bairrista.
Sob o ponto de vista formal, com padrões de uma marcha de rua, transporta em si própria a possibilidade de ser cantada, pois foi composta com letra. Leve, inspirada melodicamente, simples, com o poder de penetrar no ouvido e construída de forma intuitiva, apresenta-se com padrões harmónicos do contexto musical da época, ou seja com encadeamentos muito básicos, sem modulações ou cromatismos. O escritor Carlos Sombrio, pseudónimo literário de António Augusto Esteves, exaltou-a ao lembrar que foi composta em 1907.
O tempo foi passando, mas a beleza singela da Marcha do Vapor inebriou, resistiu e intensificou-se aqui e além, até integrando repertórios de bandas militares. Em 1935, no primeiro dia do mês de S. João, realiza-se uma festa de louvor ao tema e aos inspirados autores.
O Rancho do Vapor – reconstituído para a homenagem - saiu da sua sede, na Rua da Clemência (primeiro andar onde residiu António Godinho), e passou pela casa de Dias Soares, entre as ruas “Dez D’ Agosto” e “da República”, mas este já estava acamado e não pôde estar presente na festa. O evento encheu o então salão de Inverno do Grande Casino Peninsular. Nicolau Borges, Celeste Bento Pessoa, Maria Esteves, Maria Bugalho, Irene Coronel, Fausto Caniceiro, entre outros, eram alguns dos jovens protagonistas e integrantes do rancho.
No ano de 1954, João Rocha, o pioneiro da rádio por cabo na Figueira (emissão que inundava a praia e esplanadas de música e informação, com a “Cabina de Som” estacionada no Posto de Turismo), consegue que a editora Valentim de Carvalho produzisse um disco para a etiqueta His Master Voice, com arranjos e direção de orquestra do maestro João Nobre e voz de Maria Clara. O single apresentava a Marcha do Vapor num lado e a "Canção da Figueira" (Nóbrega e Sousa / Sousa Freitas) no outro. O Rancho já não existia, mas o disco saiu para o mercado. A partir de então popularizou-se ainda mais, identificava a terra e, na então Emissora Nacional, é divulgado de forma intensa.
Alguns anos mais tarde, no Jardim Municipal, é erguido um pequeno monumento que exalta esta composição musical. O tema que ao longo dos anos teve várias versões e adaptações de apurado gosto, é hoje a mais emblemática música do sentir figueirense.

Junho 3, 2026 . 13:45

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