
96 anos Diário de Coimbra - Confraria da Geropiga: Um brinde à partilha e à amizade
Faz parte da história e das tradições das comunidades rurais. As mesmas uvas com que se faz o vinho, igualmente pisadas, são a base. Depois, basta juntar aguardente ao mosto, numa percentagem de três para um. A fermentação acaba, o doce mantém-se e nasce a dourada geropiga. «Era o licoroso dos pobres», afirma o grão-mestre da Confraria dos Amigos da Geropiga dos Moinhos e Arredores. «As famílias que não tinham possibilidade de ter um vinho do Porto ou outros licores recorriam à geropiga, bebida que usavam em qualquer momento de celebração e confraternização».
E foi precisamente em ambiente de festa, na aldeia dos Moinhos (Miranda do Corvo), que surgiu a ideia de criar a Confraria. O Grupo Desportivo local jogou em casa e a vitória representou a subida de divisão. Havia, pois, razões de sobra para festejar e foi isso que aconteceu, com os convivas a celebrarem de adega em adega. Com vinho e com geropiga, naturalmente. Mas um ligeiro percalço toldou as comemorações, quando uns saltos mais endiabrados atingiram o garrafão onde Francisco Cancela guardava uma preciosa geropiga, com muitos anos e reservada para ocasiões super especiais. Partiu-se o recipiente e perdeu-se a bebida, mas nasceu uma alma nova para a tradicional geropiga, conta Filipe Rosa.
Com efeito, o estilhaçar do garrafão e a perda da bebida fizeram os participantes parar e pensar, logo ali, na necessidade de preservar esta cultura tradicional, de celebração, de festa, de partilha e de amizade que uma garrafa de geropiga representa. Vivia-se o ano de 2002. A ideia começou a fermentar, ganhou terreno e consistência e em 2005 assistia-se à constituição da Confraria, com a escritura assinada por 12 fundadores. Um pequeno passo que agigantou um produto que a Confraria leva a todos os recantos do país e além fronteiras, conferindo «grandiosidade» a uma bebida simples e enaltecendo esse dom de dar e receber.
Uma bebida feita com os produtos da casa. As uvas que crescem na vinha e permitem fazer o vinho e a aguardente que sobrou do ano transato. «É importante uma boa aguardente e uma boa uva», sublinha Filipe Rosa. As preferências vão para a Fernão Pires, uma casta branca, muito doce, explica. Já sobre a percentagem de mosto e aguardente, a receita de três para um «precisa de ser afinada», tendo em conta o «teor alcoólico da aguardente, por um lado, e por outro, a doçura das uvas». Bate-se bem a mistura, deixa-
-se a repousar uns dias e fica pronta. Por altura do S. Martinho prova-se o vinho novo e, naturalmente, a geropiga. Uma bebida que casa bem com a castanha e por isso é convidada de honra em todos os magustos, sem falar na Páscoa ou no Natal, nos casamentos, a fechar as tibornadas, no lagar, ou outras festas. «Em qualquer momento importante cai sempre bem», refere o grão-mestre.
Celebrar e inspirar a festa

Concebida para celebrar, a geropiga é também motivo de festa, no entender da Confraria. Festa que pode começar na vinha, quando as uvas maduras, douradas pelo sol, convidam à vindima. Convite que, na última, juntou uma centena de pessoas, com mais de três dezenas a deslocarem-se do norte do país com o propósito de participar na festa. «Mais importante que a geropiga é a confraternização», salienta o grão-mestre, para quem a bebida é, sobretudo, «um pretexto» para esses momentos de partilha e sã camaradagem.
A vindima é feita na primeira ou segunda semana de setembro e tem a preocupação de contar com a presença de crianças e jovens, filhos ou netos de confrades e amigos numa partilha de saberes, de dar a conhecer estas tradições cuja origem se perde na memória dos tempos. Após a colheita, as uvas são pisadas numa dorna, com os pés, como antigamente. Tradições que perduram à mesa, com o pequeno almoço a cumprir os requisitos das vindimas do passado, com os carapauzinhos fritos e as sardinhas, as cabeças de carapau, ovos mexidos, bifanas, presunto, queijos e enchidos. A receita aplica-se igualmente ao almoço, com uma lauta feijoada. Durante a vindima não falta a música, com o toque da concertina a animar a malta.
Naturalmente, a vindima é o momento alto vivido na vinha, que a Confraria plantou em 2017/18. Os terrenos foram oferecidos por dois confrades e, num capítulo, foi lançado um apelo para ajudar a comprar as videiras. «Os confrades plantaram as videiras e fazem toda a manutenção da vinha», refere o grão-mestre. Trata-se da Vinha da Amizade, onde «mesmo as pessoas que nunca pegaram numa vide podem ajudar a fazer qualquer coisa», sempre num ambiente de confraternização, de festa e de celebração da amizade, que naturalmente termina sempre à mesa.
A Confraria não produz quantidades significativas de geropiga. Todavia, além da vinha que possui, vai buscar uvas aos arredores - porque «somos Confraria dos Moinhos e Arredores», lembra – nomeadamente a Almalaguês, Lamas, Chão de Lamas e Monforte, criando um «espírito agregador» em torno da geropiga, que envolve as aldeias da região.
Projetos não faltam, com este mesmo espírito agregador, comunitário, de partilha e de celebração. «Adquirimos uma casa, que vamos recuperar», afirma. No terreno envolvente pretende-se, no futuro, plantar uma vinha e, depois, «convidar outras confrarias a deslocarem--se aos Moinhos e a levarem consigo as suas crianças para, em segurança, participarem na vindima e na confeção da geropiga». No mesmo terreno, a Confraria pretende plantar carqueja, alecrim e outras ervas tradicionais, usadas como temperos, dando oportunidade aos mais novos de conhecerem esta realidade.
Dinâmica nacional e fora de portas

«Temos uma dinâmica nacional e internacional muito significativa», afirma, orgulhoso o grão-mestre, que refere a participação na ExpoMiranda, na Feira da Castanha da Lousã e noutros certames realizados nos mais diversos pontos do país. «Já chegámos a estar no aeroporto de Lisboa a oferecer geropiga a quem chegava», receita que a Confraria replicou noutros locais, em Lisboa, em Albufeira e em Espanha. Única foi a experiência realizada na Suíça, onde está radicada uma confreira. Cerca de três dezenas de confrades partiram dos Moinhos para esta jornada de confraternização, que juntou num magusto cerca de 400 pessoas, com portugueses a deslocarem--se de outros países, nomeadamente de França e da Alemanha, para se juntarem a esta grande festa, onde, naturalmente, não faltou a geropiga.
«A jeropiga é um pretexto para muito mais do que a geropiga. É um momento de cultura partilhada, de amizade, de confraternização», sublinha o grão-mestre.
Particularidades identitárias
A Confraria tem algumas particularidade curiosas, designadamente o facto de não convidar ninguém a aderir, mas serem os interessados que devem manifestar esse desejo e essa vontade. A proposta é formalizada e é analisada em reunião da Direção (Cura Báquica) e depois submetida à apreciação dos Fundadores, que têm a última palavra. Se a decisão for favorável, a entronização é feita no capítulo, que habitualmente decorre na última semana de março. Além de jurarem promover e defender a geropiga, a promessa inclui a defesa da cultura e do artesanato e «ser solidário com todo o nosso semelhante como foi S. Tiago, nosso padroeiro».
Outra curiosidade é o facto de os confrades serem agrupados em grupos de três, numa ordem numérica, que define, naturalmente, a “escala de serviço” a cumprir nas visitas às restantes confrarias, por ocasião dos respetivos capítulos. «Podem ir mais confrades, mas aquele é o “núcleo duro”», refere o grão-mestre, que destaca o trabalho de equipa desta grande família, sempre pronta para qualquer desafio.
A Confraria dos Moinhos e Arredores integra a Federação das Confrarias Báquicas e também o Conselho Europeu de Confrarias (CEUCO) e nesta última qualidade está envolvida na organização do Congresso Europeu de Confrarias Enogastronómicas, a realizar em Lisboa, entre 27 e 29 de novembro. O evento foi apresentado oficialmente este mês em Coimbra, num convite reforçado à participação ativa e ao envolvimento das confrarias nacionais naquele que é considerado um «grande momento da enogastronomia europeia».
O objetivo é «envolvermos as confrarias portuguesas e os seus produtos, desde a doçaria, à gastronomia e aos vinhos», explica Filipe Rosa, que entende como positiva igualmente a participação de confrarias culturais neste momento singular que vai envolver «cerca de 800 confrades de sete países», sublinha.
BI:
Fundação: Agosto de 2005
Capítulo: última semana de março
Sede: Moinhos
Confrades: 110 (todos efetivos)
Padrinhos: Confraria da Cabra Velha
Traje: Capa negra debruada com fita cor-de-vinho, chapéu preto de aba larga, com fita cor-de vinho. O grão-mestre usa o cajado, com a cabaça e concha, símbolos de S. Tiago, padroeiro
da Confraria
Escapulário: amarelo torrado e cor-de-vinho, de onde pende a tambuladeira de metal, usada para provar a geropiga
Estandarte: em fundo branco, apresenta um moinho, cacho de uvas, o sol, um círculo azul (representa a terra) e uma parra com sete folhas, a referência Confraria da Geropiga – Moinhos, Miranda do Corvo e as iniciais CAGMA











