
Recriação do Cortejo do Imperador mantém viva a história do povo de Eiras
“Ide e defendei o povo de Eiras que é essa a vossa missão”. Foi com esta frase que o pároco de Eiras e São Paulo de Frades, no final da missa dominical na Igreja Matriz deu o mote para mais uma edição do Cortejo do Imperador, recriação histórica que o povo faz questão de manter há muitos, muitos anos.
Ainda não eram dez da manhã, e já havia quem estivesse sentado nos bancos instalados no Terreiro da Fonte à espera da Coroação do Imperador, papel que voltou a ser interpretado por Bernardo Estanqueiro. O momento não se fez esperar, com o preso (Rui Francisco) a ser libertado «em honra do Espírito Santo» ao mesmo tempo que foi libertado um par de pombas brancas ao som das palmas de todos os presentes. Depois foi tempo de o cortejo se organizar, com as charretes, os cavalos e os vários grupos participantes: a Marcha Popular de Eiras, o Grupo Etnográfico do Brinca, o Grupo Folclórico e Etnográfico de Cova do Ouro e Serra da Rocha e o Grupo de Gaiteiros Amigos do Mondego a quem coube anunciar a passagem do Imperador ao longo de todo o percurso até Santo António dos Olivais.
Esta que é uma tradição bem enraizada na freguesia, mobiliza elementos de todas as idades dos grupos etnográficos, envergando as vestes típicas. São trajes pesados que, em dias de maior calor, custam a suportar. Porém, a manhã fresca de domingo acabou por ser um incentivo para todos os que aceitaram o desafio de fazer vários quilómetros a pé.
«É um gosto para nós estarmos aqui presentes», contribuindo para «passar às gerações vindouras o que se fazia outrora», afirmou Otília Vaz, representante do Grupo Folclórico e Etnográfico de Cova do Ouro e Serra da Rocha. Também Virgínia Gomes, coordenadora do Grupo Etnográfico do Brinca, reconheceu a importância de se continuar a recriar este momento histórico que decorreu ao longo de todo o dia. «É uma recriação que remonta aos anos 90 e que tem muito a ver com o pagamento de promessas», começou por dizer à reportagem do Diário de Coimbra, recordando, muito rapidamente, que há uns anos «houve uma peste», em 1569, que devastou Eiras, levando as pessoas de então a prometerem que se ela terminasse elegeriam alguém do povo», um homem bom da terra, para, no papel de Imperador, integrar um cortejo até ao Mosteiro de Celas, onde iria entregar os préstitos, sempre em ambiente de festa.
Que se saiba, esta festa foi realizada continuamente até 1832, altura em que terá sido extinta, porém recuperada há alguns anos, com a União de Freguesias (UF) de Eiras e São Paulo de Frades a assumir essa missão, com o apoio de entidades locais e da população. «É uma tradição viva que conta com a importante participação das pessoas da freguesia, numa constante renovação», referiu Luís Correia, com o presidente da UF a adiantar que «internamente o executivo tem vindo a discutir melhorias» no sentido de dignificar ainda mais o Cortejo do Imperador, que tem uma clara ligação ao Espírito Santo - que «também é de Eiras» - e ao Mosteiro de Celas, cuja relação é importante para que «esta romaria continue viva no coração de todos».











