Vínculos descartáveis
Já lemos centenas de artigos sobre o caso. Já ouvimos psiquiatras, juristas, comentadores da manhã e da tarde, vizinhos, amigos, opiniões de café. Já sabemos o nome da mãe, a profissão do padrasto, a matrícula do carro, o percurso entre Colmar e Fátima. O caso das duas crianças francesas abandonadas entre Alcácer do Sal e a Comporta já foi explicado, dissecado e indignado em todos os tons possíveis. Não venho juntar mais um.
Venho propor que olhemos para o que fica depois da indignação passar. Porque ela passa sempre. E o que fica costuma ser mais revelador do que aquilo que sentimos no primeiro dia.
Duas crianças de três e cinco anos foram deixadas numa zona isolada, com uma mochila, comida, água e uma muda de roupa. Como se o abandono pudesse ser organizado logisticamente. A notícia chocou-nos, e ainda bem. Há acontecimentos que devem continuar a chocar-nos.
Mas a determinada altura impõe-se a pergunta incómoda: não será esta história a versão extrema de uma realidade muito mais quotidiana? Rotineira até?
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