
A apoteótica receção aos conquistadores da primeira Taça de Portugal
Numa das mais gloriosas páginas da sua história, a Académica trouxe em 1939 para Coimbra o primeiro troféu da Taça de Portugal, “prova rainha” do futebol nacional que, nessa temporada desportiva, sucedeu à competição do Campeonato de Portugal, organizado pela federação entre 1922 e 1938.
Na tarde de 25 de junho, domingo, cerca 30 mil espectadores vibraram no Campo das Salésias com a empolgante final em que os estudantes venceram o Benfica por 4-3, com golos de Bernardo Pimenta, Alberto Gomes e Arnaldo Carneiro (dois). A festa fez-se logo ali, em Lisboa, com os numerosos adeptos que não faltaram no apoio à equipa, mas no dia seguinte a receção de Coimbra aos heróis da Taça viria a ser apoteótica.
O Diário de Coimbra, que já na semana anterior destacara a vitória da Académica sobre o Sporting (por 5-2) no Campo de Santa Cruz, apurando-se como finalista da Taça de Portugal, relatou detalhadamente o jogo e os entusiásticos festejos que se sucederam à conquista da nova competição.
Do onze de Coimbra, que entrou em campo «envergando a tradicional capa», faziam parte Tibério, José Maria, César Machado, Portugal, Carlos Silva, Octaviano, Manuel da Costa, Gomes, Carneiro, Nini e Pimenta. A equipa «sentiu-se tão confiante e animada como no Campo de Santa Cruz, de todos os lados surgindo capas negras e o seu caraterístico grito de incitamento», anotou o repórter do jornal, antes de descrever e comentar os lances do jogo.
Terminado o encontro, a multidão, «doida de entusiasmo, invadiu o “tapete verde” levando os conimbricenses em triunfo, como fizeram em Santa Cruz no último domingo», lia-se na edição de segunda-feira.
Nessa noite, em Lisboa, os jogadores da Académica e vários simpatizantes confraternizaram num banquete no Hotel Bragança e foram recebidos na Casa de Coimbra com «um animado baile em honra dos campeões», enquanto uma «compacta multidão de estudantes e civis, empunhando bandeiras com as cores da Associação Académica, invadia por completo a parte baixa da capital, soltando calorosas aclamações à turma vencedora, em meio dum entusiasmo indescritível».
Em Coimbra, quem não foi a Lisboa escutou com «louco entusiasmo as últimas palavras da Emissora Nacional relatando o grande jogo que os estudantes fizeram contra os benfiquistas». «Quando o resultado final foi conhecido, milhares de pessoas, estudantes e não estudantes, organizaram manifestações em todas as ruas, vitoriando os novos campeões de Portugal. À nossa redação vieram inúmeros grupos de manifestantes, que às portas do Diário de Coimbra deram largas à sua comunicativa alegria. Os clubes locais colocaram bandeiras nas sedes. A torre da Universidade e a Câmara Municipal iluminaram as suas fachadas. E pela noite adiante as manifestações prosseguiram, num justificado motivo de orgulho pela turma escolar», registou o jornal.
Na tarde de segunda-feira, os atletas eram aguardados em Coimbra por milhares de pessoas. Muitos anteciparam-se e foram esperá-los a Condeixa, onde a Câmara Municipal promoveu uma sessão de boas-vindas, sendo depois organizado «um cortejo monstro, com mais de 500 automóveis».
Já em Coimbra, «desde o alto da Estrada de Lisboa, no Vale do Inferno, até à sede da Académica, por todo esse longo trajeto as aclamações não mais paravam vitoriando os jogadores». «Teve foros de autêntica apoteose a chegada a esta cidade dos valorosos jogadores que constituem o grupo de honra da Associação Académica, que no último domingo tão justa e brilhantemente conquistaram a primeira Taça de Portugal. Nunca nesta cidade, em casos que se prendessem com qualquer ramo desportivo, se assistiu a uma manifestação tão grandiosa», escreveu o jornal.
O repórter calculou em mais de 40 mil pessoas a multidão que se comprimia entre o Largo Miguel Bombarda (Portagem) e a Praça 8 de Maio, numa «manifestação colossal», enquanto «os jogadores, de pé, em duas camionetas, correspondiam, emocionadíssimos, aos vivas e palmas que lhes eram endereçadas». Duas bandas de música, a da PSP e a Arganilense (que «veio expressamente assistir à receção»), acompanharam o cortejo formado por «centenas de automóveis», bombeiros e representantes das associações, rumo à Câmara Municipal.
No Salão Nobre era tal «a aglomeração de povo» que «foi impossível constituir-se mesa» e os representantes da Câmara, da Associação Académica, da Associação de Futebol local e da Reitoria da Universidade tiveram de discursar «de cima de cadeiras». «A assistência exigiu que os jogadores se mostrassem. Falou nessa altura o capitão do grupo, sr. José Maria Antunes, tendo os restantes jogadores, acompanhados pelo seu treinador, sr. Albano Paulo, subido a uma mesa. As ovações foram fantásticas. Depois o cortejo seguiu em direção à Associação Académica, sempre acompanhado por milhares de pessoas», rematou o jornalista do Diário de Coimbra.

Setenta e três anos depois de vencer a primeira Taça de Portugal, a Académica voltou a ganhar o troféu em 2012
Uma mensagem de felicitações caída dos céus...
Pilotado pelo alferes aviador Manuel Portugal, antigo jogador e irmão do médio da Académica Alexandre Portugal, um avião militar «descreveu durante algum tempo círculos sobre a Universidade», por volta do meio-dia de 26 de junho de 1939, dirigindo-se depois para os lados de Celas. «Na volta, e com o motor quase parado, roçou as arvores do Jardim da Sereia, deixando ali cair no meio do campo de jogos dos estudantes uma mensagem, envolta numa bandeira com o emblema da Académica no centro. A mensagem dizia assim: “Académica!!! Onze abraços de parabéns para vós, que tão bem conquistaram a Taça de Portugal», divulgou o jornal na edição de 27 de junho.
(Pode ler hoje esta e outras histórias e curiosidades na edição impressa do Diário de Coimbra. No nosso site estão também disponíveis mais de três centenas de páginas de memórias dos primeiros anos do jornal)












