
Um dia com o pastor pelo meio da serra ao ritmo de rebanho de 100 cabras
Há a Barbie, a Célia ou a Mimi e são apenas três das mais de 100 cabras da raça autóctone Serrana-Ribatejana do rebanho do Capril da Serra, em São Miguel de Poiares. Os irmãos Rui Feteira e João Paulo Feteira são os pastores que cuidam delas e sabem de cor as características de cada uma e até distinguem as que são mais gulosas.
Recentemente, um grupo de pessoas de todas as idades aceitou o desafio e foi passar “Um dia com o pastor”, entre montes e vales, sem pressas e com múltiplas descobertas pelo caminho. Com apenas 8 anos, o Zé, de Ribeira de Frades, era um dos mais entusiasmados e também ele se transformou num pastor de “palmo e meio” numa aventura que promete não esquecer. E que dizer do Artur, a caminho dos 2 anos e que caminha pelo meio do rebanho em total segurança (claro está com supervisão)?
Rui Feteira é o pastor de serviço. De cajado em punho, vai chamando o rebanho, com recurso a uma garrafa de plástico com ração que guarda no bolso e vai abanando. É um dos segredos para chamar o rebanho, mas, garante, «se for preciso, as cabras regressam sozinhas». «O único problema que pode haver é o nevoeiro ou a orvalhada», conta.
Aos 67 anos, Rui Feteira está a um passo da reforma, mas, enquanto ainda se mantém ao serviço da Junta de Freguesia de São Miguel de Poiares, coloca dedicação máxima no cuidado do rebanho e no pastoreio pela serra. Quem o vê junto das cabras, facilmente, pode pensar que Rui foi pastor toda a vida, mas não.

Como funcionário da Junta de Freguesia, fazia todo o tipo de serviços, até que nasceu o projeto do Capril da Serra, instalado em espaço dos Baldios de São Miguel de Poiares, e que, para além de possibilitar o restauro do ecossistema, reduz a vegetação combustível, tornando-a mais resiliente aos incêndios.
O que era para ser um trabalho temporário, porque «não havia ninguém» para tratar do rebanho, tornou-se a missão de Rui. «A vida de pastor é monótona, mas, ao mesmo tempo, é um alívio de cabeça, uma paz», revela, com uma certeza: «Hoje em dia, não era capaz de comer um cabrito daqui, nem uma cabra. É como se fossem pessoas», salienta, dando conta do afeto que foi criando com animais com quem passa horas e horas pela Serra do Bidueiro até à Serra do Alveite.
Bárbara Rodrigues, presidente da Junta de Freguesia, destaca as diferentes valências do projeto, desde a ambiental, passando pela social, cultural e até territorial em plena “Capital Universal da Chanfana”.
Divulgar à população o que são os baldios e a importância que representam é também uma das mais-valias do projeto, salienta Tiago Farinha, presidente da Comunidade Local de Baldios de São Miguel de Poiares, certo de que «o desenvolvimento do interior passa pela valorização de iniciativas como esta».
Recém-chegada a Portugal, Carlota Houart, natural de Coimbra e a residir na zona de Serpins, aceitou o desafio e também fez questão de passar “Um dia com o pastor”, ainda para mais «o sr. Rui tem tanta sabedoria para partilhar». Defensora de projetos que privilegiam a gestão e ordenamento do território e que valorizam a comunidade, dificilmente teria encontrado melhor programa para um domingo de sol em pleno contacto com a natureza.

Padrinhos orgulhos: “A minha afilhada é uma cabra”
A expressão “A minha afilhada é uma cabra” nada tem de ofensivo, antes pelo contrário. Representa o orgulho de apadrinhar uma das cabras do rebanho do Capril da Serra e contribuir para preservar e valorizar a raça Serrana-Ribatejana, ao mesmo tempo que ajuda a promover um projeto que tem como objetivo também diminuir o risco de incêndio, através do pastoreio.
Também a atividade “Um dia com o pastor” é uma forma de financiar o projeto, com a possibilidade de realizar o ateliê de fabrico e consumo de queijo, numa parceria com o “Planeta Aquarela”, projeto de educação ambiental para crianças e famílias.












