Deus na teologia silenciosa das mães
Nem toda a teologia precisa de longos tratados ou de definições dogmáticas.
A teologia silenciosa das mães escreve-se sem tinta.
Nela, Deus não se afirma por conceitos, mas por gestos — mínimos, repetidos, quase invisíveis — que sustentam a vida quando tudo o resto parece vacilar.
Se a Revelação é, em última instância, a auto-comunicação de Deus que ama, então a maternidade é uma das suas mais belas parábolas.
Em 1978, naqueles poucos dias de pontificado, o Papa João Paulo I afirmou, inspirado na profecia de Isaías: “somos objecto, da parte de Deus, dum amor que não se apaga.
Sabemos que tem os olhos sempre abertos para nos ver, mesmo quando parece que é de noite. Ele é Papá; mais ainda, é mãe.”
Ser mãe não é apenas cooperar com a natureza no plano biológico; é participar, de modo íntimo e constante, na lógica divina do amor que gera, que acompanha e não desiste. Há, nesse vínculo, uma semelhança discreta com o modo como Deus se relaciona connosco: não pela imposição, mas pela presença fiel; não pelo domínio, mas pela entrega paciente.
Habituados hoje a pensar Deus em categorias ligadas ao poder, a experiência materna propõe-nos uma inversão paradoxalmente escandalosa: a omnipotência como vulnerabilidade.
A mãe que vela, que espera, que sofre em silêncio, encarna — ainda que imperfeitamente — essa ‘kenosis’ divina, esse esvaziamento de si mesmo que a tradição cristã reconhece em Jesus, como revelação da identidade mais profunda de Deus.
Para continuar a ler este artigo
nosso assinante:
assinante:








