
Na Linha SOS Estudante um “silêncio” ensina muito
A saúde mental tornou-se mediática e ancorou-se na mente de todos desde 2020, com a “passagem” da pandemia de Covid-19. É um dos temas que mais tração tem ganho nos últimos anos, mas há 29 que um conjunto de estudantes pensou nele e desenvolveu a Linha SOS Estudante. Através de um atendimento contínuo, diário, entre as 20h00 e a 01h00, os voluntários ajudam tanto academia como comunidade a passar por momentos difíceis e a encaminhar cada situação para o seu “porto seguro”.
É através do anonimato que se garante que a identidade de todos está protegida, neste caso, tanto de quem efetua as chamadas como de quem as atende. Rita Neves é a presidente da linha de apoio emocional e retrata um panorama que integra dos mais novos aos mais velhos no que toca a pedidos de ajuda.
«Em 2025 recebemos 1.420 chamadas das quais cerca de 80% vieram do sexo masculino. Temos trabalhado para fazer o reencaminhamento para as entidades mais aconselhadas, mas estamos sempre abertos a receber chamadas diretamente para nós», revela a responsável.
Os contactos podem ser feitos através de 915 246 060, 969 554 545 ou 239 484 020, e não existem perguntas que possam identificar quem contacta. «O nosso objetivo não é saber quem liga, os dados que temos são, de certo modo, estatísticos daquilo que vamos encontrando ou percebendo das conversas».
Apesar de Rita falar de “conversas”, destaca dos tipos de chamadas mais frequentes as «chamadas de silêncio». «Por vezes as pessoas só querem saber que está ali alguém para as ouvir», sublinha.
Como comemoração da efeméride de 29 anos, foi efetuada uma sessão que trouxe várias gerações da Linha SOS Estudante ao mesmo local, entre os quais Gabriel Santos, Teresa Vilaça e André Fadiga, ex-voluntários que, atualmente, já não se encontram em funções na secção.
Convidados a partilhar a sua experiência, relataram alguns detalhes que «passam despercebidos» a quem não conhece a linha. «Somos um grupo que trabalha no anonimato, mas também temos um grupo interno», adiantaram, revelando que «no início acreditávamos que podia ser um trabalho solitário, mas isso não é verdade».
Para além do que fazem para apoiar quem contacta, há apoio psicológico para os próprios voluntários. Uma “ex-atendedora” falou ao Diário de Coimbra e contou uma experiência que a marcou. «Aconteceu-me atender uma chamada e, com o descrever da situação, percebi que conhecia aquela pessoa. Não podemos quebrar o anonimato e não podemos interagir com a pessoa de forma diferente a partir do momento em que sabemos de determinada situação. Quando isso me aconteceu, aconselhei--me junto do apoio psicológico da linha», refere, admitindo que foi uma situação «pesada».
Tal como esta, muitas outras declarações realçaram a importância de comunicar e de procurar manter uma saúde mental estável. Teresa Vilaça relembrou os seus tempos como voluntária e contou que este é um trabalho «muito importante». «Por exemplo, numa chamada de silêncio ouve-se muito. Percebemos que aquela pessoa precisa de alguém que esteja lá para ela, mesmo que não haja uma conversa», e essa atuação da SOS Estudante já é «um fator de mudança», mesmo que não se saiba o rumo futuro de cada contacto.
Tânia Fonseca, vice-presidente, também se juntou à discussão para alertar sobre um “pormenor” que pode ser, por vezes, ignorado. «Nestas chamadas ouvimos algumas pessoas que têm valores diferentes dos nossos, que falam de racismo e homofobia por exemplo, mas temos de saber ouvir e respeitar porque é essa a nossa função. Não estamos ali para julgar, mas sim para ouvir, porque estas pessoas sentem que não podem expressar-se com mais ninguém», relatou.
Para além das intervenções de ex-membros, Ricardo Maria, humorista, foi convidado surpresa da sessão para animar o público presente.
Ainda há espaço para crescer e melhorar a linha SOS
Apesar de ser uma das secções mais acarinhadas pela Associação Académica de Coimbra, Rita Neves, presidente da Linha SOS Estudante, destaca que ainda há formas de expandir e melhorar a sua área de ação, um desejo que espera ver cumprido a longo prazo. «Os dados que temos mostram as 1.420 chamadas atendidas, mas a verdade é que podemos, e queremos, atender muitas mais. Temos, neste momento, cerca de 30 voluntários, mas gostávamos de conseguir um espaço maior para albergarmos mais pessoas. Desse modo conseguiríamos ajudar muito mais pessoas. Também temos a vertente financeira, é difícil financeiramente tal como para as outras secções, mas o nosso foco é mesmo conseguirmos arranjar os meios para expandir e conseguirmos mais voluntários».











