A gente morre com sonhos que nunca experimentou
Abril 30, 2026 . 10:30
"A vida exige narrativa, uma coerência mínima. Adiar é um processo. Ocorre em camadas" | Texto de António Vilhena, escritor
A morte de alguma coisa não é apenas um acontecimento. A nossa morte é, também, um processo difuso que acontece ao longo da existência. Não se anuncia, nem se concentra num instante. Manifesta-se como um somatório de renúncias, pequenas desistências que não chegam a constituir um gesto ou um desenho. A nossa vida pode ser contada pelo que se realiza, quanto pelo que se adia. Mas, há uma grande diferença: aquilo que é vivido inscreve-se, adquire espessura, deixa marcas; o que é evitado permanece sem corpo, como uma sala fechada onde o ar nunca circula. Não é memória nem projeto, é simplesmente um potencial.
. Já o sonho não vivido mantém a superfície intacta, onde se sente uma falta de presença. Não deixa cicatriz e talvez, por isso, seja mais difícil de reconhecer
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