
"Conseguimos gerir o sistema com um nível de detalhe que não existia”
Assumiu a presidência da APIN no final de 2025, tendo sido eleito em Assembleia Geral em novembro. Que balanço faz destes primeiros meses de funções, já após a aprovação das contas de 2025?
Rui Sampaio Este primeiro período foi, sobretudo, de consolidação e de conhecimento aprofundado do sistema. A aprovação das contas de 2025 permite-nos fazer uma leitura clara da situação da empresa. Encontrámos uma organização profundamente transformada, na sequência de um ciclo de investimento muito significativo que decorreu até 2023, e cujos resultados começam agora a tornar-se cada vez mais evidentes. Hoje temos infraestruturas modernizadas, sistemas de informação implementados e uma base tecnológica que permite uma gestão muito mais eficiente. Estamos, no fundo, a entrar numa fase em que esse investimento se traduz em ganhos operacionais e em melhoria do serviço prestado.
Essa nova fase traduz-se em quê, na prática?
Traduz-se numa mudança de foco. Durante vários anos, o esforço esteve muito concentrado no investimento — na reabilitação de redes, na expansão do saneamento, na aquisição de equipamentos e na implementação de sistemas de informação. Hoje, esse ciclo está maioritariamente concluído. O desafio passa a ser tirar o máximo partido desses investimentos, melhorar a eficiência operacional e garantir a sustentabilidade do sistema. É uma fase mais exigente do ponto de vista da gestão, que exige rigor, capacidade de decisão e foco nos resultados.
A redução de perdas de água tem sido uma das áreas mais visíveis desse trabalho. Que evolução já é possível destacar?
Os resultados são muito encorajadores e confirmam que o caminho seguido está a produzir efeitos. Entre 2022 e 2025 foi possível reduzir de forma significativa as perdas reais de água, com uma poupança acumulada de cerca de 3 milhões de metros cúbicos. Importa também destacar que já existe um município do sistema com níveis de perdas abaixo dos 20%, o que constitui um indicador muito positivo e demonstra que é possível atingir níveis de eficiência elevados mesmo em territórios com características exigentes. Este resultado resulta de um trabalho consistente, baseado na criação de zonas de medição e controlo, na instalação de equipamentos de monitorização, na utilização de sistemas de telegestão e na intervenção em redes degradadas.
Os resultados são muito encorajadores e confirmam que o caminho seguido está a produzir efeitos
Até que ponto a tecnologia e os sistemas implementados têm contribuído para essa evolução?
Têm sido absolutamente determinantes. Hoje conseguimos gerir o sistema com um nível de detalhe que não existia anteriormente. A monitorização em tempo real permite-nos detetar anomalias mais cedo, atuar de forma mais rápida e direcionar melhor os recursos. Isso traduz-se numa redução de perdas, numa maior eficiência das equipas e numa melhoria global da operação.
O investimento realizado nos últimos anos foi muito significativo. Onde é que esse esforço foi mais relevante?
Uma parte muito relevante desse investimento foi direcionada para a expansão do sistema de saneamento, que era uma necessidade estrutural em vários dos municípios. Aliás, já começam a ser visíveis alguns efeitos concretos dessa expansão. Em 2025 registou-se uma redução global de cerca de 9,6% no número de limpezas de fossas sépticas. Esta evolução está diretamente associada ao aumento da cobertura da rede de saneamento e à integração progressiva de utilizadores no sistema, constituindo um sinal muito positivo do ponto de vista ambiental e da eficiência do serviço. Para além disso, houve um esforço importante ao nível da reabilitação de redes, da modernização da frota e da implementação de sistemas de informação e telegestão.
Estão também a ser desenvolvidas ações ao nível da regularização de utilizadores servidos que não estão ligados?
Sim, e esse é um trabalho relevante nesta fase. Temos identificado situações de utilizadores que, estando já servidos pela rede de saneamento, continuam a não estar devidamente ligados ao sistema. Estamos a desenvolver um esforço no sentido de regularizar essas situações, notificando os utilizadores e promovendo a sua integração na rede. Trata-se de uma medida importante, quer do ponto de vista ambiental, quer do ponto de vista da equidade no sistema.
A prioridade é consolidar o que já foi feito, garantir que os ativos estão a ser plenamente utilizados e assegurar que qualquer novo investimento tem um impacto claro na eficiência do sistema
Com esse ciclo de investimento praticamente concluído, a APIN está a preparar uma nova fase?
Sim, mas com uma abordagem mais prudente. Estamos a olhar para um novo ciclo de investimentos, mas com seletividade. Importa também referir que ficaram algumas intervenções por concretizar no âmbito do quadro comunitário anterior, sobretudo ao nível do saneamento, que serão naturalmente priorizadas neste novo ciclo. A prioridade é consolidar o que já foi feito, garantir que os ativos estão a ser plenamente utilizados e assegurar que qualquer novo investimento tem um impacto claro na eficiência do sistema e na qualidade do serviço.
Os resultados financeiros de 2025 refletem já essa transição?
Refletem, de forma clara. A APIN apresentou um resultado antes de impostos na ordem dos - 500 mil euros. Num sistema com a dimensão da APIN, distribuído por 10 municípios, este valor tem um impacto reduzido quando analisado individualmente. Mais importante do que o resultado em si é a tendência. Verifica-
-se uma melhoria ao nível do controlo de custos e da eficiência operacional, o que demonstra que os investimentos realizados começam a produzir efeitos.
Há também preocupações ao nível da gestão comercial e da medição?
Sim, e são preocupações muito concretas. Estamos particularmente atentos à idade média dos contadores e à necessidade de garantir uma medição rigorosa dos consumos. Ao mesmo tempo, estamos a reforçar a deteção de situações ilícitas, que prejudicam o equilíbrio do sistema. Nestas matérias, a atuação da APIN será sempre exigente e exemplar, garantindo o cumprimento das regras e a equidade entre todos os utilizadores.

Os utilizadores já sentem essa evolução na qualidade do serviço?
Sim, de forma progressiva. A modernização das infraestruturas e da operação traduz-se em maior fiabilidade do abastecimento, menos ocorrências e tempos de resposta mais rápidos. É um trabalho muitas vezes invisível, mas com impacto direto na qualidade do serviço.
Já em 2026, a tempestade que afetou a região provocou danos significativos nas infraestruturas. Que impacto teve na APIN?
Teve um impacto relevante. Estamos a falar de danos significativos em várias infraestruturas, com prejuízos que estimamos entre 1,5 e 2 milhões de euros, ainda em fase de consolidação. Além do impacto financeiro, foi uma situação particularmente exigente do ponto de vista operacional, que obrigou a uma resposta rápida e coordenada em vários municípios. Aproveito também para deixar uma palavra de reconhecimento aos colaboradores da APIN, que estiveram no terreno em condições difíceis, assegurando a continuidade dos serviços e demonstrando um elevado sentido de responsabilidade e profissionalismo.
Prestar serviços de água, saneamento e resíduos em territórios de baixa densidade implica custos mais elevados por utilizador
Persistem desafios estruturais, nomeadamente ao nível dos custos no interior. Como encara essa realidade?
É um desafio estrutural. Prestar serviços de água, saneamento e resíduos em territórios de baixa densidade implica custos mais elevados por utilizador, devido à dispersão geográfica e à menor escala. A isso acrescem fatores externos, como o aumento da Taxa de Gestão de Resíduos ou questões fiscais, que têm impacto direto no sistema. Defendemos que estas matérias devem ser tratadas com uma perspetiva de equidade territorial.
Foram recentemente conhecidos os dados da ERSAR relativos a 2024 que incluem Penacova. Que leitura faz desses indicadores?
Os primeiros indicadores evidenciam níveis de recuperação de custos significativamente inferiores aos do sistema da APIN, o que demonstra a exigência que existe na gestão destes serviços quando não existe escala suficiente. Mais do que uma comparação direta, o que estes dados mostram é a importância de modelos com dimensão, capacidade técnica e gestão profissionalizada. Foi precisamente para responder a esse desafio que a APIN foi criada, e é isso que continua a justificar a validade do modelo intermunicipal.











