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Rastreio do cancro da mama: aventura começou há 40 anos e é hoje exemplo

Em 1986, num processo liderado pela Liga Portuguesa contra o Cancro (LPCC), um mamógrafo colocado numa carrinha Hiace dava, na região Centro, um passo pioneiro para um projeto que há quatro décadas salva vidas

1986. Numa altura em que falar de cancro da mama era, na esmagadora maioria dos casos, falar numa sentença de morte, arrancava, na região Centro, num processo liderado pela Liga Portuguesa contra o Cancro (LPCC) o projeto piloto do Rastreio do Cancro da Mama.

Através deste projeto, aproximadamente 7.400 mulheres, de 17 concelhos da região Centro, eram convidadas para, ao longo de quatro anos, se deslocarem à “carrinha da Liga” e se submeterem ao exame que permitia detetar a doença e estádio de evolução.

«Tudo foi feito numa carrinha Toyota Hiace, onde se meteu um mamógrafo. As mamografias eram lidas nesta sala», recorda ao Diário de Coimbra Vítor Rodrigues, falando precisamente no atual gabinete do presidente do Núcleo Regional do Centro (NRC) da LPCC, onde, na altura, os diagnósticos eram confirmados.

O cenário não era “famoso”.

Muitas das mulheres que, aos poucos, foram aderindo ao projeto de rastreio apresentavam «uma fase avançada ou até terminal» de cancro da mama, recorda aquele responsável, o que justificou ainda mais o facto de, em 1990, também na região Centro, e com o apoio do Ministério da Saúde, ter arrancado oficialmente o Rastreio do Cancro da Mama que, ao longo do tempo, e sempre com a liderança da LPCC, se foi alargando a todo o país.

Hoje, 40 anos depois, não há mais carrinhas Toyota Hiace e a tecnologia é bem mais sofisticada, de tal modo que há projetos para a aplicação da Inteligência Artificial na leitura dos exames.

Mas é certo que, o passo dado em 1986, integrado num programa europeu de projetos piloto que envolveu cidades em Espanha, Grécia, França, Bélgica ou Itália, veio a marcar «uma transição, uma mudança de paradigma perfeitamente brutal» na forma como se encara o cancro da mama.

«Vem permitir uma clara poupança em saúde, em termos de tratamentos e cirurgias, mas também em prevenção», sublinha Vítor Rodrigues, considerando que este rastreio - que é um «caso de sucesso de trabalho em rede, de junção de vontades e de cooperação entre instituições» - é exemplo de «como podemos atuar não na doença, mas na saúde».

«Isso representa uma mudança de paradigma enorme, ao longo destes últimos 40 anos», continua.

De tal maneira que, apesar de continuar a haver «medo ou vergonha» e também mulheres que «escolhem não querer saber», só no ano passado, na região Centro, foram convocadas às “carrinhas da Liga” 152.524 mulheres, entre os 45 e os 69 anos, para participar no rastreio e disseram “presente” 111.812, o que representa uma taxa de participação de 73,31%.

Neste momento, há três cancros diagnosticados a cada 1.000 mulheres rastreadas mas, ao contrário do que aconteceu há 40 anos, a esmagadora maioria dos diagnósticos são feitos numa fase muito inicial da doença, o que significa a possibilidade de controlo e que «a pessoa irá morrer com cancro, mas não de cancro». 

Disponível para rastreio do cancro do pulmão

A LPCC deverá chegar este ano aos 130 a 135 mil rastreios de cancro de mama no Centro, número que dita bem o seu sucesso e que leva a questionar por que não é replicado noutros tipos de cancro.

Vítor Rodrigues, ao mesmo tempo que acha «espantoso» o que aconteceu nestes 40 anos, resultado de «um programa muito bem construído», lamenta que o modelo não seja efetivamente replicado, em particular no que respeita ao cancro do pulmão para o qual há «neste momento dois projetos piloto» e a vontade já declarada da Liga de avançar.

Faltará vontade política, diz, não tendo dúvidas, tendo em conta o número de casos, quanto à importância deste rastreio.|

LPCC devolve à sociedade a sua generosidade

Além dos peditórios, LPCC sobrevive de doações como o IRS Solidário, através do qual será possível doar 1% do IRS à instituição

P8 Lpcc Irs Solidário

O Rastreio do Cancro da Mama será o lado mais visível do trabalho desenvolvido pela LPCC. No entanto, a dimensão da instituição, que completou 86 anos de existência, é muito maior. Na LPCC, o doente com cancro tem apoio em todas as dimensões, desde os medicamentos ou próteses, aos transportes, alimentação, apoio psicológico ou jurídico. E, só nestas vertentes, no ano passado, os apoios ultrapassam os 184 mil euros no NRC-LPCC.

A Liga tem ainda um vasto número de voluntários hospitalares, comunitários, de entre-ajuda, que dão apoios vários ao doente oncológico e famílias, para além de projetos de educação e sensibilização das populações e, entre outros, de apoio à investigação relacionada com o cancro, através de bolsas, o que representou, só no ano passado, um investimento de 70 mil euros.

Como diz Vítor Rodrigues, «a Liga devolve à sociedade o que a sociedade investe na Liga».

E isto significa dizer que «o trabalho da Liga só funciona porque tem essa base, [a da solidariedade da população], que permite avançar com respostas e projetos sem estar à espera [de apoios]», continua o responsável, não tendo dúvidas de que é graças ao «envelope financeiro» que dão os donativos dos portugueses que é possível à Liga Portuguesa contra o Cancro ser uma resposta eficaz e fundamental, em tantas dimensões, para o doente oncológico e família, ou fazer investimentos nesse sentido, em equipamentos e em meios técnicos, entre outros.

Os peditórios anuais, realizados por voluntários da LPCC, permitem esse «fundo de maneio» de que fala o responsável, assim como também o IRS Solidário, neste momento em vigor, através do qual será possível a qualquer pessoa doar gratuitamente 1% do seu IRS à LPCC para apoiar doentes oncológicos, bastando colocar o NIF 500 967 768 no quadro 11 (campo 1101) da sua declaração de IRS. 

Abril 13, 2026 . 09:00

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