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Conservatório de Música de Coimbra “teve um crescimento incrível”

Conservatório de Música de Coimbra, hoje Escola Artística também com teatro e dança, sente que o momento é de definição do futuro, num ensino caro e ainda pouco democrático no país. Há oportunidades de expansão, mas requerem condições, assinala o diretor. Comemorações de aniversário começam hoje.

Nos 40 anos, que agora celebra, o Conservatório de Música de Coimbra (CMC) «teve um crescimento incrível», assinala o diretor António Devesa.

Numa casa de ensino artístico especializado público com 1.300 alunos, pessoal docente e não docente dedicado e até apaixonado, o futuro será a resposta à questão “e agora?”, com duas possibilidades: expandir ou tentar manter e melhorar a qualidade.

Na verdade, o caminho iniciado aponta para a expansão, até porque a qualidade está assegurada, mas requer condições para prosseguir.

As quatro décadas de história encerram em si vários períodos diferentes do que significou o ensino artístico especializado em Portugal, acompanhados e aproveitados também pela instituição, e a agora Escola Artística do Conservatório de Música de Coimbra (EACMC), com música, dança e teatro, dá sinais de querer continuar a crescer.

«Temos de pensar como nos situamos na Região do Coimbra e de que forma é que queremos chegar a mais pessoas».

Para o diretor, há alguns indicadores a ter em conta, «como a procura, com aquilo que os presidentes de Câmara, volta e meia, sentem», o interesse local, a motivação de quererem um polo da EACMC no seu território.

O que «não é linear, não querem todos ao mesmo tempo, mas vai aparecendo», geralmente para dar respostas às filarmónicas, logo mais para a parte de sopro e percussão.

O primeiro polo surgiu em 2015, na Sertã, que nem sequer é do distrito de Coimbra.

Só que houve vontade local, a que se juntou o facto de muitos alunos da Sertã escolherem o Conservatório de Coimbra para estudar.

Era preciso ali «alguma resposta», que seria dada em articulação com a Câmara, Escola Tecnológica e Profissional da Sertã e Conservatório de Coimbra, então dirigido pelo professor Manuel Rocha.

 

" Ensino especializado é caro para o Estado. Mas os polos podem ser possibilidade para o democratizar "

 

Dois anos depois aconteceu o mesmo em Arganil, sob direção da professora Maria José Nogueira, e em 2023 é criado o polo de Miranda do Corvo, já sob direção de António Devesa. As motivações são transversais: apoio a uma economia muito local, necessidade de formação, combate ao envelhecimento das próprias filarmónicas e ter ensino artístico especializado.

Quando assumiu a direção da EACMC, em 2023, António Devesa sentiu que essa descentralização ou democratização do ensino tinha muito a ver com o seu projeto de intervenção.

«Este é um ensino que já tem o problema» de exigir provas para entrar. E só entram alguns, «portanto exclui». Se exclui, analisa, «por essa via torna-se pouco democrático». Ou seja, reflete ainda, não é simplesmente a vontade de um pai em inscrever o filho para ele ter aulas de música. Isso será a educação artística que pode fazer «em qualquer escolinha» [termo que, frisa, não é dito em tom depreciativo], ou com um professor particular. Mas tem de pagar «e também é pouco democrático por essa via», deduz, porque «se o pai não tiver dinheiro não consegue pôr o filho na música».

Depois, desenvolve o diretor, há outras variáveis que tornam o ensino artístico especializado ainda menos democrático, mesmo na escola pública, como é o caso do conservatório. Nem todos entram pela via das vagas.

Diretor Conservatório António Devesa 1

«Se o meu filho viver em Coimbra, ele pode fazer provas, e se tiver aptidão, ou mais aptidão do que os colegas que vão fazer a mesma prova, pode entrar», exemplifica. Agora, observa, se o pai vive a 50 quilómetros, dificilmente fará esse caminho todos os dias. Haverá um ou outro, mas será raro. O que quer dizer, constata o diretor, que o local onde a pessoa vive, «onde geograficamente está», tem «influência sobre se tem ou não acesso ao ensino artístico especializado público, ou seja, gratuito». Neste quadro, questiona-se: como tornar este ensino um pouco mais democrático, para que o local de residência não seja um obstáculo?

E é neste contexto que entra a lógica dos polos, sem ignorar que é um «ensino caro para Estado», individualizado, com «um professor, um aluno, durante 35 minutos». E esse aluno ainda terá aula de conjunto, formação musical e a partir de 10.º ano cadeiras como história da música e composição. Ora, prossegue, os polos encerram «alguma oportunidade» e podem ser uma opção «vantajosa» para o Estado. Porquê? «Porque não tem investimento inicial» no equipamento (imóvel) e na manutenção. Sendo do interesse de um presidente de Câmara ter no seu território ensino artístico especializado, e havendo acordo com o Estado, essas despesas serão da administração local.

Para o diretor, se o Estado tiver essa visão, poderia adotar os polos como «boa solução» para chegar a todo o território e dar assim «a possibilidade democrática de qualquer família» aceder ao ensino artístico especializado.

Até por não ser possível construir conservatórios em todas as localidades.

António Devesa coloca para exemplo o polo de Miranda do Corvo. Nos graus lecionados, incluindo iniciação, «tínhamos cerca de 15 alunos», número que triplicou em três anos. Ou seja, «quando chegar ao 5.º grau [último lecionado nos polos, alunos de 14 anos] vamos ter muito mais alunos só do concelho de Miranda do Corvo», observou.

Mas, «se não existisse o polo Miranda do Corvo... se calhar 80 % ou 90 % daqueles alunos não andavam no ensino artístico especializado». Seria, pois, importante ter um conservatório por distrito e depois polos [que podem ter formação superior ao 5.º grau mas com cadeiras no conservatório]. E é «muito importante» haver escala no ensino artístico especializado, diz.

Quando os alunos chegarem ao conservatório, com 15 anos, maior mobilidade e já formação até ao 5.º grau, têm a experiência de estar numa escola grande e de poderem participar, também a título de exemplo, numa orquestra, o que não será possível numa escola pequena, com seis, sete, 10 alunos.

«As experiências são outras, o enriquecimento é outro», há preparação para o ensino superior, sublinha António Devesa, com o diretor a destacar a «formação muito mais completa» no conservatório, com mais ferramentas, estúdios, outro conhecimento de tudo o que pode vir a fazer no futuro.

Para haver mais polos na Região de Coimbra é preciso que o conservatório também tenha condições, «porque aumentar o número de escolas é aumentar a pressão sobre uma Direção». Logo, o ideal será que cada polo tenha «condições em termos de coordenação», ficando para a Direção «apenas o que não é delegável».

De momento, explica António Devesa, não é possível atribuir horas de crédito horário a um professor para exercer as funções de coordenação, a lei não permite.

«Precisamos que essa lei seja mudada», ou outra forma de cálculo, ou que a existência de um polo atribua automaticamente horas para coordenação, pondera, ao deixar perceber que na Região de Coimbra há pelo menos dois municípios interessados em ter polos do conservatório. Há vontades e expectativas, garante.

Programa:

De hoje a sábado, as comemorações dos 40 anos do Conservatórios de Música de Coimbra incluem concertos, galas, workshops e reflexões.

Na última quinta-feIra, divulgámos o programa completo, mas fica a lembrança de que hoje, às 21h30, há concerto, com orquestra por ex-alunos no grande auditório.

Entre as atividades, destaque também para os concertos de quinta-feira, por professores (18h30) e depois às 21h30 (Dia Mundial da Voz) ou para a gala de dança, na sexta-feira (16h00).

No sábado háverá concertos às 10h00, 11h00, 12h00 e 14h00. 

Abril 13, 2026 . 08:00

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